Copa
do Mundo: 1970 e 2014
O
futebol de ontem e de hoje
A
Copa de maior prestígio em comparação com o Mundial bem próximo
Por Lucas Moretzsohn
"Faremos a melhor
Copa de todos os tempos", afirmou a presidente Dilma Rousseff em maio do
ano passado no discurso de inauguração do Estádio Mané Garrinha, antes da Copa
das Confederações. Isso só será respondido a partir da próxima semana com o
início do torneio mundial de futebol no Brasil. Será que a Copa do Mundo 2014
no Brasil conseguirá superar o sucesso da Copa de 1970, melhor, do "Mundial
dos sonhos"? Os jogadores brasileiros não só trouxeram o título de
tricampeão para o país, mas também foram consagrados como a melhor geração do
futebol.
Com duração de 22 dias,
foi um torneio de inovações. Foi a primeira vez em que os desempates seriam
disputados pelo saldo de gols. Foi também quando a FIFA estreou os cartões
vermelhos e amarelo: o vermelho só foi usado no mundial seguinte, o amarelo já
foi sacado no jogo de abertura entre México e a antiga União Soviética. A
substituição de jogadores durante os jogos não eram feitas antes de 1970 e a
primeira delas foi feita na seleção da URSS. Em 1970, pela primeira vez, as
pessoas puderam assistir aos jogos ao vivo. No Brasil, as redes Globo, Tupi e
Record se uniram para patrocinar a transmissão, de acordo com o livro
"Todas as Copas" do jornal Lance!. E mais, os telespectadores puderam
assistir à imagens a cores.
Maria Ignez Andrade
(85), dona de casa, morava com o marido e os filhos em Piracicaba, São Paulo,
na época da Copa de 70. Ela e o filhos torciam especialmente pelos jogadores
Tostão e Piazza.
- Eles eram os únicos
mineiros na seleção. E nós, como os únicos mineiros da rua em que morávamos,
torcíamos fervorosamente por eles. A gente vivia em um sobrado e eu tinha
pendurado lençois verde, amarelo e azul na janela pelo Brasil. Era uma emoção
muito grande ver os mineiros brilhando - conta.
Maria Ignez não teve a
oportunidade de ver os jogos pela televisão colorida. Ela e a família ouviam os
jogos pelo rádio. Já o engenheiro civil Nelson Duplat (61) lembra o quão
intenso foi essa experiência aos 17 anos em Niterói, no Rio de Janeiro.
- A televisão colorida teve um impacto tremendo.
Todo mundo se juntava na frente do aparelho para assisitir, desde o primeiro
jogo do Brasil contra a Tchecoslováquia. Foi uma Copa de muita euforia. Quando
chegou ao fim eram carreatas e mais carreatas nas ruas para comemorar. As
pessoas xingavam, mas era euforia - recorda.
Jean Jacques Campello
(60), engenheiro civil, morava no Leblon e também vivenciou esses momentos de
entusiasmo extremo.
-
Eu lembro que o jogo da semifinal, contra o Uruguai foi um sufoco. O Uruguai
era um forte concorrente, mas a gente conseguiu passar. Eu saí com dois amigos
em um carro velho para comemorar na praia do Leblon. Quando a gente parou para
ver, tinham três caras em cima no carro com bandeiras, gritando.
Copa 2014 promete
Nelson destaca que,
mesmo com o regime militar do General Médici à época, havia um engajamento
positivo em relação à seleção brasileira e ao mundial da maior parte dos
brasileiros. Hoje, em 2014, vivemos em uma democracia e o sentimento não é
muito semelhante. Somente 51% dos
brasileiros são favoráveis à Copa, segundo pesquisa do Ibope, o que revela uma
divisão no mínimo curiosa às vésperas do evento.
A poucos dias do início
do mundial de futebol no Brasil, muitos dos projetos estruturais prometidos
pelas autoridades ainda não estão prontos. No Rio de Janeiro, o aeroporto internacional
Antônio Carlos Jobim está inacabado, com esteiras quebradas e elevadores fora
de funcionamento. Das 46 estações da linha de ônibus BRT que liga a Barra da
Tijuca ao aeroporto, só 22 estão concluídas. As obras, ainda assim, foram
inauguradas pela presidente Dilma.
Como reflexo da
insatisfação popular com a situação atual do país, as ruas tradicionalmente
decoradas do Rio de Janeiro ainda estão como no dia-a-dia. As bandeirinhas
esvoaçantes nas janelas dos carros ainda não estão passando pelas ruas. A
decoração do bar Alzirão, no bairro da Tijuca no Rio, famoso por reunir pessoas
para assistir jogos da Copa, revela em verde e amarelo o que o Brasil realmente
precisa: "S.O.S Saúde" foi pintado no chão da rua.
O médico José Carlos
Sozzi, que na Copa de 70 tinha 10 anos e morava em Niteroi, percebe a mudança
de espírito dos torcedores.
- Hoje a gente vê que
as pessoas estão muito ressabiadas. Antigamente a prefeitura dava dinheiro,
tinta para enfeitar e pintar as ruas. Hoje a situação já é totalmente diferente
- comenta.
Em contraste com a
televisão a cores de 1970, as redes sociais são a grande tecnologia do momento
e o principal espaço para a mobilização popular. Através delas os brasileiros
puderam organizar os movimentos "#NãoVaiTerCopa", contra o evento,
como também o movimento "VaiTerCopaSim". Este último é apoiado por
aqueles que pensam que agora é tarde para boicotar o evento e decidem apoiar a
seleção, sem lhe atribuir os problemas sociais, políticos e econômicos do país.
