terça-feira, 3 de junho de 2014


O Patrão é FIFA

Salve a Seleção

Joseph Blatter, presidente da FIFA, com a taça da Copa
 

Comparação entre as Copas de 70 e 2014 em ‘Brasis’ não tão distintos.

Por Alice Ferman 

“Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil/ Do meu coração/ Todos juntos vamos/ Pra frente Brasil, Brasil/ Salve a Seleção” são os versos símbolo da Copa do Mundo de 1970. Olhos grudados na televisão “micro-ondas”, buzinaço nas ruas e bandeirinhas nas mãos, assim era o clima do Mundial em plena ditadura militar. No entanto, o que se vê hoje, as vésperas do próximo campeonato, é um 2014 de bola murcha.

A Copa nem começou e o clima de descontentamento já pesa no olhar dos brasileiros. A sensação é de que o “país do futebol” deseja mostrar ao mundo que não é nenhuma bola oca. De acordo com o cientista social e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Aluízio Alves Filho, 70, “a questão é que esta Copa do Mundo aflorou uma contradição entre o largo investimento com dinheiro público no futebol, inclusive em arenas, e a falta de investimentos em serviços essenciais para a população, como em saúde e educação. E o fato dela estar ocorrendo aqui chama muita atenção”.

          De acordo com a matriz de responsabilidades da Copa do Mundo FIFA 2014, 53 projetos estavam previstos para desenvolver a mobilidade urbana do Brasil e somariam mais de R$11 bilhões em investimentos públicos. No entanto, no decorrer desses 6 anos, 21 projetos foram abandonados e apenas R$ 7 bilhões investidos nesta área.

          Em contrapartida, a construção dos estádios em formato de arena, que deveria gastar pouco mais de R$1 bilhão dos cofres públicos, já está em torno de R$ 8 bilhões. Sendo assim, é confuso entender que investimentos dessa grandeza não estejam se refletindo em benefícios reais no dia-a-dia dos brasileiros. Além disso, a história fica ainda mais nebulosa quando R$ 8 bilhões de dinheiro público foram gastos em algo que vem sendo terceirizado, a exemplo do Maracanã, que foi entregue no dia 9 de maio e pelos próximos 35 anos aos cuidados das empresas Odebrecht, IMX e AEG.

De acordo com a publicação “Menos de 30 dias…” no blog do jornalista, advogado e professor da PUC-Rio Luiz Francisco Ferreira Leo, os principais fatores que contribuíram para o clima de desanimo e desconfiança nas ruas do Brasil são: o caos em torno das cidades sede dos jogos, devido às infindas obras de infraestrutura, o que tem atrapalhado duramente o cotidiano dessas populações, além de todos os excessivos gastos com verbas públicas.

Já para Aluízio Filho, o país está passando por um momento econômico ruim por causa do aumento da inflação e dos salários baixos, e compara com época de 1970. “Pode parecer estranho para você, mas a ditadura tinha o apoio da maioria da população, inclusive da classe média. Era um período em que o país apresentava um alto índice de crescimento econômico e que os salários eram razoáveis. Então, de um modo geral, a população estava feliz e a Copa foi altamente comemorada.”

Além disso, o cientista social coloca que há também outros motivos que afastam os brasileiros da Copa. “Hoje em dia, não há uma paixão por essa seleção, não há um entrosamento do público com os jogadores. Na Copa de 70, quem não jogasse no Brasil não era nem convocado. Então, a gente não tem identidade com esses meninos, que mais parecem uma legião estrangeira”.

Porém, de acordo com o jornalista e coordenador do Centro Técnico Audiovisual da PUC-Rio, Ernani Almeida Ferraz, 55, “o bom dos meninos da seleção jogarem lá fora, é que já conhecem as artimanhas e malícias dos adversários. Mas eu não vejo essa seleção da mesma forma que a de 1970. Parece que não há um sentimento de credibilidade do povo. Na Copa de 70 as ruas estavam todas enfeitadas. Era uma grande festa”, relembra.

Outro fator preocupante e que têm assustado defensores da democracia e dos diretos humanos foram algumas propostas feitas este ano de mudanças na legislação, a fim de conter as manifestações durante a passagem do Mundial e que se assemelharam bastante com os Atos Institucionais dos “anos de chumbo”.

E a soma dos problemas que assolam a Copa de 2014 não terminam por aí. Segundo Luiz Leo “hoje existe ainda uma espetacularização maior do jogador, que não pode se reduzir a jogar bola, já que é um produto de marketing e movimenta toda uma indústria do futebol. Já em 70, os jogadores podiam ser “boleiros”, não existia toda essa preocupação exacerbada com assessoria de imprensa e com a imagem”.

