Período de mais tortura e
violência
foi marcado por otimismo
Futebol e economia foram usados
para criar clima de festa entre os brasileiros
Em 1970 o Brasil vivia o início do
“Milagre Econômico”, sob a presidência de Emílio Garrastazu Médici, o período
de maior popularidade do regime. A televisão em cores acabava de chegar ao país
e a vitória da seleção brasileira foi incorporada e associada a este momento
positivo. Ao mesmo tempo, a perseguição política aumentava. Mais presos, mais
tortura, mais violência. A população estava dividida entre aqueles se preocupavam
somente com o futebol e com a próspera economia, e aqueles que contestavam os
crimes cometidos pelo governo por debaixo dos panos.
A Copa do Mundo de 1970 foi
realizada no México. Após o fracasso da copa de 1966, a torcida brasileira não
acreditava no potencial da seleção. De acordo com Lívia Magalhães, doutora em
Futebol e Ditadura pela Universidade Federal Fluminense, o governo e a
Confederação Brasileira de Desportos (CBD) precisavam melhorar a imagem da
seleção para estimular o culto à pátria.
– O futebol era um elemento que permitia ao regime
promover as supostas união nacional e diversidade, em um espaço que não passava
pelo setor político. A seleção de futebol era um elemento comum, um espaço de
diálogo entre o presidente e a uma importante parcela da sociedade – analisa a
historiadora.
A conquista da Copa de 1970 resultou
em reconhecimento mundial para o futebol brasileiro, com a marchinha que se
tornou símbolo da vitória: “Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil, no meu
coração/ Todos juntos, vamos pra frente Brasil/ Salve a seleção!!!/ De repente
é aquela corrente pra frente,/ parece que todo o Brasil deu a mão!/ Todos
ligados na mesma emoção,/ tudo é um só coração!/ Todos juntos vamos pra frente
Brasil!/ Salve a seleção!”
Ione Franca, 70 anos, assistia à
televisão em cores pela primeira vez, em uma partida da Copa do Mundo. Na
época, ela namorava um jogador de futebol, Délio Bernardino, que depois se
tornaria o seu marido. Ele jogava no Democrata Futebol Clube, de Sete Lagoas,
em Minas, e já havia passado por um grande time como o Cruzeiro. Uma lesão no
joelho, porém, fez com que durante a copa ele estivesse impedido de jogar
futebol.
De férias e lesionado, Délio levou
Ione para o Rio de Janeiro, onde assistiram a todos os jogos da copa no Jardim
Botânico, na residência de uma irmã dele. A preocupação de Ione, naquele
momento, era ler os manuais de regras de futebol e de histórias da copa para
não passar vergonha ao lado do namorado jogador.
– Eu não entendia nada de futebol, nunca gostei. Mas
queria impressioná-lo. Então eu estudei, li muito, prestei atenção e aprendi
muita coisa. A copa de 70 foi marcante para mim por causa disso, foi quando eu
comecei a entender sobre futebol. Hoje, já velhinha, todo mundo fica
impressionado com o quanto gosto de futebol. Minha televisão está sempre ligada
nos canais de esporte e acompanho todos os campeonatos da Europa – conta.
Ione
fazia parte do grupo mais preocupado com o futebol do que com qualquer outra
coisa, aquele grupo que, de certa forma, agradava o governo. Ela conta que, na
época, não percebia que tanta gente sofria com o regime. E que considerava
aquele o melhor momento da sua vida.
– Nunca estive tão bem economicamente como naquele
período. Tinha uma sensação de estabilidade e segurança. A questão é que eu
nunca fui uma ameaça ao regime e, portanto, não sofria nas mãos deles. E muita
gente tem a mesma opinião que a minha, de que aquele foi um dos melhores
períodos. Mas isso porque não sabíamos de verdade o que acontecia. Não tinha
amigos universitários, comunistas ou revolucionários. Se eu visse alguém
próximo sofrendo, com certeza a minha opinião, na época, seria diferente – diz.
Ione
se apaixonou pelo Rio de Janeiro, tanto que depois ela e o marido compraram um
apartamento e se mudaram para o mesmo bairro que haviam visitado durante a copa
de 70, o Jardim Botânico.
– Délio estava machucado e não fizemos tanta festa
nas ruas. Mas mesmo assim aproveitei e me apaixonei pelo Rio. Os familiares e
amigos dele também não eram engajados com política e nós todos torcemos muito
pelo Brasil com os cariocas. As ruas enfeitadas, a gritaria de todo o bairro
junto quando era gol. Tinha a sensação de que a nação estava unida, não sei se
vai ser assim esse ano – conta.
De acordo com Lívia, o objetivo do
governo era associar de todas as formas possíveis o futebol à nação, com seu modelo
de sociedade.
