terça-feira, 3 de junho de 2014

Os anos 70, a copa e as marcas



 

Os anos 70, a copa e as marcas

deixadas na história brasileira

O inesquecível tricampeonato mundial ainda mexe com muitos brasileiros

 Por Maria Clara Zincone

Desde que foi escolhido para sediar os jogos, em outubro de 2007, o país vem vivendo diversos episódios marcantes. Manifestações pelas ruas e pelas redes sociais, que ameaçam tumulto e paralisações durante os jogos, são provas da insatisfação do povo com o mau uso do dinheiro público e com os demais problemas com que o país convive há décadas. Como disse o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos em sua coluna semanal no jornal O Globo, em 26 de maio, “A Copa chegou e, do programado, só o desvio de verbas aconteceu”.

Segundo o funcionário público João Velloso, de 84 anos, o maior questionamento da população é sobre os gastos com as obras. “Pelo o que eu tenho visto as pessoas estão revoltadas, e com razão, devido aos valores exorbitantes que estão sendo gastos com as construções dos estádios, que inclusive nem estão prontos ainda”, declara João. “A raiva substituiu a emoção e a ansiedade, sentimentos que dominavam os corações dos brasileiros na copa do México, em 70, por exemplo”, compara.

O futebol no Brasil é quase uma religião. Para entender a história do país é preciso compreender o esporte, amado e admirado nos 36 estados brasileiros. Na época da ditadura militar, de 64 a 85, o futebol foi um fator importante na sociedade. Na tese de Marcos Guterman “O Futebol explica o Brasil: O Caso da Copa de 70”, feita em 2006 pelo estudante, aponta que “À medida que o sucesso da seleção brasileira foi se tornando concreto, militares e políticos civis procuraram capitalizar esse resultado”.

O futebol em 70 e a propaganda do mundial foram estritamente usados para fins políticos. Para o empresário Guilherme Pinto, o esporte foi utilizado para valorizar a autoestima do povo, pois a vitória do país seria sinônima de que tudo ia ficar bem e a população iria facilmente esquecer os desaparecidos, as torturas e as mortes que o regime causou. “Com certeza a vitória foi utilizada de forma política, havia este lema `Brasil Ame-o ou Deixe-o` por todos os lados”, afirma Guilherme. Em contraposição aos momentos truculentos do regime, o Brasil vivia o chamado “milagre econômico”, em que a economia do país crescia de uma maneira supreendente.

 

Televisão ao vivo

Não foi só na política que a copa de 70 marcou o Brasil, o campeonato mundial de futebol foi histórico por ter sido transmitido pela primeira vez ao vivo e a cores para os telespectadores brasileiros. Jornais, revistas, anúncios percorriam os estados. A revista Placar estampou “É só ligar a televisão”. Já a revista Veja, em maio de 1970, anunciou “TV: As cores estão chegando”. Era evidente a ansiedade do povo em relação à novidade do momento.

Mesmo ao vivo e com cores, as transmissões deixavam a desejar em alguns aspectos. Para Guilherme, era difícil assistir aos jogos. “Muito chuvisco, sem controle remoto, som ruim, mas os comentaristas eram muito bons, muito melhores dos que o de hoje em dia”, compara.

Muita coisa mudou de lá para cá. A tecnologia se desenvolveu, as novas mídias surgiram e a nova geração encontrou outras distrações. Segundo Velloso o dia a dia da população era completamente diferente. “Todos eram unidos por um motivo: a seleção brasileira. Na copa de 70 a vibração era muito maior, não havia essa desconfiança”, afirma. “A seleção perdeu o seu maior aliado: o povo.”, completa. Na modernidade do século 21, as pessoas estão ficando cada vez mais distantes umas das outras. Agora tudo se tornou digital e através de redes sociais.  

O capitalismo mundial trouxe consigo muita ganância e egoísmo. O mais importante hoje em dia é ganhar dinheiro e ser o melhor. Naquela época, as coisas não eram assim. Existia mais sentimento e humanismo. “Não havia o consumismo de hoje. As crianças brincavam na rua e não ficavam em casa, vendo televisão ou jogando. A violência existia, mas parecia longe”, comenta Guilherme.

A alguns dias do início dos jogos, os brasileiros não parecem se importar. A cidade continua igual, no ritmo normal. Alguns manifestos, como pinturas criticando a copa nas ruas e piadas na internet, estão surgindo aos poucos. Em 70, quando o campeonato estava próximo, tudo no país era amarelo, verde e azul e o futebol era o único assunto. “Nem parece o Brasil de antigamente. A copa está chegando?”, ironiza o funcionário público. “Muitos perderam aquela paixão, algo muito difícil de recuperar agora”, completa.

