Futebol e Samba no Escuro
Uma comparação
entre as seleções nacionais e os momentos históricos vividos no Brasil da Copa
de 1970 e 2014
Lucas Freitas
"Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração. Todos
juntos vamos pra frente Brasil, salve a Seleção. De repente é aquela corrente
pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos ligados na mesma emoção,
tudo é um só coração", diz a canção "Pra Frente Brasil", tema da
Copa do Mundo de 70, realizada em uma dos períodos de auge da repressão da
Ditadura Militar brasileira. Composta pelo jornalista e compositor Miguel
Gustavo, a música foi feita para inspirar os jogadores do time canarinho, que
contava com craques como: Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gérson, Clodoaldo,
Paulo Cesar "Caju" e Félix. Para emplacar a marchinha, Miguel Gustavo
vencera um concurso organizado pelos patrocinadores do evento, levando a
premiação de dez mil cruzeiros.
Seleção de 1970.
Era a primeira transmissão de uma Copa ao vivo e a cores e a canção
tornou-se um hino ufanista para os brasileiros que viram a equipe comandada por
Pelé conquistar o tricampeonato mundial no México. No entanto, enquanto a
Seleção brilhava nos pés de Jairzinho e o povo em massa gritava "Pra
frente Brasil", dentro dos estádios, nas ruas e praças o clima era tenso e
o cerco fechado. Com a implantação de 17 atos inconstitucionais, a música era
uma extensão da política autoritária do "Ame ou deixo-o". Nas prisões,
salas de tortura e redação de jornais, o presente era mais negro do que branco.
A realidade era bem menos colorida do que se pintava nas transmissões de TV do
mundial. Em 1970, Chico Buarque lançava a música "Apesar de
você", que dizia: "Você que inventou esse estado, inventou de
inventar toda a escuridão. Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar
o perdão". Em outro trecho: Quando chegar o momento, esse meu sofrimento,
vou cobrar com juros, juro. Todo esse amor reprimido, esse grito contido, este
samba no escuro", referindo-se ao regime.

Propaganda da
Ditadura Militar.
Em 16 de janeiro de 1970, Mário Alves,
um dos fundadores do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), é
preso, no Rio, e morto sob tortura. Em 26 de janeiro de 1970, o decreto-lei 1.077 instituía a censura prévia a espetáculos e
publicações. Em 30 de outubro 1970, Agentes do Doi-Codi invadem a redação
de "O Pasquim" e prendem Ziraldo e outros colaboradores. O hino
criado por Miguel Gustavo era a trilha sonora perfeita para uma Copa que deixou
um grande legado para o esporte, mas também serviu para alienar a população e
dar a falsa sensação que o brasil andava para frente. Após a conquista, o
presidente Emílio Médici levantava a taça e aparecia em fotos de revistas e
jornais com a bandeira verde e amarela nas mãos, atribuindo ao governo em vigor
o mérito do título.

Médici levanta a taça.
Quatro décadas se
passaram.
No ano que marca os 50 anos do Golpe
Militar, a Copa do Mundo volta a ser realizada no Brasil, entre protestos e
revolta de classes trabalhadoras. Nos campos, a atual seleção brasileira nem de
longe lembra o brilho da equipe campeã em 1970, que ficou marcada como uma das
melhores da história e possuía craques incontestáveis em todas as posições.
Porém fora dos gramados, entre bombas de gás lacrimogênio e a o som do avanço
da tropa de choque da Policia Militar sobre os manifestantes, há muitas
semelhanças. Desde a metade do ano passado, centenas de pessoas vãos às ruas
para protestar contra os custos das obras para a realização do evento enquanto
hospitais e escola públicas continuam decadentes. Desta vez, o desempenho da
seleção em campo poderá amenizar a revolta popular em relação ao evento, ou
então piorar a situação. Há política em campo.
