terça-feira, 3 de junho de 2014


O Brasil das copas: Da exaltação de 1970 para as dúvidas desse ano
Por Fernanda Rezende



            Copa do México, ano de 1970: a Seleção Brasileira deixou o Estádio Azteca na Cidade do México, no dia 21 de junho, com o terceiro título de campeão do mundial de futebol. O Brasil goleou a Itália por 3x1. 107 mil pessoas no estádio e milhões de brasileiros acompanharam, pela televisão, a vitória do país. A seleção perdedora de 66 foi substituída pelo um orgulho nacional.


            As transmissões dos jogos eram um acontecimento. Essa Copa foi a primeira transmitida ao vivo, pela televisão, via satélite. Nesse ano também foi feita, para um público seleto e em caráter experimental, a primeira transmissão de TV em cores no país, pela empresa Embratel. Mesmo os que não tinham acesso à nova tecnologia se reuniam com familiares e amigos para ver os jogos pela televisão em preto e branco. É o caso do carioca Alcir Ferreira, de 77 anos, morador da Glória:


            -Assistia às transmissões com a minha família. Não existia a televisão de 50 polegadas ainda, então víamos na de 40. Todo o mundo se reunia para isso, era um verdadeiro evento. As transmissões hoje são melhores por isso, mas duvido que Copa do Mundo desse ano seja boa como aquela. Gostava de assistir em casa, só quando estava trabalhando eu via no bar perto do trabalho - comenta, Alcir.


Decorações e comemorações


            O Rio de Janeiro, assim como resto do país, estava em festa. A cidade, começou naquele ano, a enfeitar as ruas para as Copas do mundo. O costume que perdurou pelas edições seguintes está mais tímido neste ano, muitos endereços famosos pela decoração estão enfeitando as ruas somente agora, como é o caso da Jorge Rudge, em Vila Isabel.


                        Segundo o morador Luís Cláudio Cotta, em reportagem ao jornal O Globo, a preparação da rua começa entre 50 e 45 dias antes do mundial, mas os protestos contra a Copa inibiram um pouco os torcedores este ano. Ele afirma que os moradores não são alienados, mas é uma tradição enfeitar a rua e não será diferente agora.

           

Para o contador João Rezende, de 53 anos, as lembranças da época dourada dos anos 70 são poucas mas ele se recorda de como o Rio de Janeiro estava enfeitado.


- Eu tinha apenas 13 anos, mas me lembro muito bem das comemorações do dia da final quando o Brasil foi campeão. Nunca mais vi aquela comemoração, nem nas outras vezes que fomos campeões. No dia da final de 70, depois da vitória, nós fomos para a minha região da grande Tijuca e houve uma festa muito legal. O povo da região se reuniu e todos pulavam de alegria. Todo mundo reunido e festejando o tri-campeonato mundial- relembra.



Os Desafios de 2014


Em 1950, o Brasil sediou pela primeira vez uma Copa do Mundo e, esse ano, o país vai ter pela segunda vez o campeonato mundial. Os desafios são muito maiores dessa vez e a tarefa de realizar obras que atendessem as necessidades esportivas e turísticas do país não foram cumpridas em sua integridade.

Uma das principais obras no Rio de Janeiro, o corredor de ônibus BRT Transcarioca, só foi inaugurado na última segunda-feira, apenas uma semana antes da abertura da Copa. O projeto, que custou R$ 1,9 bilhão, deverá atender a 400 mil pessoas por dia e vai ligar o Galeão a Barra da Tijuca. Já o próprio aeroporto está inacabado. No país todo, projetos de 11 obras foram abandonadas. Para justificar, o governo atribui a culpa à burocracia e as alterações de projetos.


Na matéria Copa do Mundo em 2014: O duplo desafio brasileiro (Revista Sociologia), sediar a copa esse ano significa, para o Brasil, demonstrar a superação da condição histórica do processo de expropriação, da condição de ex-colônia e de país "subdesenvolvido", e revelar-se um país moderno. Esse cenário não está se confirmando


-A modernização tecnológica e o desenvolvimento econômico são os princípios norteadores do ideal da sociedade moderna. Entretanto, os séculos de exploração representaram e representam um obstáculo aos países colonizados no que se refere à possibilidade de propagação desse ideal. O Brasil, neste contexto histórico, como país sede da Copa do Mundo de 2014, encontra-se em um duplo desafio: primeiro criar condições estruturais para sediar o evento; segundo, apresentar uma excelente seleção para fazer jus à condição de país do futebol e receber o título de campeão mundial em casa- afirma Adriane Nopes, pesquisadora em estudos sociais e redatora do artigo.




Por trás da Copa


            O ano foi de festa no futebol, mas de tensão na política brasileira. 1970 foi um o ano do chamado "milagre econômico" no país, muitos empréstimos e investimentos estrangeiros entrando no Brasil, a criação de empregos em massa e a inflação sob controle. Na época, a economia brasileira crescia mais de 10% ao ano. Já no campo político, a realidade era outra: uma época de intolerância marcada pela censura à imprensa e atos de repressão contra os opositores ao estado ditatorial instaurado desde de 1964.