Os problemas do país sede já estão ultrapassando as fronteiras e os oceanos. Notícias sobre violência, corrupção política e greves já são capas em diversos jornais e revistas internacionais. O jornal espanhol El País, por exemplo, estampou “Uma goleada de greves sacode o Brasil às portas do mundial”. O site The Economist disse, em uma reportagem feita no início do mês de maio, que o Brasil é o país do improviso.

Fora ou aqui o país tem muitos problemas a resolver. A Copa do Mundo seria uma boa oportunidade para melhorar a imagem do Brasil e dos brasileiros no mundo, mas parece que o efeito está sendo inverso, a reputação do país só está piorando. Que as manifestações consigam mudar o governo, que os gritos sejam ouvidos e que o Brasil possa receber todos muito bem. O país do futebol deve jogar bonito dentro e fora campo. Não é mais uma questão de opção e sim um dever.
Matéria Revista Placar
 
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 A música na época do

futebol e da repressão

 

O ano de 1970 foi muito rico em produção cultural no Brasil, principalmente na área da música. A repressão militar e as truculências da polícia inspiraram muitos artistas brasileiros, que inclusive tiveram músicas censuradas pelo governo e foram exilados para Europa, como é o caso de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Para o compositor, arranjador e produtor musical Mú Carvalho a censura desafiou os músicos que compuseram durante o regime. “A censura gerou uma tensão e ao mesmo tempo um desafio para os compositores. Existia na época um ambiente bem peculiar no ar”, afirma Mu.

O marco dos anos 70 foi a música “Pra Frente Brasil”, do compositor Miguel Gustavo. A canção embalou 90 milhões de corações que torciam pela seleção brasileira. Segundo o músico, a música era como o hino da seleção. “‘Pra Frente Brasil’ tinha um forte ufanismo e certamente gerou uma euforia por conta do mundial”, comenta Mú.

Foi um ano muito vivo e importante para a história do Brasil. “A nata da MPB estava muito fértil” diz o músico. “Músicas como ´London London´, ‘ A Little More Blue´ e ´Maria Bethânia´ chegaram nas paradas de sucesso por aqui. Chico Buarque chegava com tudo nas rádios com a música ‘Apesar de Você’: ‘Hoje você  é quem manda falou, tá falado  não tem discussão  [..] Você que inventou esse estado’ ”, relembra.  A canção foi uma, das muitas, censuradas pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici e só foi liberada oito anos mais tarde no final do governo de Ernesto Geisel.

Chico Buarque, por ter sido muito perseguido no período, assinava algumas músicas com o pseudônimo “Julinho da Adelaide”. Suas canções não precisavam conter questões políticas ou frases de duplo sentido, bastava estar assinado com o nome Chico Buarque que a censura vetava. 

A censura foi um dos pontos altos da ditadura militar. Centenas de músicas foram proibidas de serem executadas nas rádios do país. O auge da censura, aconteceu dois anos mais tarde, em 1972, com a criação do DCDP - Divisão de Censura de Diversões Públicas. O órgão controlava letras de músicas e deixavam, ou não, as canções serem gravadas e reproduzidas. Se uma música não fosse liberada, as gravadoras ainda podiam recorrer e o processo ia diretamente pra Brasília. “Não tem como censurar um autor ou qualquer pessoa de expor a sua obra. Fico chocado de pensar que isso um dia aconteceu”, diz Mú.

Foi um período de muita festa e alegria também, em que vários festivais aconteceram, revelando artistas desconhecidos. Através desses eventos, os jovens encontraram uma maneira de expor toda a criatividade. Foi, principalmente, uma vitrine e inserção de novos talentos no mercado fonográfico. Em 70 houve o V Festival Internacional da Canção, transmitido pela TV Globo. Nele as músicas “BR-3” de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar,” O Amor é o Meu País” de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza ficaram em primeiro lugares.

Além desse, 1970 também foi o ano do III Festival Universitário de Música Brasileira, que participaram os estados do Ceará, do Piauí, do Maranhão, do Rio Grande do Norte e da Paraíba.
 

O Brasil viveu um momento triste, rico e inesquecível há 44 anos. Uma mistura de sensações e emoções inundou o coração dos brasileiros que viveram esse período. “Eu acredito que, não só o ano de 70, mas a década de 70, foi o período mais interessante no Brasil, no que se refere à músicas que viraram clássicos”, opina Mú.


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