terça-feira, 3 de junho de 2014


     Período de mais tortura e violência

             foi marcado por otimismo

Futebol e economia foram usados para criar clima de festa entre os brasileiros

Nathalia Melo 

Em 1970 o Brasil vivia o início do “Milagre Econômico”, sob a presidência de Emílio Garrastazu Médici, o período de maior popularidade do regime. A televisão em cores acabava de chegar ao país e a vitória da seleção brasileira foi incorporada e associada a este momento positivo. Ao mesmo tempo, a perseguição política aumentava. Mais presos, mais tortura, mais violência. A população estava dividida entre aqueles se preocupavam somente com o futebol e com a próspera economia, e aqueles que contestavam os crimes cometidos pelo governo por debaixo dos panos.

 

A Copa do Mundo de 1970 foi realizada no México. Após o fracasso da copa de 1966, a torcida brasileira não acreditava no potencial da seleção. De acordo com Lívia Magalhães, doutora em Futebol e Ditadura pela Universidade Federal Fluminense, o governo e a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) precisavam melhorar a imagem da seleção para estimular o culto à pátria.

 

– O futebol era um elemento que permitia ao regime promover as supostas união nacional e diversidade, em um espaço que não passava pelo setor político. A seleção de futebol era um elemento comum, um espaço de diálogo entre o presidente e a uma importante parcela da sociedade – analisa a historiadora.

 

A conquista da Copa de 1970 resultou em reconhecimento mundial para o futebol brasileiro, com a marchinha que se tornou símbolo da vitória: “Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil, no meu coração/ Todos juntos, vamos pra frente Brasil/ Salve a seleção!!!/ De repente é aquela corrente pra frente,/ parece que todo o Brasil deu a mão!/ Todos ligados na mesma emoção,/ tudo é um só coração!/ Todos juntos vamos pra frente Brasil!/ Salve a seleção!”

 

Ione Franca, 70 anos, assistia à televisão em cores pela primeira vez, em uma partida da Copa do Mundo. Na época, ela namorava um jogador de futebol, Délio Bernardino, que depois se tornaria o seu marido. Ele jogava no Democrata Futebol Clube, de Sete Lagoas, em Minas, e já havia passado por um grande time como o Cruzeiro. Uma lesão no joelho, porém, fez com que durante a copa ele estivesse impedido de jogar futebol.

 

De férias e lesionado, Délio levou Ione para o Rio de Janeiro, onde assistiram a todos os jogos da copa no Jardim Botânico, na residência de uma irmã dele. A preocupação de Ione, naquele momento, era ler os manuais de regras de futebol e de histórias da copa para não passar vergonha ao lado do namorado jogador.

 

– Eu não entendia nada de futebol, nunca gostei. Mas queria impressioná-lo. Então eu estudei, li muito, prestei atenção e aprendi muita coisa. A copa de 70 foi marcante para mim por causa disso, foi quando eu comecei a entender sobre futebol. Hoje, já velhinha, todo mundo fica impressionado com o quanto gosto de futebol. Minha televisão está sempre ligada nos canais de esporte e acompanho todos os campeonatos da Europa – conta.

 

            Ione fazia parte do grupo mais preocupado com o futebol do que com qualquer outra coisa, aquele grupo que, de certa forma, agradava o governo. Ela conta que, na época, não percebia que tanta gente sofria com o regime. E que considerava aquele o melhor momento da sua vida.

 

– Nunca estive tão bem economicamente como naquele período. Tinha uma sensação de estabilidade e segurança. A questão é que eu nunca fui uma ameaça ao regime e, portanto, não sofria nas mãos deles. E muita gente tem a mesma opinião que a minha, de que aquele foi um dos melhores períodos. Mas isso porque não sabíamos de verdade o que acontecia. Não tinha amigos universitários, comunistas ou revolucionários. Se eu visse alguém próximo sofrendo, com certeza a minha opinião, na época, seria diferente – diz.

 

            Ione se apaixonou pelo Rio de Janeiro, tanto que depois ela e o marido compraram um apartamento e se mudaram para o mesmo bairro que haviam visitado durante a copa de 70, o Jardim Botânico.

 

– Délio estava machucado e não fizemos tanta festa nas ruas. Mas mesmo assim aproveitei e me apaixonei pelo Rio. Os familiares e amigos dele também não eram engajados com política e nós todos torcemos muito pelo Brasil com os cariocas. As ruas enfeitadas, a gritaria de todo o bairro junto quando era gol. Tinha a sensação de que a nação estava unida, não sei se vai ser assim esse ano – conta.

 

De acordo com Lívia, o objetivo do governo era associar de todas as formas possíveis o futebol à nação, com seu modelo de sociedade.

