Os anos 70, a copa e as marcas
deixadas na história brasileira
O
inesquecível tricampeonato mundial ainda mexe com muitos brasileiros
Desde
que foi escolhido para sediar os jogos, em outubro de 2007, o país vem vivendo
diversos episódios marcantes. Manifestações pelas ruas e pelas redes sociais,
que ameaçam tumulto e paralisações durante os jogos, são provas da insatisfação
do povo com o mau uso do dinheiro público e com os demais problemas com que o
país convive há décadas. Como disse o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos em
sua coluna semanal no jornal O Globo, em 26 de maio, “A Copa chegou e, do
programado, só o desvio de verbas aconteceu”.
Segundo
o funcionário público João Velloso, de 84 anos, o maior questionamento da
população é sobre os gastos com as obras. “Pelo o que eu tenho visto as pessoas
estão revoltadas, e com razão, devido aos valores exorbitantes que estão sendo
gastos com as construções dos estádios, que inclusive nem estão prontos ainda”,
declara João. “A raiva substituiu a emoção e a ansiedade, sentimentos que
dominavam os corações dos brasileiros na copa do México, em 70, por exemplo”,
compara.
O
futebol no Brasil é quase uma religião. Para entender a história do país é
preciso compreender o esporte, amado e admirado nos 36 estados brasileiros. Na
época da ditadura militar, de 64 a 85, o futebol foi um fator importante na
sociedade. Na tese de Marcos Guterman “O Futebol explica o Brasil: O Caso da
Copa de 70”, feita em 2006 pelo estudante, aponta que “À medida
que o sucesso da seleção brasileira foi se tornando concreto, militares e políticos
civis procuraram capitalizar esse resultado”.
O futebol em 70 e a propaganda do mundial foram
estritamente usados para fins políticos. Para o empresário Guilherme Pinto, o esporte
foi utilizado para valorizar a autoestima do povo, pois a vitória do país seria
sinônima de que tudo ia ficar bem e a população iria facilmente esquecer os
desaparecidos, as torturas e as mortes que o regime causou. “Com
certeza a vitória foi utilizada de forma política, havia este lema `Brasil
Ame-o ou Deixe-o` por todos os lados”, afirma Guilherme. Em contraposição aos
momentos truculentos do regime, o Brasil vivia o chamado “milagre econômico”,
em que a economia do país crescia de uma maneira supreendente.
Televisão ao vivo
Não foi só na política que a copa de 70 marcou
o Brasil, o campeonato mundial de futebol foi histórico por ter sido transmitido
pela primeira vez ao vivo e a cores para os telespectadores brasileiros. Jornais,
revistas, anúncios percorriam os estados. A revista Placar estampou “É só ligar a televisão”. Já a revista Veja, em maio de 1970, anunciou “TV: As
cores estão chegando”. Era evidente a ansiedade do povo em relação à novidade
do momento.
Mesmo ao vivo e com cores, as transmissões
deixavam a desejar em alguns aspectos. Para Guilherme, era difícil assistir aos
jogos. “Muito chuvisco, sem controle remoto, som ruim, mas os comentaristas
eram muito bons, muito melhores dos que o de hoje em dia”, compara.
Muita coisa mudou de lá para cá. A tecnologia se
desenvolveu, as novas mídias surgiram e a nova geração encontrou outras
distrações. Segundo Velloso o dia a dia da população era completamente
diferente. “Todos eram unidos por um motivo: a seleção brasileira. Na copa de
70 a vibração era muito maior, não havia essa desconfiança”, afirma. “A seleção
perdeu o seu maior aliado: o povo.”, completa. Na modernidade do século 21, as
pessoas estão ficando cada vez mais distantes umas das outras. Agora tudo se
tornou digital e através de redes sociais.
O
capitalismo mundial trouxe consigo muita ganância e egoísmo. O mais importante
hoje em dia é ganhar dinheiro e ser o melhor. Naquela época, as coisas não eram
assim. Existia mais sentimento e humanismo. “Não havia o consumismo de hoje. As
crianças brincavam na rua e não ficavam em casa, vendo televisão ou jogando. A violência existia, mas parecia longe”,
comenta Guilherme.
A
alguns dias do início dos jogos, os brasileiros não parecem se importar. A
cidade continua igual, no ritmo normal. Alguns manifestos, como pinturas
criticando a copa nas ruas e piadas na internet, estão surgindo aos poucos. Em
70, quando o campeonato estava próximo, tudo no país era amarelo, verde e azul
e o futebol era o único assunto. “Nem parece o Brasil de antigamente. A copa
está chegando?”, ironiza o funcionário público. “Muitos perderam aquela paixão,
algo muito difícil de recuperar agora”, completa.
