Um país, um esporte, dois momentos:
Pra Frente Brasil x #NaoVaiTerCopa
As
expectativas para a Copa em 2014 e o que a difere da Copa de 70
Nathalia Alves
O
jingle publicitário da Fiat na voz de Marcelo Falcão foi criado para exaltar a
Copa das Confederações de 2013, mas teve destaque mesmo quando passou a embalar
as manifestações de junho daquele mesmo ano. A hashtag “#vemprarua” ganhou as
redes sociais e em pouco tempo já não era mais associada à fabricante de
automóveis, ou ao evento organizado pela FIFA, e sim aos protestos que tomaram
as ruas do país. Era uma prévia do que vinha pela frente, um Brasil que não
deixaria o futebol desviar sua atenção enquanto havia outras questões em pauta.
Um Brasil que, em 2014, substituiria o “#vemprarua” pelo “#naovaitercopa”,
demonstrando seu descontentamento com os gastos exorbitantes nos preparativos
da Copa do Mundo. Um Brasil muito diferente daquele de 1970, no futebol, na
política e na postura de seu povo.
“Em 1970 não existia
essa rejeição à Copa, ou se existia ao menos não tinha essa mesma divulgação.
As redes sociais hoje, sem dúvida, permitem que as pessoas dialoguem mais,
divulguem mais suas opiniões”, conta o médico Mauro Alves, que tinha 14 anos na
época. “Grande parte do povo está mais politizada, até porque durante a
ditadura não se falava abertamente sobre esses assuntos, não só por alienação, mas
também por medo.” A insatisfação dos brasileiros em 2014 está também
intimamente ligada aos gastos com a construção dos estádios, o que não existiu
em 1970, já que naquele ano a Copa foi sediada pelo México.
Aquela foi a nona edição da Copa do Mundo FIFA de Futebol, e ocorreu de 31 de maio a 21 de junho. Nessa Copa o Brasil
conquistou o tricampeonato mundial, fazendo história como o primeiro país a
alcançar o título três vezes, o que lhe rendeu a posse definitiva da taça Jules
Rimet. Essa foi também a primeira Copa a ser transmitida pela televisão para o
povo brasileiro, e a vitória do Brasil teve cobertura extensiva da mídia,
servindo como instrumento de propaganda para o regime militar da época. “Existia até uma música que embalava toda a euforia
patriótica do governo militar. Era uma forma de fazer com que a população
esquecesse os problemas inerentes ao governo e os problemas sociais”, lembra
Mauro, logo depois de arriscar alguns versos da canção Pra frente Brasil, da autoria de Miguel Gustavo.
Ópio do povo
O ano de 1970 foi um dos anos de maior
tensão na ditadura militar implantada em 1964. Foi um período de luta
armada, com o surgimento de organizações de esquerda que optaram pela
guerrilha, recorrendo a sequestros de diplomatas estrangeiros para trocá-los
por prisioneiros políticos. Em
janeiro de 1970 foram criados os Centros de Operações para a Defesa Interna
(CODI), e os Departamentos de Operações Internas (DOI), que juntos formavam o
DOI-CODI. O regime exilava e
torturava aqueles que se opunham a ele ao mesmo tempo em que o povo vibrava com
os gols da Copa e a economia atingia o auge do que se chamou de “milagre
econômico”. A popularidade do governo militar nunca tinha sido tão alta, em
grande parte graças a sua diretriz desenvolvimentista, mas também pelo apelo a
uma das grandes paixões dos brasileiros: o futebol.
“O futebol sempre mexeu com o povo
brasileiro”, afirma Mauro categoricamente, logo admitindo não ser exceção. “Me lembro de assistir a final de 70 no quintal de uma
vizinha que botou uma televisão e todo mundo sentou por lá, querendo comemorar
junto. A vizinhança toda reunida em torno daquele televisor e torcendo pela
seleção.” As preocupações políticas poderiam até existir, mas muitas
vezes eram momentaneamente suspensas quando o Brasil entrava em campo. “Outra coisa que me marcou muito foi a chegada da
seleção no aeroporto do Galeão. Foi um momento lindo. Talvez um dos poucos
momentos felizes de 1970. Um momento em que a população pôde comemorar.
