Nas Copas de 1970 e 2014, razões para torcer
ou se envergonhar
POR GABRIELA CAESAR
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A Seleção do Brasil de 1970 em campo
A nove dias do
começo da Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil, o maior conforto para
acompanhar as partidas de futebol do campeonato alavanca as vendas de aparelhos
de TV, principalmente, para a já consolidada nova classe média. Mestre em
Educação, o professor Sergio Bonato tinha 14 anos quando viu, pela primeira vez,
a Seleção do Brasil entrar em campo numa Copa do Mundo. Era 1970, e os jogos,
no México, eram transmitidos ao vivo pela televisão. Bonato estudava num
colégio interno só de meninos em Curitiba, Paraná. Quando a equipe do Brasil
disputava a competição com outras Seleções, o então garoto de 14 anos ia para a
frente da TV, junto a padres e aos demais 40 alunos da instituição. Nas Copas
anteriores, Bonato tinha acompanhado as partidas pelo rádio, meio de
comunicação mais difundido no país naquele momento.
“A televisão
não era barata, era para poucos. As pessoas saíam de casa e viam (os jogos) na casa do vizinho. Lembro
que comprar uma TV era como comprar um automóvel hoje em dia”, conta Bonato,
que assistiu à Copa de 1970 por uma “TV em preto e branco, com umas 29
polegadas e tubo grande”.
O consultor em
marketing esportivo Luiz Leo enfatiza que a Copa do Mundo favorece o comércio
de aparelhos de televisão. Segundo ele, a venda do equipamento cresce,
principalmente, a partir das Copas de 1974 e 1978 para, em 1982, ocorrer uma
explosão do consumo.
“A partir daí
a televisão se torna num objeto doméstico, um utensílio muito mais acessível em
termo de crédito. Era o rádio, que perdeu o lugar de honra na casa”, diz Luiz
Leo, ao observar que em termos de custo, o rádio sempre será mais acessível que
o aparelho de TV pela tecnologia embutida.
O decano do
Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio, o economista Luiz Roberto Cunha, conta
que o então governo, do general Emilio Médici (1969-1974), incentivava o
consumo. Ele acrescenta que a oferta de crédito direto ao consumidor de 1970 é
comparável com a dos últimos anos no país, depois da estabilização da moeda. Isso,
complementa, possibilitou que pessoas de renda mais baixa adquirissem bens,
como a televisão, por meio do parcelamento. O jornalista esportivo Roberto
Assaf afirma, no entanto, que a transmissão pela TV em tempo real foi
prejudicial por facilitar ao regime militar a “faturar politicamente”.
“Se até 1966, bem ou mal,
conseguiam fazê-lo, com os jogos ao vivo ganhou dimensão fantástica. As pessoas
se envolveram muito mais. Eu me lembro de ficar com mais 20 (amigos) imaginando o jogo”, reforça
Assaf.
Bonato concorda
que, já em 1970, a Copa do Mundo despertava o interesse da população
brasileira. Ele conta que as janelas tinham bandeiras de plástico do Brasil e
as pessoas se vestiam de verde e amarelo. Os minutos da partida, diz, também
aproximavam as pessoas e as colocavam em contato com o país. “Era como se fosse
uma guerra, e eu estava representado pela pessoa que chutava a bola.”
Mesmo antes do
início da competição, o assunto entre Bonato e os amigos já era o futebol da
Seleção. O ainda popular álbum de figurinha era um dos passatempos do grupo,
que comprava os “pacotinhos” na banca e depois trocava figurinhas. “Comprávamos
(o pacote com as figurinhas) nas
bancas e usávamos cola Tenaz. Era um grande meio de divulgação da Copa”,
recorda Bonato, que completou o álbum.
Foi a
televisão, ressalva Luiz Leo, a principal responsável por atrair audiência e,
consequentemente, mais patrocínios para a Copa do Mundo. Segundo ele, a partir
dos anos 1970, cresce o número de empresas interessadas em “pegar carona nessa
paixão” ao associar os produtos que comercializam a atributos positivos, como
alegria, emoção, conquista e jovialidade. Isso interfere, acrescenta, no papel
desempenhado pelos jogadores da Seleção.
“O compromisso
é com o mercado, é com o consumo. Esses caras não têm mais identidade
brasileira. Eles moram fora do brasil. Esses que estão aí representam pouco o
ideal romântico do herói esportivo que, nos anos 1970, representou aquela
geração. E ficou na memória”, critica o consultor em marketing esportivo.
