BRASIL
NAS COPAS
DILEMAS
DO PASSADO E DO PRESENTE
O
legado positivo e negativo que transpassou a Ditadura até a Copa 2014
O
Futebol brasileiro se envolve em uma série de questionamentos sociais e
políticos desde os anos 50, passando por uma marcante Copa de 70, rodeada pelo
clímax repressor do Regime Militar e a necessidade da população de ter alguma
“válvula de escape”, fatos e dilemas que refletem bastante no que é sentido até
hoje com a edição de 2014 do Mundial.
Chega a ser clichê dizer que o Brasil é o país do
futebol, mas queira ou não, é nitidamente o esporte que mais se destaca entre a
população, além de forte elemento identitário e cultural da nação. Para uma
população em sua maioria fascinada por times, artilheiros, e campeonatos
nacionais e internacionais, uma Copa do Mundo de Futebol é tida como a
consagração máxima para os que desejam o posto dos melhores do mundo, ao menos
de quatro em quatro anos. E sendo o país que reserva o maior número de títulos
alcançados em mundiais de futebol, com cinco vitórias conquistadas em disputas
com as principais seleções, desde seu início oficial, em 1930, o Brasil mais do
que qualquer outro deseja seguir com seu legado, somando cada vez mais vitórias
e buscando esquecer suas dolorosas derrotas.
Para o país, 1950 foi um ano extremamente
marcante, em que pela primeira vez foi realizada uma Copa do Mundo em terras
brasileiras, que teve a vitória do Uruguai sobre o Brasil, gerando forte
comoção nacional e desapontamento com o time que se via como vitorioso. Com o
retorno da disputa aos territórios nacionais neste ano, com a Copa da Mundo
FIFA 2014 a ser realizada neste mês de junho, muito se põe em discussão a
respeito não só da possibilidade de vitória, buscando apagar esse pesadelo de
50, mas principalmente sobre a atual situação política e social que se vivencia
na terra de craques como Pelé, Garrincha, Ronaldo e Neymar.
O que se viu em 2013, ano da Copa das
Confederações, que também foi disputada no Brasil, foi o real descontentamento
de uma parcela bem grande e significante da nação, que expôs total repúdio aos
investimentos faraônicos nas obras para a Copa de 2014, e que hoje já revelam
diferentes casos de superfaturamento, como o do próprio Estádio Jornalista
Mário Filho, popularmente conhecido como Maracanã, que recentemente teve
superfaturamento apontado pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. A obra
previa gastos de R$705 milhões, que chegaram a atingir R$1,2 bilhões em sua
reforma “padrão FIFA”. Sem falar nas obras que até hoje se encontram inacabadas
e promessas que não saíram do papel, como o caso do trem-bala, realizado pelo
governo Dilma Rousseff em 2009, cujo projeto tinha como objetivo interligar as
capitais do Rio de Janeiro e São Paulo através de um sistema de trem de alta
velocidade até a chegada do Mundial.
No entanto, esse aparente descaso político e
desrespeito com o povo também esteve presente na Copa de 50, em que algumas
obras foram feitas às pressas e entregues depois do prazo previsto. O próprio
Maracanã, passou por um famoso caso em que o meia iugoslavo Mitic bateu a
cabeça numa barra metálica ainda exposta pelas obras não finalizadas ao subir
uma das escadas de acesso ao gramado, sofrendo um profundo corte na testa. Na
época, tal fatalidade não repercutiu tanto; hoje, dificilmente passaria
despercebida, sobretudo porque furos de reportagem realizados por qualquer
pessoa que possua um aparelho eletrônico capaz de registrar o momento e
disponibilizá-lo nas redes sociais tornam-se cada vez mais frequentes, tamanha
a força midiática da TV e da internet. Força esta que teve difusão propagada a
partir da Copa de 70, no México, uma vez que foi a primeira a ser transmitida
ao vivo pela televisão, despertando um desejo desenfreado em adquirir aparelhos
na época, chegando a 4 milhões o número de lares que possuíam televisores,
equivalendo, aproximadamente, a 25 milhões de telespectadores.
Enquanto hoje se discute abertamente sobre todos
os escândalos envolvendo os investimentos em um evento como esses, a partir de
sua segunda edição em território brasileiro, movido principalmente por jovens
através de redes sociais e manifestações cada vez mais presentes na vida dos
brasileiros, na década de 70 tudo era bem mais controlado pelo regime militar
vigente. O Brasil era governado por Médici, conhecido até hoje como um dos mais
tiranos militares a governarem o país, assumido admirador do futebol, chegando
a demitir o então técnico João Saldanha, responsável por classificar a seleção
brasileira ao Mundial, por ser suspeito de simpatizar com o Partido Comunista
Brasileiro, e que rapidamente foi substituído por Zagalo, responsável por
trazer a taça Jules Rimet para casa, tornando-se ferramenta de propaganda
política através da imagem da heroica conquista de jogadores como Pelé, Tostão
e Jairzinho.