            O presidente general Emílio Garrastazu Médici comandou uma política enérgica determinada a acabar com os grupos de esquerda.Uma das ações foi a criação dos núcleos regionais de repressão vinculados ao Exército, os DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna).

           

No mesmo ano, também entrou em vigor a Operação Bandeirantes (Oban), uma organização paramilitar formada por três fronts: Forças Armadas, Polícia Federal e polícias estaduais, que tinha por objetivo prender, torturar e assassinar os representantes da esquerda.


            A repressão aos simpatizantes de esquerda tomava grandes proporções em todas as áreas da sociedade e o futebol não ficou de fora. O jornalista João Saldanha, que assumiu o comando da seleção em 68, já nas eliminatórias da copa de 70, saiu do cargo mesmo depois de ter conseguido seis vitórias e 23 gols contra os times da Colômbia, Paraguai e Venezuela. O técnico era um ex-militante do extinto PC (Partido Comunista). Há suposições de que o técnico não admitira uma intromissão do então presidente na escolha dos jogadores.                                      

O cargo foi devolvido a Zagallo pelo presidente da CBF. Como o resultado das eliminatórias foi mantido e o Brasil continuava avançando rumo a vitória, a festa continuava avançando também. Para o militar reformado Lysias Borges, de 88 anos, a Copa era uma distração para os reais problemas que estavam acontecendo.


            - O povo estava torcendo muito pela seleção,apesar de estarmos vivendo um governo não democrático, de excesso de poder, a população estava comprando aquela festa toda. Torcendo pela copa. Havia uma euforia que predominava e a ditadura se aproveitou bem disso, para mostrar que tudo estava progredindo bem no país. Não havia manifestações expressivas como está havendo desde o ano passado, contra a Copa.

            O Governo Médici usou o futebol durante a copa de 70 como uma eficiente propaganda política. O presidente associava sua imagem a uma figura popular, a “um homem do povo” e apaixonado pelo futebol, segundo suas próprias palavras. Um exemplo da exploração do sucesso da seleção brasileira foi a vitória contra a seleção italiana, na final, quando o país fez 4x1 sobre o adversário. O governo ditatorial utilizou slogans do tipo "Ninguém segura este país" ou "Brasil; ame-o ou deixe-o" para associar-se a uma ideia de sucesso em todas as áreas.


Futebol e Política, tudo a ver
ou apenas mera coincidência?
 
A seleção que encantou o mundo “massacrando” seus adversários
 
 
Por Lucas Vechi
 
 
   Há quatro décadas a seleção brasileira conquistava o tri-campeonato de futebol mundial, no México. Sendo a primeira a almejar o título três vezes, desde que o campeonato foi estabelecido em 1930, tendo o direito de trazer para o solo brasileiro a taça Jules Rimet.

   A seleção brasileira de futebol de 1970 foi considerada por muitos a maior de todos os tempos. Ao arrematar em apoteose a taça, tomou para si o estigma de um feito heróico, num espetáculo transmitido pela primeira vez para o povo brasileiro através da televisão. Com forte cobertura na mídia de então, a vitória da seleção brasileira em 1970 foi usada como instrumento de propaganda do regime militar. Nunca o futebol seria tão bem explorado como propaganda de um governo no Brasil como o foi em 1970. A taça Jules Rimet foi erguida pelo próprio presidente de então, Emílio Garrastazu Médici.
 
 
Presidente Médici levantando a taça
 
   “Em 1970, então na ditadura militar, a cegueira da oposição – sempre incapaz de diferenciar governo de país, políticos de povo – passou a pregar uma campanha raivosa e odiosa para que o povo brasileiro torcesse contra a sua Seleção, aquela de Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino. Foi uma campanha sórdida, de politicagem rasteira: desejava-se a derrota do Brasil acreditando que, assim, a ditadura militar seria abalada. Estávamos nos tempos do “Pra frente, Brasil”, “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”. A ditadura era, sim, cruel e o crescimento do país parecia triunfante. Mas era preciso, em nome da política, que a seleção Brasileira fosse massacrada, desmoralizada. As esquerdas – sempre radicais e ingênuas, ainda que não tão estúpidas quanto a direita – pregava o pior. Mas, ao iniciar-se a Copa do México, lá estava todo o país de mãos dadas, de pulmões pulsantes, congraçado em torno do altar do futebol, nosso centro de unidade nacional. E a vitória brasileira reacendeu as esperanças do brasileiro.” - conta Nelson Fernandes, ex jogador amador de futebol.

   1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil e do próprio regime militar implantado em 1964. No ano anterior as guerrilhas urbanas eclodiram pelo país, o seqüestro de um embaixador norte-americano pela esquerda oposicionista, revelou ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no país. O ano da copa começou com outro seqüestro da esquerda, a do cônsul do Japão Nobuo Okushi. Iniciava-se uma sangrenta caça aos guerrilheiros. A finalidade era caçar a todos e eliminar, numa condenação à revelia a uma pena de morte pré-determinada.

