terça-feira, 3 de junho de 2014


Copa do Mundo: 1970 e 2014

O futebol de ontem e de hoje

A Copa de maior prestígio em comparação com o Mundial bem próximo

Por Lucas Moretzsohn

 

            "Faremos a melhor Copa de todos os tempos", afirmou a presidente Dilma Rousseff em maio do ano passado no discurso de inauguração do Estádio Mané Garrinha, antes da Copa das Confederações. Isso só será respondido a partir da próxima semana com o início do torneio mundial de futebol no Brasil. Será que a Copa do Mundo 2014 no Brasil conseguirá superar o sucesso da Copa de 1970, melhor, do "Mundial dos sonhos"? Os jogadores brasileiros não só trouxeram o título de tricampeão para o país, mas também foram consagrados como a melhor geração do futebol.

            Com duração de 22 dias, foi um torneio de inovações. Foi a primeira vez em que os desempates seriam disputados pelo saldo de gols. Foi também quando a FIFA estreou os cartões vermelhos e amarelo: o vermelho só foi usado no mundial seguinte, o amarelo já foi sacado no jogo de abertura entre México e a antiga União Soviética. A substituição de jogadores durante os jogos não eram feitas antes de 1970 e a primeira delas foi feita na seleção da URSS. Em 1970, pela primeira vez, as pessoas puderam assistir aos jogos ao vivo. No Brasil, as redes Globo, Tupi e Record se uniram para patrocinar a transmissão, de acordo com o livro "Todas as Copas" do jornal Lance!. E mais, os telespectadores puderam assistir à imagens a cores.  

            Maria Ignez Andrade (85), dona de casa, morava com o marido e os filhos em Piracicaba, São Paulo, na época da Copa de 70. Ela e o filhos torciam especialmente pelos jogadores Tostão e Piazza.

            - Eles eram os únicos mineiros na seleção. E nós, como os únicos mineiros da rua em que morávamos, torcíamos fervorosamente por eles. A gente vivia em um sobrado e eu tinha pendurado lençois verde, amarelo e azul na janela pelo Brasil. Era uma emoção muito grande ver os mineiros brilhando - conta.

            Maria Ignez não teve a oportunidade de ver os jogos pela televisão colorida. Ela e a família ouviam os jogos pelo rádio. Já o engenheiro civil Nelson Duplat (61) lembra o quão intenso foi essa experiência aos 17 anos em Niterói, no Rio de Janeiro.

            -  A televisão colorida teve um impacto tremendo. Todo mundo se juntava na frente do aparelho para assisitir, desde o primeiro jogo do Brasil contra a Tchecoslováquia. Foi uma Copa de muita euforia. Quando chegou ao fim eram carreatas e mais carreatas nas ruas para comemorar. As pessoas xingavam, mas era euforia - recorda.

            Jean Jacques Campello (60), engenheiro civil, morava no Leblon e também vivenciou esses momentos de entusiasmo extremo.

            - Eu lembro que o jogo da semifinal, contra o Uruguai foi um sufoco. O Uruguai era um forte concorrente, mas a gente conseguiu passar. Eu saí com dois amigos em um carro velho para comemorar na praia do Leblon. Quando a gente parou para ver, tinham três caras em cima no carro com bandeiras, gritando.

 

Copa 2014 promete

 

            Nelson destaca que, mesmo com o regime militar do General Médici à época, havia um engajamento positivo em relação à seleção brasileira e ao mundial da maior parte dos brasileiros. Hoje, em 2014, vivemos em uma democracia e o sentimento não é muito semelhante.  Somente 51% dos brasileiros são favoráveis à Copa, segundo pesquisa do Ibope, o que revela uma divisão no mínimo curiosa às vésperas do evento.

            A poucos dias do início do mundial de futebol no Brasil, muitos dos projetos estruturais prometidos pelas autoridades ainda não estão prontos. No Rio de Janeiro, o aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim está inacabado, com esteiras quebradas e elevadores fora de funcionamento. Das 46 estações da linha de ônibus BRT que liga a Barra da Tijuca ao aeroporto, só 22 estão concluídas. As obras, ainda assim, foram inauguradas pela presidente Dilma.

            Como reflexo da insatisfação popular com a situação atual do país, as ruas tradicionalmente decoradas do Rio de Janeiro ainda estão como no dia-a-dia. As bandeirinhas esvoaçantes nas janelas dos carros ainda não estão passando pelas ruas. A decoração do bar Alzirão, no bairro da Tijuca no Rio, famoso por reunir pessoas para assistir jogos da Copa, revela em verde e amarelo o que o Brasil realmente precisa: "S.O.S Saúde" foi pintado no chão da rua.

            O médico José Carlos Sozzi, que na Copa de 70 tinha 10 anos e morava em Niteroi, percebe a mudança de espírito dos torcedores.

            - Hoje a gente vê que as pessoas estão muito ressabiadas. Antigamente a prefeitura dava dinheiro, tinta para enfeitar e pintar as ruas. Hoje a situação já é totalmente diferente - comenta.