 

– Procurou-se sempre glorificar na seleção de futebol qualidades coletivas que eram vistas como positivas pelos militares: organização, coragem, unidade, patriotismo. Os jogadores eram a personificação do “cidadão ideal”, que lutava pela pátria e mostrava suas virtudes para o mundo, assim como os torcedores, que cumpriram da mesma forma seu papel – diz.

 

 

Existia outra parcela da sociedade, no entanto, que preocupava os militares. Eram as pessoas que não se iludiam com o discurso do futebol e criticavam duramente o regime. Os primeiros exilados recém começavam a deixar o país no final de 1968 e início de 1969 e a tortura se tornava cada vez mais frequente. Lívia garante que a copa de 70 foi, como nenhum outro evento, uma maneira de o regime desviar a atenção destes crimes.

Muita polêmica já girou em torno da copa de 2014. Movimentos como “não vai ter copa”, “o gigante acordou” e passeatas nas ruas revelaram a insatisfação do povo brasileiro com a situação política e econômica do país. Embora o governo ainda tente, segundo Lívia, usar o futebol para distrair e entreter a população e ainda exaltar o nacionalismo, em 2014 não está funcionando da mesma forma.

 

 

  

 A Geração Televisão de 1970

dá lugar à Internet

 

Don Tapscott, consultor e cientista social canadense, de 46 anos, batizou de Geração Internet as pessoas nascidas entre o fim dos anos 70 e o fim dos anos 90. Os jovens de hoje, que em breve estarão assistindo à Copa do Mundo no Brasil. Eles cresceram em um universo digital e assimilaram as novas tecnologias como parte do ambiente natural. Bem diferente dos jovens da copa de 1970, chamados de Geração Televisão.

Na época, era empolgante pensar que poderiam ver a realidade como ela é. Em cores. Antes de 1970, não havia aparelho com imagem colorida no Brasil. A primeira transmissão em cores foi de um jogo da Copa do Mundo de 1970. Mesmo em preto e branco, a televisão já era a principal fonte de informação, entretenimento e lazer. Segundo Tapscott, nada influenciou tanto a juventude da época como a televisão.

Ela determinou fortemente que livros e revistas os jovens liam, que figuras ascendiam à celebridade e riqueza e que políticos prosperavam ou caíam. “A televisão foi uma tecnologia esplêndida para sua época. De fato, sua presença e suas propriedades definiram a época. Mas agora ela está cedendo o passo às tecnologias interativas bem mais ricas da era do computador”.

A copa de 2014 será transmitida de uma maneira inimaginável para 1970. As televisões em alta definição prometem ao espectador uma experiência única, de mostrar cada detalhe da forma mais real possível. Na última semana, a Samsung lançou a primeira televisão com tela curva do mundo. Uma tela gigante que se assemelha à tela de uma sala de cinema. E em tudo se parece com um computador. É possível navegar na internet e escolher o conteúdo que deseja assistir.

Com tanta tecnologia, é difícil para os jovens de hoje compreenderem o que significava assistir à primeira Copa do Mundo em cores para a Geração Televisão. Maria Cristina Melo, 54 anos, conta que seu pai se adiantou para comprar a nova tecnologia por causa da copa. Mas poucas famílias conseguiram assistir aos jogos em cores, só as que tinham um maior poder aquisitivo.

­- Meu pai comprou a televisão e teve muita curiosidade no bairro. Os amigos e familiares se reuniam na nossa casa para poder assistir em cores. Era caro, recente e nem todos podiam comprar. O que fez com que a festa fosse maior ainda. Muita gente reunida em torno de uma tela pequena. Hoje em dia muita gente se reúne, mas os aparelhos são maiores e as imagens nem se comparam – diz.

            A televisão, assim como o rádio e o jornal impresso, são meios de comunicação passivos que refletem os valores dos próprios proprietários, feitos de forma hierárquica, “de cima para baixo”. A internet formou uma geração acostumada com a interatividade, com a pluralidade e a produção de informação e com muitas opções de canais. Não era assim com a Geração Televisão. Ao analisar a própria juventude, Maria Cristina conta que eles eram diferentes dos jovens de hoje.

- Não respondíamos. Quando assistíamos a TV, líamos jornais ou ouvíamos rádio, éramos consumidores passivos. Os poderosos da indústria do jornalismo e do entretenimento decidiam quais notícias deveriam ser publicadas sobre a copa, quais músicas valiam a pena ouvir e quais filmes seriam exibidos no cinema. Talvez por isso mais jovens estejam insatisfeitos com a copa de 2014, eles tem mais acesso às fontes alternativas, ao pensamento crítico. Isso faz toda a diferença – conta.

            Em 2014, as possibilidades para assistir à copa são infinitas. Vários canais para escolher, imagens em alta definição e conteúdo vinte e quatro horas por dia na internet. Além disso, novos portais de vídeo sob demanda surgem para assistir aos jogos ao vivo pelo computador.

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