A então
Confederação Brasileira de Desportes (CBD), atual Confederação Brasileira de
Futebol (CBF), atualmente envolvida em escândalos de corrupção, era admirada
por Bonato. Em 1970, ele conta ter desenhado o símbolo da CBD nos cadernos do
internato e na blusa que vestia para jogar futebol com os amigos.
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Os jogadores de futebol Mario Sergio, à esquerda, e PC
Caju, à direita, em campo
Porém, o
jogador de futebol da Seleção do Brasil de 1970 e 1974 Paulo Cezar Lima,
conhecido como PC Caju, deixou de participar da Copa de 1978, depois de
discutir com o então presidente da CBD, Heleno Nunes. O ex-futebolista conta
que tinha 28 anos e era “titular absoluto”, quando pediu melhorias para os
jogadores da Seleção.
“Os militares
mandavam no país, e ele falou que eu nunca mais jogaria lá. Aí cheguei a
escrever no Pasquim durante um ano, que era um jornal maravilhoso, mas eu perdi
uma Copa do Mundo”, conta PC Caju.
Para Assaf, os
jogadores da atual Seleção não devem levantar bandeiras, mas sim se concentrar
na campeonato. O jornalista acredita que, apesar de as manifestações serem
necessárias, o futebol não é o culpado pelas deficiências do país.
“Querem culpar o futebol por
essa tragédia, mas o futebol é um esporte como outro qualquer. A paixão é a mesma, a diferença
é que deixaram o povo de fora da Copa. Os ingressos são difíceis, e os
estádios, elitizados.”
Já Luiz Leo
lembra que a população de 2014, mesmo vivendo num regime democrático, tem uma
articulação de reivindicar direitos, novas conquistas, o que não ocorria em
1970. Naquela época, o Brasil estava num período ditatorial e, inclusive, no governo
considerado mais repressivo, o do general Emilio Médici.
“Nos anos 1970,
o Brasil vivia num modelo engessado de representação social, porque não havia
espaço para a manifestação de pensamento, e o Estado aproveitou o esporte para
convencer as pessoas de que aquilo ali era um modelo justo de sociedade, que
daria certo.”
Tanto Bonato
quanto Cunha concordam que o regime militar soube aproveitar o tricampeonato do
Brasil para fazer propaganda oficial. “O regime aproveitou a alegria do povo e
usou como benefício próprio. Conseguiram passar a ideia de que era um regime
competente”, afirma Bonato.
Para Bonato,
apesar de o governo não ter conseguido transmitir o discurso de “a Copa das
Copas”, a população vai às ruas torcer pelo Brasil e comemorar os resultados. Já
a forma de jogar futebol da atual Seleção não entusiasma PC Caju. Ele acredita
que tanto o esporte, quanto os torcedores estão mais violentos. Segundo PC
Caju, o técnico da Seleção de 2014, Luiz Felipe Scolari, instiga a equipe a não
deixar o adversário jogar e “dar pancada”.
“Todos os
times que ele (Luiz Felipe Scolari, o Felipão)
dirigiu só pratica o antijogo. Nessa última Copa das Confederações, o time
que mais cometeu falta na competição foi o Brasil, que antes só jogava bola. É
um absurdo”, que lembra outra novidade na Copa de 1970, a introdução dos
cartões de penalização amarelo e vermelho.
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O preconceito no futebol
Negro e filho
de uma ex-empregada doméstica de Minas Gerais, “analfabeta e mal-tratada”, o
ex-jogador de futebol PC Caju, conta que teve dificuldades para encontrar
espaço no futebol e na alta sociedade carioca. Passou no teste para o time do
Fluminense aos 12 anos. “Com o meu primeiro contrato com o Botafogo, eu tirei a
minha mãe da escravidão”, complementa. Ele lembra que, naquela época, os
jogadores de futebol eram vistos como “vagabundos”. Namorou Alice Niemeyer
durante um ano, mas o romance não foi aprovado pela família do neurocirurgião
Paulo Niemeyer. Nas andanças pelo país, em 1968, lembra ter visto a placa
“Proibida a entrada de negro”.