“PÁTRIA DE CHUTEIRAS”
Em entrevista com o biólogo Gustavo Marins, de 63
anos, é possível perceber as divergências e semelhanças com o Brasil de 1970 e
o que se vive agora. Ele afirma que o país encontrava-se no auge da ditadura
militar, levando à criação do termo “Pátria de Chuteiras”, representando o
desejo do governo militar em direcionar as atenções do povo para o Mundial,
abafando opositores e exterminando grupos revolucionários. “O termo Pátria de
Chuteiras surgiu com a ditadura, que queria o povo com as atenções voltadas à
seleção brasileira, escondendo os problemas que existiam. Era empurrar a
sujeira pra debaixo do tapete”.
Marins ainda afirma que o futebol de hoje é
diferente, que nos anos 70 existia um maior patriotismo por parte de todos os
brasileiros, cujo motivo principalmente, segundo ele, era a permanência dos
jogadores no Brasil e a maior identificação com o público: “Os principais
clubes brasileiros conseguiam manter seus jogadores no país, e por terem ídolos
mais próximos de seus clubes a rivalidade era maior, gerava uma grande paixão
da torcida brasileira. Não digo que não haja hoje, mas existe em menos escala.
Porque os craques de hoje jogam na Europa, o futebol do país não tem a magia do
passado. Hoje nós não temos esse futebol fascinante. Esse futebol fascinante
está na Europa”.
Ele ainda acredita na importância desse tipo de
evento para um país, apesar da forte negatividade que permeia esta edição de
2014, através dos brasileiros que preferiam que tais investimentos gastos
fossem direcionados para medidas de melhorias em saúde e educação. “O povo
precisa de uma série de coisas. Você pode continuar pensando na saúde e demais
recursos, mantendo eventos como esse, que são importantes pra um país. É
importante o Brasil ter uma Copa do Mundo aqui, pena que muitas pessoas acham
que o momento não é bom. A gente tem uma certa perda daquele encanto de 70”.
Gustavo ainda complementa afirmando que o povo jamais terá o mesmo encanto que
se tinha na época do “tri” e que mesmo com o tempo muitos problemas permanecem
no Brasil de hoje: “A Copa de hoje é num momento de democracia, mas um momento
também de muita impunidade e corrupção. São momentos diferentes, mas que causam
ao povo a mesma pressão, comoção suficiente para que a Copa não seja tão
querida como em outras épocas. A Pátria de Chuteiras não existe mais”.
No entanto, o engenheiro Isimar Nunes, de
65 anos, que também acompanhou o desempenho da seleção tricampeã e acompanha as
constantes críticas ao Mundial deste ano, possui uma visão diferenciada a respeito
de toda essa discussão política e social: “Em 70 eu tinha acabado de sair de
uma Escola Militar. A alegria de ver uma seleção campeã me contagiou bastante,
inclusive contribuiu para que eu pensasse e pudesse ter uma luz dentro do mundo
escuro que o regime militar me oferecia. Futebol é futebol e política é
política. Acho que as coisas não se confundem. Agora, justo com essas
manifestações e tudo mais, na hora que a seleção entrar em campo tudo será
esquecido, porque a emoção do futebol é uma coisa muito forte. Assim como foi
em 70 pra mim acho que será agora para muitos jovens”.
Seja no ano que for, sendo disputada em
solo verde e amarelo ou não, é fato que o futebol e o Mundial da FIFA sempre
trará muitas lembranças e discussões entre os brasileiros, que já deixaram suas
marcas ao longo de todas as edições que partiparam e ainda participarão. Se na
época do governo Médici um dos slogans era “Brasil: ame-o ou deixe-o”, no
futebol até hoje não é muito diferente. Já que gostando ou não ela fará parte da
vida de cada brasileiro.
A TV
BRASILEIRA
NO
REGIME MILITAR DE 70
A
consolidação da TV como instrumento de comunicação em massa
O ano de 1970 é iniciado com a inauguração da TV
Gazeta, em São Paulo, que inseriu importantes conceitos na difusão da comunicação
em massa no Brasil. A propagação das culturas feminista e hippie impulsionavam
a todo vapor a liberdade sexual, sobretudo com o a difusão dos métodos
contraceptivos. Isto se refletiu diretamente na programação da TV, fazendo com
que surgissem diversos programas voltados para o público feminino na época,
como “Vida em Movimento”, apresentado pela atriz Vida Alves, e “Clarice Amaral
em Desfile”, introduzindo a temática de programas femininos diários na TV
aberta. Ditando modas e tendências de maneira bem próxima do que se vê até
hoje.