Podíamos dizer que nisso nós éramos os melhores do mundo. Pelo menos nisso.”
O
presidente, Emílio
Garrastazu Médici, queria
passar justamente essa imagem, a de “homem do povo” apaixonado por futebol como
qualquer outro brasileiro. E a conquista do tricampeonato foi exaustivamente
explorada por seu governo em slogans como “Ninguém segura este país” ou
“Brasil; ame-o ou deixe-o”, passando a ser vista e difundida como mais um
triunfo do regime militar.
Em
seu retorno a solos brasileiros, a seleção foi recebida pelo próprio
presidente, que ergueu a taça Jules Rimet em uma cena que se tornaria icônica.
Em maio de 2014 uma fotografia desse momento foi destaque em “Registros de uma Guerra Surda”, uma exposição na sede do Arquivo Nacional, no centro do Rio. A foto
foi exibida em uma seção que mostrava justamente o como os militares
conquistaram apoio de parte da população. “A ditadura militar ficou tantos anos
no poder porque, embora alguns setores da sociedade se articulassem para
combatê-la, muitas pessoas apoiavam o regime”, diz Viviane Gouvêa, cientista
política e curadora da mostra em entrevista ao Correio Braziliense.
O
técnico que classificou o Brasil para a Copa de 1970 foi João Saldanha, um
jornalista da época, mas ele acabou substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo.
Alguns dizem que o afastamento de Saldanha se deu por conta de uma pretensa
interferência do então presidente da república na escalação do time. “Existe uma frase do João Saldanha, e eu assisti um depoimento
dele sobre isso mais tarde na UFF, em que ele diz ao Médici que da mesma forma
que ele não escala os ministros o presidente não poderia interferir na
escalação da seleção brasileira.”
Mas é provável que a demissão de Saldanha tenha mais a
ver com política do que com a ousadia de sua declaração. Havia suspeitas de que
ele fosse militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e o governo temia
que pudesse tirar proveito da visibilidade internacional do evento para
denunciar a tortura empregada pelo regime. Uma oportunidade que grande parte da
população não pretende perder agora que a Copa acontecerá em terras brasileiras
e os olhos do mundo estarão voltados para o país.
O cenário atual é bem diferente daquele de 1970.
Naquela época o Brasil assistia a transmissão televisiva de uma Copa do Mundo
pela primeira vez, agora existe a internet e ela está sendo usada como
ferramenta para promover discussões nas redes sociais e combater a alienação.
Não há ditadura, mas isso não significa que não haja insatisfações. “Não adianta protestar durante a Copa e continuar
colocando governantes incompetentes no poder. Em vez de perder tanta energia
dessa forma, poderiam começar a procurar o histórico de cada candidato para um
voto consciente e dar a chance do país ter melhorias para os próximos quatro
anos”, reclama a estudante Suzane Moura, incomodada com o bombardeio de
imagens e declarações contra a realização da Copa do Mundo em seu feed do Facebook, alegando que o momento
certo para protestar contra a copa já havia passado e que o prejuízo econômico
será ainda maior se o evento for um fiasco. Nas redes sociais, não faltam
discussões acaloradas como essa. Nem todos apoiam o movimento que pretende
sabotar a Copa, mas a grande maioria quer mudanças.
A seleção canarinho
e sua atuação em 70
Até
hoje a seleção de 70 é celebrada como uma das melhores atuações do Brasil em
mundiais. Ao longo da competição o país traçou uma campanha ímpar sem nenhuma
derrota em seis jogos, 19 gols a favor e sete gols contra, além de ter
Jairzinho no trio de artilharia com sete gols. Para a conquista do tri, o
Brasil contou com um elenco de craques. No gol, Félix. Na defesa, Brito, Wilson
Piazza, Carlos Alberto e Everaldo. Clodoaldo, Gerson e Tostão jogavam no meio
de campo. E no ataque, Jairzinho, Rivelino e Pelé, que se despediria do futebol
naquele mesmo ano.