A publicitária, fotógrafa e também professora da PUC-Rio Márcia Guarischi Cortês, 56, explicou que, devido aos avanços tecnológicos e a possibilidade de se comprar equipamentos de qualidade por um valor acessível, o poder de divulgação de informações se democratizou e hoje todos querem ser um pouco jornalistas. “O problema é que acabam se prendendo muito mais no registro da vida pessoal do que na construção de uma notícia relevante, ou apontando fatos sem desvincular vida privada da profissional. Hoje, infelizmente, o foco está na pessoa e não no jogador”.

Segundo Aluízio Filho, na Copa de 70, o Brasil estava meio desacreditado da seleção, pois ela já vinha “mal das pernas” nos amistosos, fora que a “Era Garrincha” tinha acabado desde 1966. “Então, o Brasil vinha de um fracasso, até que no decorrer dos jogos foram surgindo dois gigantes: o Jairzinho, ponta direita que era reserva do Garrincha no Botafogo, e o Gérson, que fez uma obra-prima de gol no Brasil versus Itália e que eu, particularmente, adoro rever. Eles fizeram a seleção crescer muito durante a Copa e embalaram a torcida”.

Mas eles não foram os únicos a reerguer o time. De acordo com uma entrevista concedida à BBC Brasil e publicada no site http://www.bbc.co.uk/ em 18 de abril de 2014, o ex-capitão da seleção de 1970, Carlos Alberto Torres, disse que a tricampeã era imbatível. Formada por grandes craques como Pelé, Jairzinho, Gérson, Tostão e Rivellino, a equipe caracterizava uma espécie de “Dream Team” à brasileira. O “Capita” também criticou a atuação do governo para a Copa do Mundo de 2014, dizendo que o Mundial foi uma oportunidade perdida e concluiu: "nossa seleção é boa, mas não é imbatível. Eles têm que se preparar para estar na final, e aí, quem sabe, o título venha".

Conforme o filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, dirigido por Cao Hamburger em 2006, viver em 1970 era uma dualidade. Mauro, personagem principal interpretado por Michel Joelsas, era um mineiro de 12 anos apaixonado por futebol, jogar botão e colecionar figurinhas. Só que um dia, de forma inesperada, foi deixado na casa do avô, em São Paulo, pois os pais “decidiram sair de férias” (estavam sendo perseguidos pela polícia por serem militantes de esquerda). Durante todo o longa metragem, ainda é possível sentir uma mistura de solidão com insegurança conflitando constantemente com a alegria de torcer pela seleção.

Para o jornalista Ernani Ferraz, apesar de estar claro que o povo brasileiro está cansado das inúmeras suspeitas de superfaturamento e falcatruas advindas das obras do megaevento, “na década de 70, a Copa serviu como válvula de escape para as pessoas deixarem de lado, pelo menos por um tempo, o peso da ditadura militar”. Desse modo, ele acredita que agora não será tão diferente. “Na hora do jogo o pessoal vai torcer e, se o Brasil ganhar, deve amenizar um pouco a tensão política”.
 
 
 
 
Na telinha
‘micro-ondas’
 