Outro aspecto importante da época foi o
aparecimento da produção independente, a partir de uma iniciativa introduzida
pela TV Gazeta. Por se tratar de uma emissora independente e multicultural pelo
fato de exibir numa grade programas das mais diversas culturas e gêneros como,
por exemplo, “Mosaico na TV” (da comunidade judaica), “Árabe na TV”, “Imagens
do Japão”, “Todos Cantam Sua Terra” (da comunidade portuguesa) e “De Paula
Esportes” (de futebol amador), o sistema de comunicação ganhou, a partir daí,
um novo olhar sobre as produções que viriam surgir no decorrer da década de 70.
Em junho de 1970, as redes de televisão do país
transmitiam em conjunto a Copa do Mundo no México, ainda em preto e branco.
Desse "pool", comandado pelo governo federal, ficam de fora apenas as
emissoras pertencentes à Rede Excelsior, cujo nome era mal visto pela Ditadura
Militar. Tal fato, somado ao grande endividamento da emissora, acarretaria,
pouco tempo depois, no encerramento das suas atividades.
O jogo entre Brasil e Itália, na final da Copa do
Mundo, foi o primeiro evento com transmissão direta em cores. O teste
interestadual feito com o sistema a cores foi realizado no padrão alemão PAL
com ajustes brasileiros (PAL-M). A imagem colorida era enviada a receptores
instalados no Rio, em São Paulo e Brasília e o resultado da experiência pode
ser acompanhado por poucos. O presidente Médici, por exemplo, foi uma das
poucas pessoas que acompanharam a transmissão colorida do jogo entre Brasil e
Inglaterra pelo televisor, além de alguns funcionários da então responsável
pela transmissão no Rio de Janeiro - a Embratel. Mais tarde, em 1971, o
aparecimento da TV em cores propulsionaria na criação de uma lei determinando o
corte da concessão das emissoras que não transmitissem uma porcentagem mínima
de programas em cores. O sistema oficial passou a ser o PAL-M, que era uma
mistura do padrão M do sistema NTSC e das cores do sistema PAL Europeu. O
objetivo era criar uma indústria totalmente nacional, com seu sistema próprio.
Um ano depois, com a regulamentação do sistema PAL-M no Brasil, ocorreu oficialmente
a primeira transmissão em cores no Brasil, a partir de Caxias do Sul, RS,
por ocasião da Festa da Uva.
Enquanto o Brasil conquistava o tricampeonato de
futebol na Copa do Mundo do México e presos políticos eram torturados pelo
regime militar, Janete Clair se
consagrava como novelista com um faroeste que fazia uma analogia entre a
realidade política do país e o poder arbitrário de um coronel na cidade
fictícia de Coroado, localizada na divisa de Minas Gerais com Goiás, e cuja
principal atividade econômica era o garimpo. A intenção da Globo era trazer o
público masculino para assistir novelas, porque em 1970 a mentalidade que ainda
imperava era de que novela era exclusivamente para mulheres. Apelando para a
criação de personagens-chave, como o jogador de futebol interpretado pelo ator
Cláudio Marzo, esse conceito foi abolido totalmente e “Irmãos Coragem”, que
acabou sendo o primeiro sucesso em âmbito nacional da Rede Globo.
Essa década também ficaria marcada pelo
crescimento dos anunciantes, que passaram a comprar cada vez mais espaços na
programação, deixando de apenas patrocinarem um programa como um todo, como o
caso do famoso “Repórter Esso”, por exemplo, que continha em seu próprio nome a
marca de seu principal patrocinador.
A TV cada vez mais ganhava notoriedade e força
entre os brasileiros, servindo gradualmente como veículo não só de entretenimento
e informação, mas principalmente como meio do governo ditatorial de propagar
suas ideias, formando uma sociedade cada vez mais segundo seus próprios
interesses político-militares. Uma política de crédito facilitadora na
aquisição de aparelhos televisores para a população e diversos incentivos
estatais relacionados às taxas dos serviços de telecomunicação faziam parte da
estratégia do governo para disseminar suas respectivas ideologias para a grande
massa.
A televisão, principalmente após a implantação do
AI-5, em 1968, tornou-se porta-voz do regime ditatorial. A ideologia da
segurança nacional para conter o chamado “perigo vermelho” - qualquer
manifestação de caráter comunista - e o desenvolvimento do país eram temas
frequentes. Todas as obras de grande visibilidade, como a Ponte Rio-Niterói e a
Transamazônica, por exemplo, eram feitos anunciados em TV aberta pelo governo.
Os horários-nobres eram sempre os momentos de difusão dos atos do Estado e do
que se objetivava fazer.
Estratégias segmentadas pela forte censura
controlavam o que devia ou não ser disponibilizado ao público, partindo do
suposto princípio de que tudo estava sendo feito para o bem dos cidadãos
brasileiros, enquanto se ocultava a brutalidade a qual eram tratados os
indivíduos tidos como opositores do regime militar. A TV se consolidou e se mantém
forte até hoje, período em que vem se readaptando com a mídias cada vez menos
analógicas e mais digitais, através do desenvolvimento tecnológico e midiático
guiado pela internet, seja em computadores, smartphones, tablets ou até mesmo
“smartTVs”.
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