Os
problemas do país sede já estão ultrapassando as fronteiras e os oceanos.
Notícias sobre violência, corrupção política e greves já são capas em diversos
jornais e revistas internacionais. O jornal espanhol El País, por exemplo, estampou “Uma goleada de greves
sacode o Brasil às portas do mundial”. O site The Economist disse, em uma reportagem feita no início do mês de
maio, que o Brasil é o país do improviso.
Fora ou aqui o país tem muitos problemas a
resolver. A Copa do Mundo seria uma boa oportunidade para melhorar a imagem do
Brasil e dos brasileiros no mundo, mas parece que o efeito está sendo inverso, a
reputação do país só está piorando. Que as manifestações consigam mudar o
governo, que os gritos sejam ouvidos e que o Brasil possa receber todos muito
bem. O país do futebol deve jogar bonito dentro e fora campo. Não é mais uma
questão de opção e sim um dever.
Matéria Revista Placar
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futebol e da repressão
O ano de 1970 foi muito
rico em produção cultural no Brasil, principalmente na área da música. A
repressão militar e as truculências da polícia inspiraram muitos artistas
brasileiros, que inclusive tiveram músicas censuradas pelo governo e foram
exilados para Europa, como é o caso de Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Para o compositor,
arranjador e produtor musical Mú Carvalho a censura desafiou os músicos que
compuseram durante o regime. “A censura gerou uma tensão e ao mesmo tempo um
desafio para os compositores. Existia na época um ambiente bem peculiar no ar”,
afirma Mu.
O marco dos anos 70 foi
a música “Pra Frente Brasil”, do compositor Miguel Gustavo. A canção embalou 90
milhões de corações que torciam pela seleção brasileira. Segundo o músico, a
música era como o hino da seleção. “‘Pra Frente Brasil’ tinha um forte ufanismo
e certamente gerou uma euforia por conta do mundial”, comenta Mú.
Foi um ano muito vivo e
importante para a história do Brasil. “A nata da MPB estava muito fértil” diz o
músico. “Músicas como ´London London´, ‘ A Little More Blue´ e ´Maria Bethânia´
chegaram nas paradas de sucesso por aqui. Chico Buarque chegava com tudo nas
rádios com a música ‘Apesar de Você’: ‘Hoje você é quem manda falou, tá falado não tem discussão [..] Você que inventou esse estado’ ”,
relembra. A canção foi uma, das muitas,
censuradas pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici e só foi liberada
oito anos mais tarde no final do governo de Ernesto Geisel.
Chico Buarque, por ter
sido muito perseguido no período, assinava algumas músicas com o pseudônimo
“Julinho da Adelaide”. Suas canções não precisavam conter questões políticas ou
frases de duplo sentido, bastava estar assinado com o nome Chico Buarque que a
censura vetava.
A censura foi um dos
pontos altos da ditadura militar. Centenas de músicas foram proibidas de serem
executadas nas rádios do país. O auge da censura, aconteceu dois anos mais
tarde, em 1972, com a criação do DCDP - Divisão de Censura de Diversões
Públicas. O órgão controlava letras de músicas e deixavam, ou não, as canções
serem gravadas e reproduzidas. Se uma música não fosse liberada, as gravadoras
ainda podiam recorrer e o processo ia diretamente pra Brasília. “Não tem como
censurar um autor ou qualquer pessoa de expor a sua obra. Fico chocado de
pensar que isso um dia aconteceu”, diz Mú.
Foi um período de muita
festa e alegria também, em que vários festivais aconteceram, revelando artistas
desconhecidos. Através desses eventos, os jovens encontraram uma maneira de
expor toda a criatividade. Foi, principalmente, uma vitrine e inserção de novos
talentos no mercado fonográfico. Em 70 houve o V Festival Internacional da Canção, transmitido pela TV Globo. Nele
as músicas “BR-3” de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar,” O Amor é o Meu País” de
Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza ficaram em primeiro lugares.
Além desse, 1970 também
foi o ano do III Festival Universitário
de Música Brasileira, que participaram os estados do Ceará, do Piauí, do
Maranhão, do Rio Grande do Norte e da Paraíba.
O Brasil viveu um
momento triste, rico e inesquecível há 44 anos. Uma mistura de sensações e
emoções inundou o coração dos brasileiros que viveram esse período. “Eu
acredito que, não só o ano de 70, mas a década de 70, foi o período mais
interessante no Brasil, no que se refere à músicas que viraram clássicos”,
opina Mú.



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