Um ano antes da Copa do Mundo de 1970,
o "Jornal Nacional", da Globo, era transmitido pela primeira vez. Em
acordo com a Ditadura Militar, o programa veiculado para todo o território
nacional era peça fundamental para a propagação do Brasil irreal e ufanista que
o regime queria mostrar. Quase quatro décadas e meio depois, o novo tema
oficial da Copa, "Somos um só" (também promovida pelos patrocinadores
do evento), é propagado pelos veículos de mídia, entre uma notícia e outra.
Cantada por artistas populares como Claudia Leitte e Luan Santana, o novo hino
ufanista diz: "E a galera veste a camisa amarela. E Entra em campo pra
jogar junto na fé. Um drible, uma esticada, toque em toque até a rede. Chegou a
hora, agora somos um só. É nossa escola de super, superação. Vai que dá
Brasil, hexacampeão". Para quem assiste de fora, dá até a impressão de que
o povo está entusiasmado e apoia o evento acima de qualquer crítica.
Entre "Pra frente Brasil" e "Somos um Só"
(coordenada).
Nascida dem 1950, a arquiteta Ana Claudia Fonyat era uma jovem engajada
em movimentos políticos estudantis durante a realização da Copa de 70. Caçula
de três irmãos mais velhos e torcedora fanática do Fluminense, ela conta como
surgiu o seu gosto pela política e futebol. "Enquanto as meninas estavam
aprendendo a se comportar como mocinha, todas as brincadeiras que eu tinha
dentro de casa eram com os meus irmãos homens. A gente jogava futebol na sala,
ia para o maracanã com meu pai. Achava o futebol muito divertido e os jogos do
Fluminense mobilizam nossa família, não tinha como ser diferente", disse.
O seu interessa político nasceu mais tardiamente. "Quando entrei na
faculdade de arquitetura comecei a frequentar discussões e me interessar por
política. Nós jovens éramos mais unidos e até para interagir e me interar no
grupo eu tinha que estar por dentro do que acontecia", relatou.
Para Ana Claudia, o espetáculo proporcionado pelos jogadores em campo e
a situação política do país provocava um sentimento complexo para as pessoas
que eram fãs do esporte eram mesmo tempo conscientes politicamente. “Havia
muita gente alienada politicamente que não estava nem aí para o que acontecia e
embarcava naquela histeria provocada pelos jogos. Para nós que protestávamos,
era um sentimento muito paradoxal. Estava convicta a torcer contra porque sabia
que aquilo iria servir de promoção para o governo militar. Mas eu não conseguia
deixar de me envolver na magia daquela seleção, não conseguia deixar de
comemorar os gols", afirmou. Ela vê semelhanças entre o atual panorama e
da época. "Assim como naquele tempo, acho que há esse sentimento
conflituoso. O povo ama a seleção e quer torcer. Mas ao mesmo tempo todo mundo
está revoltado com os absurdos que estão acontecendo no país. Não é fácil
separar o evento como um simples torneio de esporte ou um acontecimento
político e social. Mas se o Neymar fizer gol, eu vou comemorar", garantiu.
O advogado Jose Ricardo Freitas, de 54 anos, tinha apenas 10 anos em
1970. Embora ainda não tivesse formado sua consciência política, ele relata que
conseguia perceber que havia algo estranho por trás de toda aquela euforia.
"Eu lembro de torcer e vibrar muito com a seleção com a minha família e
meus amigos. Mas outra coisa que me recorda era que eu sentia um clima de
tensão, mesmo sem saber direito o que era aquilo. Ouvia as conversas dos meus
pais dentro de casa, discussões nas ruas, e sabia que havia algo muito sério
acontecendo. Me dava um certo medo", disse. Ele também comparou as duas
épocas. "Era muito pior. Embora haja muita coisa errada, a mídia tem muito
mais liberdade para noticiar o que acontece nas ruas. Não abrimos o jornal e
vemos só notícias sobre as maravilhas da Copa, mas lemos muitas manchetes sobre
essa insatisfação popular. É claro que o povo vai torcer, mas podemos nos
aproveitar que estão todos nos olhando para dizer 'basta' de uma forma bem
eloquente", afirma.
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