Para ele, o
racismo no futebol continua e não deve ser levado como uma jogada de marketing, como no caso da banana jogada
no campo na partida de Barcelona versus Villareal, na Espanha, em abril deste
ano. Na Copa do Mundo de 1970, no México, porém, PC Caju não se lembra de ter
sofrido preconceito. Ele conta que o Botafogo, a base da Seleção de 1970, era
muito querido pelos mexicanos.
“Na final, o
estádio inteiro estava a favor do Brasil. Já quando a gente ganhou da
Inglaterra, os mexicanos ficaram com uma felicidade enorme e passaram a torcer
para o Brasil.”
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O milagre na economia que reflete nos
jogos da Copa de 1970
Apesar da
oferta de crédito direto ao consumidor em 1970, que permitiu a compra de bens
por pessoas de renda mais baixa, a desigualdade social era um problema maior no
Brasil. O economista Luiz Roberto Cunha afirma que, naquela época, a remuneração
do capital crescia mais que a do trabalho.
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Os anos 1970 e
2014 são de economias estáveis e inflações controladas. Segundo Cunha, no
governo Médici, o país ainda se beneficiava de uma série de mudanças inseridas
pelo Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), lançado durante o governo
Castelo Branco (1964-1967). Ele lembra, ainda, que, em 1970, o endividamento
externo ainda não era “um grande problema” para o país.
Médici com a faixa presidencial
“Nesse período
de crescimento da economia mundial, as taxas de juros internacionais eram
relativamente baixas. Elas começam a subir de forma mais intensa a partir dos
anos 1980. O início do período de endividamento externo é no (governo) Médici, depois ele cresce
muito no (governo) Geisel (1974-1979)
e aí a crise vai ser só nos 1980”, afirma Cunha, ao reforçar que o Brasil se
beneficiava com o crescimento do país.
A economia só
voltaria a se estabilizar em 1994, ano em que foi lançado o Plano Real. Os três
pilares do pacote econômico foram a criação de um indexador único, chamado de
Unidade Real de Valor (URV), o lançamento da moeda Real e, ainda, o equilíbrio
de despesas e receitas nas contas públicas, ou seja, gastar menos e arrecadar
mais. Um dos elaboradores, o economista e ex-ministro de Fernando Henrique
Cardoso e Itamar Franco, Pedro Malan, acredita que a equipe fez diferença para
combater índices acima de 1.500% ao ano.
“André Lara
Resende, Pérsio Arida e Edmar Bacha, também de uma nova geração, tinha Gustavo
Franco, que haviam estudado não só a nossa própria experiência, mas como a de
outros países, desde as hiperinflações europeias do século passado”, destaca
Malan.
Com a
estabilidade da moeda, lembra Cunha, a conjuntura econômica permitiu que
políticas públicas de distribuição de renda estivessem na agenda dos últimos
governos, por meio de programas de transferência de renda. Apesar da piora na
distribuição de renda em 1970, Cunha lembra que o desemprego estava baixo e o
Produto Interno Bruto (PIB) crescia:
“Você não
apenas estava ganhando uma Copa do Mundo, mas você tinha taxas de crescimento
do PIB que nunca antes na história deste país você tinha tido crescimento tão
elevado. No período de 1968 a 1973, a taxa de crescimento real do PIB
brasileiro foi, em média, de 11,7%. Nunca de fato você repetiu isso. Você não
tinha tido antes e nem teve depois”, aponta.
Já em 2014, as
estimativas do governo em relação ao PIB é de crescimento de, no mínimo, 1,9%
neste ano. No entanto, o resultado do PIB
do primeiro trimestre, divulgado na sexta-feira passada (30), decepcionou e
pode puxar para baixo as apostas do mercado financeiro. Para Cunha, em 2014, o
baixo desemprego conta como ponto positivo, enquanto a inflação volta a
acelerar e “é alta para os governos dos últimos anos”. Malan concorda que a
inflação é uma preocupação e reforça que o número precisa ficar dentro do teto
da meta estipulada.
“Estaríamos
acima do teto se não fosse o controle de preços de gasolina, diesel, energia
elétrica. Vai ter que se aumentar, mas enquanto estiver abaixo de 6,5% não tem
problema. As pessoas passam a incorporar como natural que a inflação é 6,5%.
Pelo menos isso, porque ainda tem uma inflação reprimida aí”, reclama Malan,
que defende que o número volte para o centro da meta de 4,5% ao ano.



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