   Momentos antes do início do campeonato, João Saldanha, técnico que classificara a seleção para a copa, foi afastado por motivos políticos, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo. Feitas as arestas ideológicas, o Brasil entrou em campo, eliminando todos os adversários, numa atuação antológica de um elenco luxuoso, com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo entre eles.
 
 
 

   Enquanto o povo delirava com os gols, a economia atingia o auge do que se chamou “Milagre Econômico”, mostrando um país próspero e feliz. Nas celas os presos eram torturados, mortos e desaparecidos. Nas rádios o hino da copa ecoava para os noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil!

   A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem-sucedida como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a imagem heróica dos seus jogadores. Comparado a história contemporânea, o uso da imagem da seleção brasileira do tri-campeonato só perdeu para a propaganda do regime nazista, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
 


   “Agora, estamos em 2014 e prestes a realizar um dos grandes e maiores sonhos nacionais: sediar, novamente, uma Copa do Mundo, até mesmo para nos redimirmos do fracasso de 1950, amargor que nos acompanha até hoje. Quem se esqueceu de quando foi anunciado que o Brasil sediaria a Copa/2014? Multidões saíram às ruas, a alegria dominou a nação, o orgulho foi elevado a níveis de quase sonho. E a felicidade da nação se acentuou anda mais quando, além da Copa do Mundo, o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016! Foi um êxtase coletivo, a morte definitiva do “complexo de vira-lata” a que se referia Nelson Rodrigues. O Brasil era, finalmente, reconhecido como uma grande nação. Tornávamo-mos “gente grande”. - completou Nelson Fernandes.


 
Era do Milagre Econômico
 
   Na época da Copa de 1970, o Brasil vivia o auge do que foi chamado de “Milagre Econômico”, que aconteceu de 1969 a 1973, coincidindo com o governo do presidente general Emílio Garrastazu Médici.

   O milagre econômico proporcionou o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), que atingiu um crescimento anual de cerca de 11,2%, e uma inflação estabilizada em 18%. A produção industrial aumentou, proporcionando melhores níveis de emprego. A época coincidia com os juros baixos no mercado internacional, que passava por um momento de tranqüilidade, investindo fortemente nos países em desenvolvimento, visando os grandes recursos naturais dessas nações como fiança aos empréstimos concedidos. Também as multinacionais faziam os seus investimentos no país. A facilidade de créditos internacionais levaria o Brasil a contrair, na época do regime militar, a maior dívida externa da sua história.

   Durante o milagre, as indústrias automobilísticas foram as que mais cresceram no país, gerando muitos empregos, e conseqüentemente, levando desenvolvimento a outros setores. Diante da prosperidade que parecia infindável, o governo militar aumentou a arrecadação de impostos.
Para justificar a continuação da sua ilegitimidade e permanecer no poder, os militares investiam em fortes campanhas de propaganda. Frases que evidenciavam a exaltação militar eram vinculadas nas rádios, televisões e jornais, como “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” , “Ninguém Segura Este País”, ou “Pra Frente Brasil”. A propaganda era estimulada através da música, de programas de televisão, jornais, revistas e rádios.

   Aproveitando-se da facilidade dos empréstimos internacionais, o milagre econômico gerou a era das obras monumentais, como a construção da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, da usina nuclear de Angra dos Reis, de barragens gigantescas, como a de Itaipu.

   No avesso da era do milagre, que beneficiou apenas a uma classe média emergente, estavam os arrochos salariais, favorecendo poucos capitalistas brasileiros e essencialmente, aos capitalistas de multinacionais. Os grandes investimentos estatais em obras colossais geraram mais o endividamento do país do que empregos seguros. Durante o período, houve quase que um abandono do governo aos programas sociais.

   O fim do milagre aconteceu em 1973, com a crise do petróleo, que acabou com o combustível barato e gerou uma das mais agudas crises da econômica mundial. Na época o Brasil dependia da importação de 80% do petróleo consumido internamente. A dívida externa, que em 1967 era de U$ 40 bilhões, chegava em 1972, quando o milagre já estava no fim, a 97 bilhões de dólares.

 
 

O Brasil Político de 70

   Nos bastidores da ditadura militar, nunca a contestação ao regime atingira tanta violência. Com a promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968, ficaram suspensos todos os direitos de hábeas corpus a quem se opusesse ao regime ou fosse por ele declarado suspeito. O resultado foi o surgimento de organizações de esquerda que optaram pela guerrilha como forma de combater o regime militar. Entre as organizações que pegaram em armas estavam a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella; o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); e, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca.