TV em 1970

A Copa de 1970 revelou ao mundo o brilhantismo de cada jogada da “seleção canarinho” e se tornou um marco na história do Brasil por ser a primeira transmissão ao vivo dos jogos. “Naquela época, nós não tínhamos muitos programas de futebol, nem mesas redondas, então quando fizeram o primeiro teste de transmissão em cores e ao vivo via satélite, a galera foi à loucura”, contou o jornalista Ernani Almeida Ferraz, 55.
Raras foram as pessoas que tiveram a mesma oportunidade da fotógrafa e professora Márcia Guarischi Cortês, 56, de assistir aos jogos em cores. “Na Copa de 70, eu tinha apenas 12 anos e todos estavam extasiados com a primeira TV em cores. Um pouco antes do campeonato, meu pai tinha viajado para os Estados Unidos e trouxe uma TV dessas lá para casa, só que também teve que pagar “uma nota” para fazer a transformação do sistema NTSC (americano) para PAL-M (padrão alemão com ajustes brasileiros). Tirando isso, foi uma festa! Tios, primos e amigos se reuniram durante todos os jogos para assistir a telinha com a minha família”, comentou a fotógrafa.
Diretamente do México para o Brasil, a Copa movimentou as vendas de televisores da época, elevando também os níveis de audiência de canais como a TV Globo e TV Tupi e disparando a relevância do que se tornaria um dos mais importantes veículos de comunicação de todos os tempos. O Mundial de 1970 ainda destacou o locutor da TV Globo Geraldo José de Almeida, que ficou conhecido pelo bordão “Olha lá, olha lá, olha lá, no placar!”, e exaltou o período como “o milagre brasileiro”.
No entanto, para o cientista social Aluízio Alves Filho, 70, uma história que ficou um tanto quanto mal explicada na Copa do México foi a saída do técnico João Saldanha, meses antes da competição. “A saída do Saldanha da seleção para mim é um pouco confusa. Tudo bem que era uma maluquice que, numa ditadura, o técnico da seleção fosse um comunista militante. Mas eu não entendi porquê colocaram o Zagalo, já que o presidente Médici queria colocar o Dadá Maravilha”.
Se Saldanha foi ou não obrigado a deixar o time por determinação do general Emílio Garrastazu Médici, permanece uma incógnita. Mas para o cientista social, “Saldanha era muito irônico”. Durante uma entrevista na época, quando perguntaram se ele atenderia às mudanças na equipe sugeridas pelo presidente, o técnico respondeu: “quando o presidente escolhe ministro, ele não me pergunta”.
Apesar dos impasses políticos e ideológicos de 1970, para a professora Cortês “dava para ver que a seleção vestia a camisa com muito amor. O Brasil estava em outro momento, diferente de hoje, em que tudo é muito movido a propaganda e merchandising (...) É verdade que existia também toda uma publicidade patriótica reforçada pela ditadura, mas que entrava de forma tão sutil nas nossas mentes, que pra mim era comum (...) Eu só vim a ter noção da ditadura no Brasil anos depois, por volta de 1982, quando viajei para Boston e conheci ex-estudantes de medicina que sofreram tortura”. A fotógrafa contou ainda que, durante os jogos da Copa de 70, haviam bolachas de plástico espalhadas por toda a casa dela com os dizeres “ninguém segura esse país”, mais uma marca da intensa propaganda militar.
De acordo com Ernani Ferraz, também é importante lembrar que o vídeotape (VT) nasceu em 1962, pouco antes da Copa no México, “o que nos trouxe a grande oportunidade de gravar filmes. Somente depois do advento do VT é que puderam começar a pensar em melhorar a qualidade da imagem”.
Em termos de performance técnica e tecnológica, a televisão evoluiu muito desde a década de 70. Segundo Ferraz, “as câmeras ficaram mais sensíveis, então o volume de luz que se usava antes era muito maior do que hoje. Em 1970, os equipamentos necessitavam de tanta luz para poderem fazer uma imagem relativamente boa, que aumentava o calor no set de filmagem e as pessoas suavam. Além disso, a imagem de menor qualidade demandava uma grande quantidade de maquiagem”.
Hoje, a tecnologia avançou tanto que a definição da TV digital traz uma nitidez em que aparecem até as rugas de quem está sob o foco das lentes. Ademais, atualmente, mesmo as câmeras compactas mais simples são capazes de capturar e reproduzir imagens com uma ótima qualidade. Ainda assim, novos produtos que visam superar as barreiras da definição e precisão visual estão constantemente surgindo e desafiando o mercado, como é o caso das tecnologias 3D e 4D,  que pretendem deixar o famoso HD “no chinelo”.
Para Ferraz, outro grande avanço que surgiu na década de 1970 foram as luzes de LED (Luz Emissora de Diodo). “Com elas eu passei a regular a intensidade de luz incidente no objeto e até a temperatura de cor, o que não incomoda tanto a vista das pessoas, me da novas possibilidades de imagens e facilita meu trabalho”.
Os avanços tecnológicos democratizaram o acesso e a divulgação de informações, mas as ferramentas devem ser utilizadas para facilitar a vida das pessoas e o trabalho jornalístico. Ao construir uma imagem e divulgá-la, é necessário que antes haja um pensamento lógico, ético e social por trás.
Como aponta a fotógrafa Márcia Cortês, “por causa das novas tecnologias, muitos banalizam a profissão de jornalista e fotógrafo, mas é preciso entender que ter uma Ferrari não faz de ninguém um piloto” e cita, como exemplo, o caso de jogadores de futebol que têm uma ascensão social muito veloz e, de repente, se tornam celebridades excessivamente assediadas, o que pode prejudicar o desempenho dentro e fora de campo.
Por fim, junto com todas essas mudanças tecnológicas radicais, a estética também está em constante transformação. Com a mudança dos formatos na televisão, os conceitos de beleza também se modificaram, assim como a preocupação com o aperfeiçoamento da técnica e o modo mais artístico de se enxergar diferentes imagens.
 
 


 

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