Por Fernanda Rezende
Copa do México, ano de
1970: a Seleção Brasileira deixou o Estádio Azteca na Cidade do México, no dia
21 de junho, com o terceiro título de campeão do mundial de futebol. O Brasil
goleou a Itália por 3x1. 107 mil pessoas no estádio e milhões de brasileiros
acompanharam, pela televisão, a vitória do país. A seleção perdedora de 66 foi
substituída pelo um orgulho nacional.
As transmissões dos jogos
eram um acontecimento. Essa Copa foi a primeira transmitida ao vivo, pela
televisão, via satélite. Nesse ano também foi feita, para um público seleto e
em caráter experimental, a primeira transmissão de TV em cores no país, pela
empresa Embratel. Mesmo os que não tinham acesso à nova tecnologia se reuniam
com familiares e amigos para ver os jogos pela televisão em preto e branco. É o
caso do carioca Alcir Ferreira, de 77 anos, morador da Glória:
-Assistia às
transmissões com a minha família. Não existia a televisão de 50 polegadas
ainda, então víamos na de 40. Todo o mundo se reunia para isso, era um
verdadeiro evento. As transmissões hoje são melhores por isso, mas duvido que Copa
do Mundo desse ano seja boa como aquela. Gostava de assistir em casa, só quando estava trabalhando eu via no bar perto do trabalho - comenta,
Alcir.
Decorações e comemorações
O Rio de Janeiro, assim
como resto do país, estava em festa. A cidade, começou naquele ano, a enfeitar as
ruas para as Copas do mundo. O costume que perdurou pelas edições seguintes
está mais tímido neste ano, muitos endereços famosos pela decoração estão
enfeitando as ruas somente agora, como é o caso da Jorge Rudge, em Vila Isabel.
Segundo o
morador Luís Cláudio Cotta, em reportagem ao jornal O Globo, a preparação da rua começa entre 50 e 45 dias antes do
mundial, mas os protestos contra a Copa inibiram um pouco os torcedores este
ano. Ele afirma que os moradores não são alienados, mas é uma tradição enfeitar
a rua e não será diferente agora.
Para o contador João Rezende, de 53
anos, as lembranças da época dourada dos anos 70 são poucas mas ele se recorda
de como o Rio de Janeiro estava enfeitado.
- Eu tinha apenas 13 anos, mas me
lembro muito bem das comemorações do dia da final quando o Brasil foi campeão.
Nunca mais vi aquela comemoração, nem nas outras vezes que fomos campeões. No
dia da final de 70, depois da vitória, nós fomos para a minha região da
grande Tijuca e houve uma festa muito legal. O povo da região se reuniu e todos
pulavam de alegria. Todo mundo reunido e festejando o tri-campeonato mundial-
relembra.
Os Desafios de 2014
Em 1950, o Brasil sediou pela
primeira vez uma Copa do Mundo e, esse ano, o país vai ter pela segunda vez o
campeonato mundial. Os desafios são muito maiores dessa vez e a tarefa de
realizar obras que atendessem as necessidades esportivas e turísticas do país
não foram cumpridas em sua integridade.
Uma das principais obras no Rio de
Janeiro, o corredor de ônibus BRT Transcarioca, só foi inaugurado na última
segunda-feira, apenas uma semana antes da abertura da Copa. O projeto, que custou R$ 1,9 bilhão, deverá atender a 400 mil
pessoas por dia e vai ligar o Galeão a Barra da Tijuca. Já o próprio
aeroporto está inacabado. No país todo, projetos de 11 obras foram abandonadas. Para justificar, o governo
atribui a culpa à burocracia e as alterações de projetos.
Na matéria Copa do Mundo em 2014: O duplo desafio brasileiro
(Revista Sociologia), sediar a copa esse ano significa,
para o Brasil, demonstrar a superação da condição histórica do processo de
expropriação, da condição de ex-colônia e de país "subdesenvolvido",
e revelar-se um país moderno. Esse cenário não está se confirmando
-A modernização tecnológica e o desenvolvimento econômico são
os princípios norteadores do ideal da sociedade moderna. Entretanto, os séculos
de exploração representaram e representam um obstáculo aos países colonizados
no que se refere à possibilidade de propagação desse ideal. O Brasil, neste
contexto histórico, como país sede da Copa do Mundo de 2014, encontra-se em um
duplo desafio: primeiro criar condições estruturais para sediar o evento;
segundo, apresentar uma excelente seleção para fazer jus à condição de país do
futebol e receber o título de campeão mundial em casa- afirma Adriane Nopes,
pesquisadora em estudos sociais e redatora do artigo.
Por trás da Copa
O ano foi de festa no
futebol, mas de tensão na política brasileira. 1970 foi um o ano do chamado
"milagre econômico" no país, muitos empréstimos e investimentos
estrangeiros entrando no Brasil, a criação de empregos em massa e a inflação
sob controle. Na época, a economia
brasileira crescia mais de 10% ao ano. Já no campo político, a realidade era
outra: uma época de intolerância marcada pela censura à imprensa e atos de
repressão contra os opositores ao estado ditatorial instaurado desde de 1964.
O presidente general
Emílio Garrastazu Médici comandou uma política enérgica determinada a acabar
com os grupos de esquerda.Uma das ações foi a criação dos núcleos regionais de
repressão vinculados ao Exército, os DOI-Codi (Destacamento de Operações de
Informações e Centro de Operações de Defesa Interna).
No mesmo ano, também entrou em vigor a
Operação Bandeirantes (Oban), uma organização paramilitar formada por três fronts: Forças Armadas, Polícia Federal e polícias estaduais, que tinha por objetivo prender, torturar e assassinar os representantes da esquerda.
A repressão aos
simpatizantes de esquerda tomava grandes proporções em todas as áreas da
sociedade e o futebol não ficou de fora. O jornalista João Saldanha, que
assumiu o comando da seleção em 68, já nas eliminatórias da copa de 70, saiu do
cargo mesmo depois de ter conseguido seis vitórias e 23 gols contra os times da
Colômbia, Paraguai e Venezuela. O técnico era um ex-militante do extinto PC
(Partido Comunista). Há suposições de que o técnico não admitira uma
intromissão do então presidente na escolha dos jogadores.
O cargo foi devolvido a Zagallo pelo
presidente da CBF. Como o resultado das eliminatórias foi mantido e o Brasil
continuava avançando rumo a vitória, a festa continuava avançando também. Para
o militar reformado Lysias Borges, de 88 anos, a Copa era uma distração para os
reais problemas que estavam acontecendo.
- O povo estava
torcendo muito pela seleção,apesar de estarmos vivendo um governo não
democrático, de excesso de poder, a população estava comprando aquela festa
toda. Torcendo pela copa. Havia uma euforia que predominava e a ditadura se
aproveitou bem disso, para mostrar que tudo estava progredindo bem no país. Não
havia manifestações expressivas como está havendo desde o ano passado, contra a Copa.
O Governo Médici usou o
futebol durante a copa de 70 como uma eficiente propaganda política. O
presidente associava sua imagem a uma figura popular, a “um homem do povo” e
apaixonado pelo futebol, segundo suas próprias palavras. Um exemplo da
exploração do sucesso da seleção brasileira foi a vitória contra a seleção
italiana, na final, quando o país fez 4x1 sobre o adversário. O governo
ditatorial utilizou slogans do tipo
"Ninguém segura este país" ou "Brasil; ame-o ou deixe-o"
para associar-se a uma ideia de sucesso em todas as áreas.