   Em setembro de 1969, os guerrilheiros seqüestraram o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. A operação foi um sucesso, resultando na troca de quinze presos políticos pelo embaixador. Os prisioneiros foram postos em um avião e levados ao exílio. A vitória foi também política, pois evidenciou a prática da tortura, tantas vezes negada pelo regime militar. Em março de 1970, outro seqüestro seria realizado, a do cônsul japonês Nabuo Okushi. Mais uma vez o Brasil e o mundo assistiram ao embarque de presos políticos para o exílio. A humilhação levou o regime militar a usar como lema da sua propaganda política a máxima “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, numa alusão a expatriação dos presos políticos, que perdiam direito à nacionalidade brasileira.

   A resposta do regime militar aos seqüestros foi rápida e violenta. Em novembro de 1969, o líder da ALN, Carlos Marighella, foi morto em São Paulo. A Operação Bandeirantes (Oban), institucionaliza a tortura, prendendo e matando lideranças de esquerda, acossando cada vez mais os opositores ao regime. Em janeiro de 1970 foi criado os Centros de Operações para a Defesa Interna (CODI), e os Departamentos de Operações Internas (DOI), que juntos formaram o DOI-CODI, responsáveis pela prisão, tortura e morte de centenas de líderes de oposição. O cenário para ver a seleção brasileira brilhar na Copa de 1970 estava pronto. O de terror nos cárceres da ditadura também.
 
 “Carta do leitor”

A miséria política mantém-se viva. As oposições estúpidas avivam campanhas derrotistas, convocam e convidam às arruaças, mesmo com o risco de o mundo nos enxergar como um povo realmente inferior. Repete-se, com as obras para a Copa do Mundo, o mesmo que ocorreu durante a construção do Maracanã. E a denúncia de suspeitas de corrupção é a mesma, como se fosse um mantra. Qual outra bandeira as oposições têm senão falar em corrupção? E, quando chegam ao poder, o que fazem, senão mamar nas mesmas tetas? “Mudam-se as moscas, não muda o monte…”


Torcer para o fracasso da Copa do Mundo revela, antes de mais nada, estupidez, burrice e oportunismo de miséria política. É um propósito infrutífero, pois mesmo antes de a bola rolar, o povo brasileiro estará enrolado nas bandeiras nacionais, com camisas da Seleção e o brado heróico, retumbante: “Brasil, Brasil.” Se viermos a perder – e oxa, Satanás! – a história será outra. Uma derrota do Brasil será a vitória dos miseráveis. E o mundo todo pensará ser, essa pequenez, da natureza do brasileiro. Mas não é. Somos maiores e melhores.
Escrito por Mônica Longo
 
Comparação


Lista da Seleção de 1970

Carlos Alberto Torres
Clodoaldo Tavares de Santana
Dario José dos Santos (Dadá Maravilha)
Edson Arantes do Nascimento (Pelé)
Eduardo Gonçalves de Andrade (Tostão)
Eduardo Roberto Stinghen (Ado)
Emerson Leão (Leão)
Everaldo Marques da Silva
Félix Miéli Venerando
Gérson de Oliveira Nunes
Hércules Brito Ruas (Brito)
Jair Ventura Filho (Jairzinho)
Joel Camargo
Jonas Eduardo Américo (Edu)
José de Anchieta Fontana (Fontana)
José Guilherme Baldocchi (Baldocchi)
José Maria Rodrigues Alves (Zé Maria)
Marco Antônio Feliciano
Paulo César Lima (Paulo Cezar Caju)
Roberto Lopes de Miranda (Roberto Miranda)
Roberto Rivelino
Wilson da Silva Piazza (Piazza)




Lista de Mortos Pela Ditadura Militar em 1970*

Abelardo Rausch Alcântara
Alceri Maria Gomes da Silva
Ângelo Cardoso da Silva
Antônio Raymundo Lucena
Ari de Abreu Lima da Rosa
Avelmar Moreira de Barros
Dorival Ferreira
Edson Neves Quaresma
Eduardo Collen Leite
Eraldo Palha Freire
Hélio Zanir Sanchotene Trindade
Joaquim Câmara Ferreira
Joelson Crispim
José Idésio Brianesi
José Roberto Spingir
Juarez Guimarães de Brito
Lucimar Brandão Guimarães
Marco Antônio da Silva Lima
Norberto Nehring
Olavo Hansen
Roberto Macarini
Yoshitame Fujimore

*Na lista não consta os mortos em 1970, cujos corpos nunca foram encontrados, sendo oficialmente dados como desaparecidos.
 
 
 
 
 
 


Pra frente Brasil,
mas sem João Saldanha
 
 


   O presidente Emílio Garrastazu Médici, que entrou para a história como o mais truculento e de linha dura do regime militar, assumia diante do povo a imagem do pai da nação, preocupado com o bem-estar moral da população e o progresso do país. Fazia parte do pacote a sua paixão pelo futebol, chegando a intervir na própria concepção da seleção brasileira.