            Em contraste com a televisão a cores de 1970, as redes sociais são a grande tecnologia do momento e o principal espaço para a mobilização popular. Através delas os brasileiros puderam organizar os movimentos "#NãoVaiTerCopa", contra o evento, como também o movimento "VaiTerCopaSim". Este último é apoiado por aqueles que pensam que agora é tarde para boicotar o evento e decidem apoiar a seleção, sem lhe atribuir os problemas sociais, políticos e econômicos do país. O argumento sustentado por esses torcedores é que o momento para se protestar e tomar atitude será nas eleições em outubro deste ano. O professor de História do Brasil da PUC-Rio, Romulo Mattos, explica que o mundial de 70 também enfrentou essa aprovação e reprovação simultânea.

            - Em 1970 não foi diferente. Muitos grupos políticos, mais acirrados e esquerdistas, não admitiam a ideia do futebol, porque o futebol seria um instrumento de alienação do povo. Mas também havia aqueles que pensavam que uma coisa é o protesto político, outra coisa é torcer pela seleção - observa Mattos.

            De acordo com o professor de Comunicação Social da PUC-Rio, é inegável que a Copa do Mundo vai acontecer. No entanto, ele afirma em seu blog pessoal que o evento será muito distante das projeções ufanistas repetidas pelos governantes brasileiros. O padrão FIFA que a instituição internacional requeriu ao nomear o Brasil como país-sede ainda está longe de acontecer.

            O que resta é aguardar para ver como, no fim das contas, a organização do evento será executada. Até lá, o ideal é torcer para que a seleção brasileira marque algum gol tão sensacional quanto o de Carlos Alberto na final de 70 contra a Itália. Aquele considerado pela BBC como o gol mais bonito da história. O ponto que deu a vitória ao Brasil e foi resultado de "habilidade individual sublime e trabalho em equipe telepático", como definiu o repórter inglês Andrew Benson.

 

Futebol e política:

A ditadura e a Copa

 

            O Brasil vivia os anos de chumbo da ditadura militar durante a Copa de 1970. Dois anos após a instituição do Ato Institucional nº 5, a censura, a tortura e a caça aos comunistas estava em seu período mais rígido. Nesse contexto, o futebol foi usado pelo governo para mascarar a severidade do regime e exaltar o progresso do país. O professor da PUC-Rio, Romulo Mattos, destaca que a seleção que jogou um futebol tão bonito e encantador foi utilizado como instrumento de propaganda política na época. O presidente Médici encontrou no futebol uma forma de popularizar sua imagem.

            - Ele se colocava como um presidente-torcedor. Ele seria torcedor do Flamengo no Rio, torcedor do Grêmio no sul, mas também torcedor de um clube pequeno da cidade de onde ele tinha nascido. Mas basicamente, ele era um presidente-torcedor - conta.

            Ele acrescenta ainda que a estrutura em torno do futebol nacional na época era militarizada.

            - A CBF estava repleta de nomes ligados aos militares na sua equipe. Por exemplo, o Carlos Alberto Parreira, o Cláudio Coutinho, Admildo Chirol, que eram o preparadores físicos, tiveram formação na Escola Militar do Exército.

            Mattos ainda afirma que esses nomes próximos à ditadura implantaram um modelo científico de estudo da utilização da máquina humana. Tal estudo prioriza o desenvolvimento da resistência e de velocidade dos jogadores em campo. Através dele, poderia se chegar a vitória, o que de fato aconteceu.

            O poder dos militares influenciou inclusive na organização do próprio time da seleção brasileira. João Saldanha, que ocupou o cargo de técnico durante as eliminatórias do campeonato, era afiliado ao Partido Comunista Brasileiro nesse período. Saldanha foi responsável por montar a grande seleção que trouxe o terceiro título de campeão mundial no futebol - o time conhecido como "as feras do Saldanha". No entanto, segundo relatos, o presidente Médici gostava do jogador Darío, o Dada Maravilha, e pediu para que Saldanha o escalasse. O técnico respondeu que o presidente nomeava os ministros sem consultá-lo, então, ele escalaria a seleção sem seguir ordens do presidente. Foi o suficiente para ser tirado do posto. Para substituí-lo, Zagallo assumiu e, por ser apartidário na época, incluiu Dada como reserva.

            Do lado oposto aos militares, os ativistas de esquerda enfrentavam um dilema: torcer ou secar a seleção de Rivellino, Tostão, Pelé, entre outros? Em entrevista a Folha de São Paulo, o gaúcho Aldyr Shclee, criador do uniforme verde e amarelo da seleção, conta quando foi assistir ao segundo jogo do Brasil, contra a Inglaterra. Ele estava acompanhado de militantes do PCB e o combinado era não comemorar. Quando o Brasil marcou um gol, um dos militantes puxou o revólver e descarregou na rua, xingando.

            Com a vitória brasileira, o governo lançou slogans nacionalistas como "Ninguém segura esse país" ou "Brasil: Ame-o ou deixe-o". Além disso, a música "Pra Frente Brasil", composta pelo publicitário Miguel Gustavo, se tornou o hino da seleção após a vitória. O autor pediu ao Assessoria Especial de Relações Públicas, órgão militar responsável pela propaganda do governo, que divulgasse a música. A canção serviu como referência não só para a vitória da seleção, como também para o milagre econômico que criou uma falsa impressão de bem-estar do regime militar.

            A Copa do Mundo de 1970 foi, sem dúvida, um período polêmico para os brasileiros e também para os jogadores, que eram usados pelo alto poder militar. O título conquistado foi o pretexto que o governo brasileiro precisava para melhorar a imagem que, a parte das razões políticas, estava enfraquecida após a devastadora derrota brasileira no mundial anterior em 1966.

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