“Tínhamos jogadores de técnica apurada, a ponto do
técnico da época, o Zagallo, ter que escalar dois jogadores que tinham uma habilidade
fantástica, para jogarem em posições que não eram as suas originais. Por
exemplo, o Piazza, que jogava no meio campo do Cruzeiro foi jogar como zagueiro
na Copa de 70, já que havia outros jogadores no meio campo. Zagallo queria
utilizar todos os melhores jogadores em atividade do Brasil nessa seleção”,
lembra Mauro. Outros notórios exemplos desta escalação eram Rivelino, que
jogava como ponta esquerda recuada, e Jairzinho que jogava no Botafogo como
centroavante e na seleção foi ponta direita.
Segundo Mauro, a equipe de 70 poderia ter a técnica
superior, mas não poderia competir com o condicionamento físico dos jogadores
de hoje. “O futebol em 1970 não tinha o mesmo desenvolvimento físico que tem agora.
Há uma crescente evolução nesse sentido e o dinheiro investido na preparação
dos atletas é também muito maior.” Para ilustrar a diferença, Mauro contou que
via o zagueiro Hércules Brito Ruas, mais conhecido como Brito, correndo na Ilha
do Fundão alguns meses antes da Copa. O jogador teria sido posteriormente
reconhecido pela imprensa mundial como melhor preparo físico do campeonato. “Em
teoria, os jogadores da Europa tinham maior preparo, maior investimento, porém
o Brito, de maneira autônoma, conseguiu se preparar a ponto de ser considerado
o melhor preparo físico da Copa de 70.”
Mas as diferenças não param por aí. Na época, todos os
jogadores da seleção provinham de clubes nacionais. “Jogador
brasileiro jogava no Brasil, não lá fora. Agora você vê, a seleção brasileira atual
só tem três que jogam no Brasil. Na época a gente dizia que os jogadores
estrangeiros aprendiam a jogar futebol com a gente. Hoje, o Brasil aprende a
jogar lá fora”, critica o aposentado Almir Silva, se apressando em dizer que
não se trata apenas de saudosismo. “É que entrou também a questão do dinheiro.
Naquela época os jogadores não ficavam ricos nem milionários. Jogavam por
prazer, por esporte.”
A Copa de 70
não marcou apenas a primeira nação a conquistar o tricampeonato, ou a última
Copa de Pelé, mas também foi pioneira em aspectos técnicos do esporte
disputado. Foi a primeira Copa do Mundo a dar o direito de duas substituições
por equipe no decorrer de cada partida, a primeira em que os árbitros
utilizaram os cartões amarelo e vermelho para advertência e expulsão de atletas
e a estreia de uma bola adidas, a chamada Telstar, conhecida mundialmente por
seu padrão xadrez preto e branco. Aquela também foi uma Copa de exímias
atuações da seleção canarinho.
A
campanha rumo ao tri começou com uma goleada de 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia. Depois,
a equipe brasileira entraria em campo para um dos jogos mais aguardados daquele
mundial, Brasil vs Inglaterra, a última campeã. Quem
viu, afirma que a partida foi memorável e a que deu mais trabalho para nossa
seleção. “O
Brasil nem era o favorito em 70, pois na Copa anterior, em 1966, teve má
atuação, onde se esperava muito do país e nossa seleção não conseguiu passar
nem das quartas de finais. A favorita era, sem dúvida alguma, a Inglaterra.” Foi
essa a disputa que contou com aquela que é considerada a defesa mais famosa da
Copa do Mundo FIFA de Futebol, quando Gordon Banks saltou para defender a rede
de uma cabeçada de Pelé e conseguiu espalmar a bola por cima da meta.
Nas
semifinais, o Brasil teve finalmente sua vingança sobre o Uruguai, desde a vitória
da Celeste sobre o Brasil, vinte anos antes. Já na decisão contra a Itália, foi
Pelé quem abriu o placar com uma cabeçada. Os uruguaios conseguiram empatar,
mas no segundo tempo só deu Brasil, com gols de Gérson, Jairzinho e Carlos
Alberto. Em seus televisores, milhões de expectadores assistiam deslumbrados o
Brasil vencer a competição pela terceira vez.




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