   Médici fazia questão de interar a imagem do governo com a do futebol, que na época tinha em campo o maior jogador do mundo, o incomparável Pelé. Em 1969, o Brasil aguardava com ansiedade o milésimo gol de Pelé. Quando o rei do futebol conquistou o seu feito, foi recebido em Brasília pelo presidente. Em novembro daquele ano, Pelé desfilava pela capital em carro aberto. Médici encerrava a apoteose do ídolo concedendo-lhe a medalha do mérito nacional e o título de comendador. Era apenas o início do namoro entre a propaganda política do Estado e o futebol brasileiro.
 

 
João Saldanha foi demitido pouco antes do mundial
 

   A escalação da seleção que iria ao mundial de 1970 enfrentou vários problemas de percurso. João Saldanha foi o técnico que depois de uma árdua e sofrida luta, conseguiu classificar a seleção para a copa. Durante a escalação, espalharam-se rumores de que o presidente Médici queria ver o jogador Dario, o Dadá Maravilha, escalado. Os boatos, jamais confirmados oficialmente, irritaram João Saldanha, que declararia à imprensa uma de suas mais contundentes frases: “O presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time”. João Saldanha foi, em seguida, demitido da seleção, pouco antes de ela seguir para o campeonato no México, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo.

   O motivo da demissão de João Saldanha ia muito além da sua declaração intempestiva. Suspeito de simpatizar e militar no Partido Comunista Brasileiro (PCB), o governo temia que o técnico chegasse ao México com uma lista de presos políticos no bolso, e que, em entrevistas coletivas, denunciasse para o mundo a tortura e o desrespeito aos direitos humanos que o regime militar infringia ilimitadamente.

   Resolvido o grande impasse político, a seleção, sob a tutela do técnico Zagallo, partiu para o México, em busca do título de tri-campeão do mundo, entrando de maneira mítica para a história do futebol brasileiro.

   De 31 de maio a 21 de junho, a Copa do Mundo de 1970 foi disputada no México. No dia 3 de junho de 1970, o Brasil disputava a sua primeira partida no Estádio Jalisco, em Guadalajara, contra Tchecoslováquia. No campo desfilava Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gérson, Piazza, Clodoaldo e tantos outros que seriam apontados como os componentes da maior seleção de todos os tempos. O Brasil venceria a Tchecoslováquia por 4x1. Em 7 de junho, venceria a Inglaterra por 1x0. Em 11 de junho, venceria a Romênia por 3x2, passando para a segunda fase de forma magnífica, empolgando o país e o mundo.

   No Brasil, o povo acompanhava a seleção em jogos transmitidos pela primeira vez pela televisão. O impacto era visível. Poucos privilegiados deram-se ao luxo de ver a transmissão em cores, adiantando-se em dois anos à chegada da tecnologia ao país, que se confirmaria em 1972. No meio da vibração do povo, ecoava com grande sucesso por todo o país, o hino da copa, “Pra Frente Brasil”, de autoria de Miguel Gustavo.
 


“Noventa Milhões em ação,
Pra frente Brasil,
Do meu coração...
Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil,
Salve a seleção!”


   O sucesso do hino e a empolgação extasiante do povo, fizeram com que o governo começasse a usar a seleção como objeto de propaganda política. Paralelamente, no dia 11 de junho de 1970, em plena copa, os guerrilheiros executavam um novo seqüestro, desta vez ao embaixador alemão Von Holleben. O regime recrudesceu ainda mais, abarrotando as celas de presos políticos, intensificando a tortura e o número de mortos e desaparecidos.

“De repente
É aquela corrente pra frente
Parece que todo Brasil deu a mão...
Todos ligados na mesma emoção...
Tudo é um só coração!”

   Em 14 de junho, a seleção brasileira derrotava o Peru por 4x2. Em 17 de junho derrotou o Uruguai por 3x1, passando para a fase final. No dia 21 de junho de 1970, o Brasil enfrentava a Itália, na Cidade do México. Numa das partidas mais emocionantes da história do futebol brasileiro, venceu os italianos por 4x1, tornando-se tri-campeão mundial. Apagava de vez a fraca atuação na copa de 1966, na Inglaterra. O último titulo tinha vindo em 1962, no governo democrático de João Goulart. O Brasil assistia em frente à televisão, o capitão da seleção, Carlos Alberto Torres, a erguer a taça Jules Rimet, um troféu com quase quatro quilos de ouro. A taça era definitivamente do Brasil, seria trazido pela seleção para o país. Já no Brasil, em 1983, ela seria roubada e derretida pelos ladrões, desaparecendo para sempre.

“Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil!
Brasil!
Salve a Seleção”

   No retorno, a seleção seria recebida pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. O general ergueu vitorioso a taça Jules Rimet. A conquista do tri-campeonato passava a ser o maior triunfo da propaganda do regime militar. Outros pilares que sustentavam o regime militar, como o do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, tiraram proveito da popularidade da seleção, e, em 20 de julho, presenteava 25 fuscas aos jogadores e à comissão técnica, todos pagos com o cofre público. Anos mais tarde, Paulo Maluf teria um processo contra ele para que devolvesse o dinheiro à prefeitura paulistana, sendo inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por duas vezes, em 1995 e, definitivamente, em 2006.