O argumento sustentado por esses torcedores é que o momento para se protestar e
tomar atitude será nas eleições em outubro deste ano. O professor de História
do Brasil da PUC-Rio, Romulo Mattos, explica que o mundial de 70 também
enfrentou essa aprovação e reprovação simultânea.
- Em 1970 não foi
diferente. Muitos grupos políticos, mais acirrados e esquerdistas, não admitiam
a ideia do futebol, porque o futebol seria um instrumento de alienação do povo.
Mas também havia aqueles que pensavam que uma coisa é o protesto político,
outra coisa é torcer pela seleção - observa Mattos.
De acordo com o
professor de Comunicação Social da PUC-Rio, é inegável que a Copa do Mundo vai
acontecer. No entanto, ele afirma em seu blog pessoal que o evento será muito
distante das projeções ufanistas repetidas pelos governantes brasileiros. O
padrão FIFA que a instituição internacional requeriu ao nomear o Brasil como
país-sede ainda está longe de acontecer.
O que resta é aguardar
para ver como, no fim das contas, a organização do evento será executada. Até
lá, o ideal é torcer para que a seleção brasileira marque algum gol tão
sensacional quanto o de Carlos Alberto na final de 70 contra a Itália. Aquele
considerado pela BBC como o gol mais bonito da história. O ponto que deu a
vitória ao Brasil e foi resultado de "habilidade individual sublime e
trabalho em equipe telepático", como definiu o repórter inglês Andrew
Benson.
Futebol
e política:
A
ditadura e a Copa
O Brasil vivia os anos de chumbo da ditadura
militar durante a Copa de 1970. Dois anos após a instituição do Ato
Institucional nº 5, a censura, a tortura e a caça aos comunistas estava em seu
período mais rígido. Nesse contexto, o futebol foi usado pelo governo para
mascarar a severidade do regime e exaltar o progresso do país. O professor da
PUC-Rio, Romulo Mattos, destaca que a seleção que jogou um futebol tão bonito e
encantador foi utilizado como instrumento de propaganda política na época. O
presidente Médici encontrou no futebol uma forma de popularizar sua imagem.
- Ele se colocava como
um presidente-torcedor. Ele seria torcedor do Flamengo no Rio, torcedor do
Grêmio no sul, mas também torcedor de um clube pequeno da cidade de onde ele
tinha nascido. Mas basicamente, ele era um presidente-torcedor - conta.
Ele acrescenta ainda
que a estrutura em torno do futebol nacional na época era militarizada.
- A CBF estava repleta
de nomes ligados aos militares na sua equipe. Por exemplo, o Carlos Alberto
Parreira, o Cláudio Coutinho, Admildo Chirol, que eram o preparadores físicos, tiveram
formação na Escola Militar do Exército.
Mattos ainda afirma que
esses nomes próximos à ditadura implantaram um modelo científico de estudo da
utilização da máquina humana. Tal estudo prioriza o desenvolvimento da
resistência e de velocidade dos jogadores em campo. Através dele, poderia se
chegar a vitória, o que de fato aconteceu.
O poder dos militares
influenciou inclusive na organização do próprio time da seleção brasileira.
João Saldanha, que ocupou o cargo de técnico durante as eliminatórias do
campeonato, era afiliado ao Partido Comunista Brasileiro nesse período.
Saldanha foi responsável por montar a grande seleção que trouxe o terceiro
título de campeão mundial no futebol - o time conhecido como "as feras do
Saldanha". No entanto, segundo relatos, o presidente Médici gostava do
jogador Darío, o Dada Maravilha, e pediu para que Saldanha o escalasse. O
técnico respondeu que o presidente nomeava os ministros sem consultá-lo, então,
ele escalaria a seleção sem seguir ordens do presidente. Foi o suficiente para
ser tirado do posto. Para substituí-lo, Zagallo assumiu e, por ser apartidário
na época, incluiu Dada como reserva.
Do lado oposto aos
militares, os ativistas de esquerda enfrentavam um dilema: torcer ou secar a
seleção de Rivellino, Tostão, Pelé, entre outros? Em entrevista a Folha de São
Paulo, o gaúcho Aldyr Shclee, criador do uniforme verde e amarelo da seleção,
conta quando foi assistir ao segundo jogo do Brasil, contra a Inglaterra. Ele
estava acompanhado de militantes do PCB e o combinado era não comemorar. Quando
o Brasil marcou um gol, um dos militantes puxou o revólver e descarregou na
rua, xingando.
Com a vitória
brasileira, o governo lançou slogans nacionalistas como "Ninguém segura
esse país" ou "Brasil: Ame-o ou deixe-o". Além disso, a música
"Pra Frente Brasil", composta pelo publicitário Miguel Gustavo, se
tornou o hino da seleção após a vitória. O autor pediu ao Assessoria Especial
de Relações Públicas, órgão militar responsável pela propaganda do governo, que
divulgasse a música. A canção serviu como referência não só para a vitória da
seleção, como também para o milagre econômico que criou uma falsa impressão de
bem-estar do regime militar.
A Copa do Mundo de 1970
foi, sem dúvida, um período polêmico para os brasileiros e também para os
jogadores, que eram usados pelo alto poder militar. O título conquistado foi o
pretexto que o governo brasileiro precisava para melhorar a imagem que, a parte
das razões políticas, estava enfraquecida após a devastadora derrota brasileira
no mundial anterior em 1966.
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