– Procurou-se sempre glorificar na seleção de
futebol qualidades coletivas que eram vistas como positivas pelos militares: organização,
coragem, unidade, patriotismo. Os jogadores eram a personificação do “cidadão
ideal”, que lutava pela pátria e mostrava suas virtudes para o mundo, assim
como os torcedores, que cumpriram da mesma forma seu papel – diz.
Existia outra parcela da sociedade,
no entanto, que preocupava os militares. Eram as pessoas que não se iludiam com
o discurso do futebol e criticavam duramente o regime. Os primeiros exilados
recém começavam a deixar o país no final de 1968 e início de 1969 e a tortura
se tornava cada vez mais frequente. Lívia garante que a copa de 70 foi, como
nenhum outro evento, uma maneira de o regime desviar a atenção destes crimes.
Muita polêmica já girou em torno da
copa de 2014. Movimentos como “não vai ter copa”, “o gigante acordou” e passeatas
nas ruas revelaram a insatisfação do povo brasileiro com a situação política e
econômica do país. Embora o governo ainda tente, segundo Lívia, usar o futebol
para distrair e entreter a população e ainda exaltar o nacionalismo, em 2014
não está funcionando da mesma forma.
dá lugar à
Internet
Don Tapscott, consultor e cientista
social canadense, de 46 anos, batizou de Geração
Internet as pessoas nascidas entre o fim dos anos 70 e o fim dos anos 90.
Os jovens de hoje, que em breve estarão assistindo à Copa do Mundo no Brasil. Eles
cresceram em um universo digital e assimilaram as novas tecnologias como parte
do ambiente natural. Bem diferente dos jovens da copa de 1970, chamados de
Geração Televisão.
Na época, era empolgante pensar que
poderiam ver a realidade como ela é. Em cores. Antes de 1970, não havia aparelho
com imagem colorida no Brasil. A primeira transmissão em cores foi de um jogo
da Copa do Mundo de 1970. Mesmo em preto e branco, a televisão já era a
principal fonte de informação, entretenimento e lazer. Segundo Tapscott, nada
influenciou tanto a juventude da época como a televisão.
Ela determinou fortemente que
livros e revistas os jovens liam, que figuras ascendiam à celebridade e riqueza
e que políticos prosperavam ou caíam. “A televisão foi uma tecnologia esplêndida
para sua época. De fato, sua presença e suas propriedades definiram a época.
Mas agora ela está cedendo o passo às tecnologias interativas bem mais ricas da
era do computador”.
A copa de 2014 será transmitida de
uma maneira inimaginável para 1970. As televisões em alta definição prometem ao
espectador uma experiência única, de mostrar cada detalhe da forma mais real
possível. Na última semana, a Samsung lançou a primeira televisão com tela
curva do mundo. Uma tela gigante que se assemelha à tela de uma sala de cinema.
E em tudo se parece com um computador. É possível navegar na internet e
escolher o conteúdo que deseja assistir.
Com tanta tecnologia, é difícil
para os jovens de hoje compreenderem o que significava assistir à primeira Copa
do Mundo em cores para a Geração Televisão. Maria Cristina Melo, 54 anos, conta
que seu pai se adiantou para comprar a nova tecnologia por causa da copa. Mas
poucas famílias conseguiram assistir aos jogos em cores, só as que tinham um
maior poder aquisitivo.
- Meu pai comprou a televisão e teve muita
curiosidade no bairro. Os amigos e familiares se reuniam na nossa casa para
poder assistir em cores. Era caro, recente e nem todos podiam comprar. O que
fez com que a festa fosse maior ainda. Muita gente reunida em torno de uma tela
pequena. Hoje em dia muita gente se reúne, mas os aparelhos são maiores e as
imagens nem se comparam – diz.
A
televisão, assim como o rádio e o jornal impresso, são meios de comunicação
passivos que refletem os valores dos próprios proprietários, feitos de forma
hierárquica, “de cima para baixo”. A internet formou uma geração acostumada com
a interatividade, com a pluralidade e a produção de informação e com muitas
opções de canais. Não era assim com a Geração Televisão. Ao analisar a própria juventude,
Maria Cristina conta que eles eram diferentes dos jovens de hoje.
- Não
respondíamos. Quando assistíamos a TV, líamos jornais ou ouvíamos rádio, éramos
consumidores passivos. Os poderosos da indústria do jornalismo e do
entretenimento decidiam quais notícias deveriam ser publicadas sobre a copa,
quais músicas valiam a pena ouvir e quais filmes seriam exibidos no cinema.
Talvez por isso mais jovens estejam insatisfeitos com a copa de 2014, eles tem
mais acesso às fontes alternativas, ao pensamento crítico. Isso faz toda a
diferença – conta.
Em
2014, as possibilidades para assistir à copa são infinitas. Vários canais para
escolher, imagens em alta definição e conteúdo vinte e quatro horas por dia na
internet. Além disso, novos portais de vídeo sob demanda surgem para assistir
aos jogos ao vivo pelo computador.
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