   O ano de 1970 era encerrado com mais um seqüestro da esquerda, desta vez ao embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher e, com mais de quinhentos presos políticos. A esquerda guerrilheira dava os seus últimos suspiros, e os seus principais líderes ou estavam presos, desaparecidos ou mortos pela ditadura.





                         As memórias da rua na copa dos anos 70.
                  
                            As histórias de torcedores brasileiros.


As maiores diferenças entre o futebol e o cenário atual em comparação com o anos 70
Bianca Fischel Derbander



O momento histórico marcou a consolidação de um regime e de uma entidade que rege o futebol no país até hoje



Vinil da Copa de 70
A Copa de 1970 foi um momento histórico pelo cenário da época. Em plena ditadura militar, o país do futebol era campeão.

Foi em meio a esse cenário que a musica tema da Copa de 70 surgiu. "Pra frente Brasil" era uma espécie de hino, em meio a dura época política, as pessoas esqueciam os problemas do país e emocionadas cantavam juntos, trazendo um sentimento de nacionalismo àquele povo.
A musica fazia uma analogia e misturava o campo à realidade, era preciso que todos estivessem juntos rumo à vitoria.


O técnico, um pouco antes de a copa começar era João Saldanha que depois foi substituído por Zagalo.  Pelé era o principal jogador da seleção.


A aposentada Marilene Matos que acompanhou tudo pela televisão, relembra da escalação brasileira.

- Naquela época, os jogadores escalados para a seleção jogavam no próprio país. Então havia algo diferente, a identificação do torcedor com o time era muito maior, hoje em dias os jogadores ficam todos espalhados pelo mundo.


Política e Campo
         
A situação política no país era tensa, e no ano de disputa das eliminatórias, o AI5 foi instituído pelo então presidente Arthur da Costa e Silva, o ato foi a parte mais pesada de toda história da ditadura brasileira.

 


Presidente Médici com a taça
Já no ano de 1969, um ano antes do começo da copa do mundo que seria disputada no México, Médici chega ao poder. Fã de futebol, ele soube como aproveitar a paixão nacional para fortalecer a ditadura.



 

-Eu me lembro de um amistoso contra o Paraguai no Maracanã, o estádio estava tão lotada que as pessoas tinham que sentar no colo uma das outras. Ouve uma propaganda muito do forte do governo. Conta a aposentada.

 

Através de propagandas, Médici mostrava principalmente que o Brasil cresceria junto com a seleção brasileira, fazendo um vínculo muito estreito entre as ruas e os campos.



Cenário colorido

Arnaldo Mota engenheiro de 78 anos, relembra como a rua era decorada na época, com bandeiras do Brasil por todos os lugares.

- Eu lembro que mandei fazer duas bandeiras enormes para cobrir o meu carro com as cores brasileiras.

O cenário de hoje é diferente, em meio a política atual o futebol fica tímido. As ruas, não estão tão coloridas e o grito do povo não é uníssono.
O governo se diz democrático e o povo tem mais liberdade. Foi essa mesma liberdade que fez com que o povo em Junho do ano passado levantasse e fosse à rua.

- Na copa de 70 as pessoas foram para a rua comemorar a vitória do Brasil, hoje, elas vão para clamar pelos seus direitos, conta Vera Lucia Gonçalves de 67 que estava presente nos atos contra a copa.

Manifestantes no Rio em frente ao Maracanã


Vera lembra-se de como a copa dos anos 70 foi diferente.

- O futebol era o ópio do povo, todos estavam felizes. Hoje, com mais acessos a outros meios de comunicação, as pessoas sabem o que realmente está acontecendo.

Apesar disso, admite que ira torcer pelo Brasil na Copa.
                 

Mídias

Transmitidos pela televisão, era raro alguém assistir aos jogos em bares como hoje em dia já que a difusão do meio não era tão grande.
- A gente assistia aos jogos em casa e depois ia para o bar comemorar. Relata Arnaldo.
Além disso, as imagens eram em preto e branco e foi a primeira transmissão de copa ao vivo.

- Eu me lembro das pessoas ouvindo aos jogos nos radinhos de pilha.
 
                  
 
 
                      O FUTEBOL FORA DA COPA.
             OS TIMES BRASILEIROS EM CAMPO.



No maracanã, a proximidade era muito maior ainda existia a geral e as pessoas ficavam em pé ao lado do gramado assistindo aos jogos em meio aos gritos de torcida em meio a um estádio lotado destinado a todas as classes sociais,


                                                                 Torcedores na geral em 1977.

 


Arnaldo conta com nostalgia sobre as características do futebol da época:

-  O futebol era mais arte e os jogadores menos atletas.

Além disso, os ídolos eram mais próximos já que jogavam em times do Brasil.
A publicidade em torno dos atletas era menor já que não existia ainda a qualidade de televisão que temos hoje em dia.


A rivalidade entre os times de São Paulo e Rio de Janeiro era grande,os campeonatos não eram tão fechado entre os estados.

Além disso, os jogos tinham preliminares, era possível ir ao estádio para ver os aspirantes que virariam jogadores mais tarde.

Já que a mídia não era tão desenvolvida, os jogadores tinham uma ligação maior com a torcida
- Já que não tinha essa coisa de televisão eles jogavam para quem estava na arquibancada.

Não existia uma forma certa de jogar futebol e o brasileiro começou a formar a sua identidade através do futebol.


Os times ainda não haviam se transformado em empresas e a presença de patrocinadores estampados em camisas não eram tão comuns.
As torcidas organizadas não estavam tão presentes nos estádios, brigas por causa de rivalidades quase não existiam.

- Era uma rivalidade saudável, ninguém machucava ninguém por causa de futebol.

 Ao mesmo havia um maior individualismo entre os jogadores, as formas de jogarem eram distintas, nem todo zagueiro era troncudo e nem todo atacante era artilheiro, a mídia fazia menos pressão e consequentemente havia uma menor homogeneização do esporte.

Mais de 40 anos depois,

atmosfera política continua

Natália Kallas

Apesar de viver um momento diferente, semelhanças Copa do Mundo permanecem.

 


           

Pelé e Neymar, símbolos de gerações diferentes.

 

Há cerca de um ano, diversas manifestações tomavam conta do Brasil, a pouco mais de 12 meses do início da Copa do Mundo, que será realizada a partir do dia 12 desse mês. Se começaram motivadas pelo aumento das passagens de ônibus, logo os motivos da insatisfação se expandiram, chegando ao evento esportivo e culminando no já famoso bordão “não vai ter Copa”. Insatisfeita, parte da população reclama que a enorme quantidade de dinheiro gasta em investimentos para a competição, como construção de estádios e reformas de aeroportos, deveriam estar sendo investido em outras áreas, como na construção de hospital e escolas.

O clima de insatisfação se espalhou e já na Copa das Confederações, realizada em Junho do mesmo ano, pode-se assistir o que pra muitos foi uma amostra do que deve acontecer durante o Mundial. Os protestos puderam ser vistos tanto do lado de dentro quanto do lado de fora dos gramados. Os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo também foram sentidos em ambos. A presidente Dilma Rousseff foi vaiada em alto som dentro do estádio pelo público presente. Mesmo público que fez questão de gritar em tom até mais alto o hino do país. Uma mistura de sentimentos.

A expectativa é que essa divisão entre os que apóiam a Copa como forma de levantar a imagem do país para o mundo e aqueles que acreditam que o dinheiro tenha sido mal investido deve continuar de forma ainda mais forte durante a competição oficial e os responsáveis pela segurança das cidades-sede já se preparam para enfrentar manifestantes, que, embora em pequena quantidade, já deram as caras nos treinos da seleção.

Copa e ditadura

Essa, no entanto, não foi a primeira vez que o esporte foi reflexo do momento vivido pelo pais. Em 1970, o país também passava por um momento político agitado. Afinal, seis anos após ser instaurada, a ditadura militar continuava no país, e com grande força. Apesar de o Brasil viver o chamado “milagre econômico”, também foi nesse período, sob o governo do presidente Médici, que o país viveu sua fase mais linha dura.

No entanto, governo e presidente se aproveitaram do momento para espalhar pelo paíss uma grande onda de euforia e distrair a população. O engenheiro Ricardo Henrique Castro, na época com apenas 12 anos de idade e morador do Rio de Janeiro, diz se lembrar exatamente desse clima e do fato de que sua casa destoava das demais, que estavam todas enfeitadas.

“Eu era novo, mas lembro perfeitamente dessa euforia. Minha casa era praticamente a única da rua que não tinha uma bandeira na porta ou na janela, quase todas as outras tinham. Na época eu não entendia direito, mas como meus pais eram bem politizados e contra a ditadura, eles procuraram se manter bem longe daquela festa toda”, explica ele.

Diferentemente do que ocorre hoje, não existia a possibilidade de expressar qualquer tipo de insatisfação com o momento que se vivia. O presidente Médici era “linha dura”, ala mais radical dos militares e seu governo foi o mais opressivo entre todos, resultando em um grande número de mortes, torturas e tentativas de exílio político no exterior.

O governo, por sua vez, fazia de tudo para ligar a sua imagem e, principalmente, a imagem do presidente à da seleção, motivo pelo qual a vitória era indispensável. E para a sorte deles foi exatamente o que aconteceu. Considerada por muitos a melhor seleção de todos os tempos, o Brasil se tornou o primeiro time a sagrar-se três vezes campeão do mundo e trouxe para casa a taça Jules Rimet.

A professora Vera Mendonça relembra que, na volta dos jogadores, “o presidente não perdeu a oportunidade e saiu em quase todas fotos tanto com a taça e quanto com os jogadores. Fora isso, não tem como não lembrar da musica né?”.

“A música” a que ela se refere é até hoje conhecida. Quem nunca ouviu os versos “Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil/ Salve a seleção”? Na época, marchinha se tornou símbolo daquela seleção e, consequentemente, do governo.

Copa na TV

Outro ponto importante de destacar é que, assim como hoje o avanço da tecnologia e da internet permite que um número cada vez maior de pessoas tenham a oportunidade de acompanhar a competição, a Copa de 70 marcou a primeira vez que o povo brasileiro assistiria uma Copa do Mundo pela televisão. “Tudo aquilo era uma novidade e fez crescer ainda mais aquele clima de euforia, porque o povo queria ver a nossa seleção ganhando”, lembra Castro.

Ao contrário do que aconteceu na época e provavelmente sentindo que dessa vez não há clima para isso, a mídia brasileira parece manter uma postura muito mais sóbria com relação à competição.

Além dos gastos e da política por trás do evento, Castro lembra ainda um outro motivo que causa um certo afastamento entre a população e sua seleção. “Naquela época, acho que basicamente todos os jogadores da seleção atuavam por times daqui do Brasil. Então, era diferente. A gente queria ver os craques do nosso time brilhando. Hoje em dia, quase todos moram fora. Alguns nem são conhecidos do grande público. Isso dá uma esfriada na relação”.

            A menos de quinze dias do inicio da competição, é tarde demais para entrar no debate sobre se ela deve acontecer ou não. O importante é que, tanto em caso de derrota quanto de vitória e diferente do que aconteceu em 1970, não se caia em euforia ou jogos políticos, e que o evento sirva para a reflexão e evolução do país.
 
 
 
 
Moda nos Anos 70:
psicodélica e irregular
Natália Kallas

O cantor britânico David Bowie.
Apesar de o ano de 1970 ter sido um período de forte repressão no Brasil e em muitos outros lugares do mundo, se houve um setor em que as idéias parecem ter ficado ainda mais férteis e criativas foi a moda. Muitas cores e muita psicodelia tomaram conta das roupas.
A produtora de moda da marca Cantão, Paloma Borges, detalhou um pouco mais o que era tendência na época: “Se usava muito plataforma, calças boca-de-sino, meias de lurex e muito poliéster. Era tudo bastante chamativo, nada básico. Não existia nenhum minimalismo, era tudo bem kitsch e punk. Foi uma época em que ocorreu uma massificação muito grande no mercado”.
Já a professora Vera Mendonça divertiu-se ao relembrar as peças que usava na época e notou que, ao longo dos anos, muitas delas foram e voltaram de moda em outros momentos. “Eu lembro que eu tinha vários vestidos de crochê e, é claro, as meias de lurex. O que eu acho engraçado é que vendo as fotos parece tudo muito maluco, mas essas coisas estão, inclusive, se usando de novo”.
Influência da música
O Rock’n’ Roll era a principal música que se ouvia na época e um dos ícones que melhor representa esse momento foi, sem dúvidas, o cantor britânico David Bowie. Com seu visual andrógeno e suas roupas chamativas, ele apresentou uma imagem nunca antes vista e até hoje influencia estilistas e artistas no mundo todo. O visual de John Travolta em Os embalos de sábado à noite e a disco music também instigaram toda uma geração. Ou seja, não faltavam collants e calças muito justas.
No Brasil, cantores como Roberto Carlos, Raul Seixas e Rita Lee, entre outros, seguiam essas tendências e também apostavam no estilo psicodélico para se vestir e até para cantar. Foi o ano em que se formou um grupo que viria a fazer sucesso durante toda a década, Secos e Molhados.Chico Buarque e Caetano Veloso continuraam a fazer sucesso, assim como os Beatles, todos em fase mais psicodélica tanto nas vestimentas quando nas músicas.
A jornalista Samantha Mahawasala, do site FashionBubbles, lembra que foi nessa época que surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo grandes nomes da moda. “Um grupo de estilistas bastante criativos ganham destaque no Rio de Janeiro como Jose Augusto Bicalho, Luiz de Freitas, Sonia Mureb, Meire Zaide, Gregório Faganello, Marco Ricca, Marilia Valls. Já em São Paulo, era Décio Xavier ao lado de José Gayegos e outros”.
Influência da ditadura
Ainda no Brasil, a repressão da ditadura militar atingia uma de suas fases mais duras com o governo Médici. As pessoas tinham outras coisas para se preocuparem e um estilo mais prático começa a tomar conta do país. Por isso e graças ao sucesso das telenovelas, que já naquela época ditavam moda, as roupas esportivas e o jeans também viraram sucesso, assim como as roupas unissex trazidas por Bowie.
Seguindo essa linha de simplificação da vida, a ecologia ganha importância e faz a indústria procurar fibras naturais para os tecidos e materiais sintéticos para substituir as peles e poupar os animais.
Parece uma mistura grande e ainda há mais para ser citado – glitter e rilhos, saias mini, micro, longas, midi – mas como Borges explica é exatamente essa mistura que define a moda do período. “É difícil definir a moda dos anos 70, porque se usou de um tudo. Não existiam muitas regras quanto a isso.”