terça-feira, 3 de junho de 2014


Futebol e Samba no Escuro

 

Uma comparação entre as seleções nacionais e os momentos históricos vividos no Brasil da Copa de 1970 e 2014
 
Lucas Freitas

 

 

"Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração. Todos juntos vamos pra frente Brasil, salve a Seleção. De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão. Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração", diz a canção "Pra Frente Brasil", tema da Copa do Mundo de 70, realizada em uma dos períodos de auge da repressão da Ditadura Militar brasileira. Composta pelo jornalista e compositor Miguel Gustavo, a música foi feita para inspirar os jogadores do time canarinho, que contava com craques como: Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gérson, Clodoaldo, Paulo Cesar "Caju" e Félix. Para emplacar a marchinha, Miguel Gustavo vencera um concurso organizado pelos patrocinadores do evento, levando a premiação de dez mil cruzeiros.

 


Seleção de 1970.

 

Era a primeira transmissão de uma Copa ao vivo e a cores e a canção tornou-se um hino ufanista para os brasileiros que viram a equipe comandada por Pelé conquistar o tricampeonato mundial no México. No entanto, enquanto a Seleção brilhava nos pés de Jairzinho e o povo em massa gritava "Pra frente Brasil", dentro dos estádios, nas ruas e praças o clima era tenso e o cerco fechado. Com a implantação de 17 atos inconstitucionais, a música era uma extensão da política autoritária do "Ame ou deixo-o". Nas prisões, salas de tortura e redação de jornais, o presente era mais negro do que branco. A realidade era bem menos colorida do que se pintava nas transmissões de TV do mundial.  Em 1970, Chico Buarque lançava a música "Apesar de você", que dizia: "Você que inventou esse estado, inventou de inventar toda a escuridão. Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão". Em outro trecho: Quando chegar o momento, esse meu sofrimento, vou cobrar com juros, juro. Todo esse amor reprimido, esse grito contido, este samba no escuro", referindo-se ao regime.

 


Propaganda da Ditadura Militar.

 

Em 16 de janeiro de 1970, Mário Alves, um dos fundadores do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), é preso, no Rio, e morto sob tortura. Em 26 de janeiro de 1970, o decreto-lei 1.077 instituía a censura prévia a espetáculos e publicações. Em 30 de outubro 1970, Agentes do Doi-Codi invadem a redação de "O Pasquim" e prendem Ziraldo e outros colaboradores. O hino criado por Miguel Gustavo era a trilha sonora perfeita para uma Copa que deixou um grande legado para o esporte, mas também serviu para alienar a população e dar a falsa sensação que o brasil andava para frente. Após a conquista, o presidente Emílio Médici levantava a taça e aparecia em fotos de revistas e jornais com a bandeira verde e amarela nas mãos, atribuindo ao governo em vigor o mérito do título.

 


Médici levanta a taça.

 

Quatro décadas se passaram.

 

No ano que marca os 50 anos do Golpe Militar, a Copa do Mundo volta a ser realizada no Brasil, entre protestos e revolta de classes trabalhadoras. Nos campos, a atual seleção brasileira nem de longe lembra o brilho da equipe campeã em 1970, que ficou marcada como uma das melhores da história e possuía craques incontestáveis em todas as posições. Porém fora dos gramados, entre bombas de gás lacrimogênio e a o som do avanço da tropa de choque da Policia Militar sobre os manifestantes, há muitas semelhanças. Desde a metade do ano passado, centenas de pessoas vãos às ruas para protestar contra os custos das obras para a realização do evento enquanto hospitais e escola públicas continuam decadentes. Desta vez, o desempenho da seleção em campo poderá amenizar a revolta popular em relação ao evento, ou então piorar a situação. Há política em campo.

 

Um ano antes da Copa do Mundo de 1970, o "Jornal Nacional", da Globo, era transmitido pela primeira vez. Em acordo com a Ditadura Militar, o programa veiculado para todo o território nacional era peça fundamental para a propagação do Brasil irreal e ufanista que o regime queria mostrar. Quase quatro décadas e meio depois, o novo tema oficial da Copa, "Somos um só" (também promovida pelos patrocinadores do evento), é propagado pelos veículos de mídia, entre uma notícia e outra. Cantada por artistas populares como Claudia Leitte e Luan Santana, o novo hino ufanista diz: "E a galera veste a camisa amarela. E Entra em campo pra jogar junto na fé. Um drible, uma esticada, toque em toque até a rede. Chegou a hora, agora somos um só. É nossa escola de super, superação. Vai que dá Brasil, hexacampeão". Para quem assiste de fora, dá até a impressão de que o povo está entusiasmado e apoia o evento acima de qualquer crítica.

 

 

Entre "Pra frente Brasil" e "Somos um Só" (coordenada).

 

Nascida dem 1950, a arquiteta Ana Claudia Fonyat era uma jovem engajada em movimentos políticos estudantis durante a realização da Copa de 70. Caçula de três irmãos mais velhos e torcedora fanática do Fluminense, ela conta como surgiu o seu gosto pela política e futebol. "Enquanto as meninas estavam aprendendo a se comportar como mocinha, todas as brincadeiras que eu tinha dentro de casa eram com os meus irmãos homens. A gente jogava futebol na sala, ia para o maracanã com meu pai. Achava o futebol muito divertido e os jogos do Fluminense mobilizam nossa família, não tinha como ser diferente", disse.  O seu interessa político nasceu mais tardiamente. "Quando entrei na faculdade de arquitetura comecei a frequentar discussões e me interessar por política. Nós jovens éramos mais unidos e até para interagir e me interar no grupo eu tinha que estar por dentro do que acontecia", relatou.

 

Para Ana Claudia, o espetáculo proporcionado pelos jogadores em campo e a situação política do país provocava um sentimento complexo para as pessoas que eram fãs do esporte eram mesmo tempo conscientes politicamente. “Havia muita gente alienada politicamente que não estava nem aí para o que acontecia e embarcava naquela histeria provocada pelos jogos. Para nós que protestávamos, era um sentimento muito paradoxal. Estava convicta a torcer contra porque sabia que aquilo iria servir de promoção para o governo militar. Mas eu não conseguia deixar de me envolver na magia daquela seleção, não conseguia deixar de comemorar os gols", afirmou. Ela vê semelhanças entre o atual panorama e da época. "Assim como naquele tempo, acho que há esse sentimento conflituoso. O povo ama a seleção e quer torcer. Mas ao mesmo tempo todo mundo está revoltado com os absurdos que estão acontecendo no país. Não é fácil separar o evento como um simples torneio de esporte ou um acontecimento político e social. Mas se o Neymar fizer gol, eu vou comemorar", garantiu.

 

O advogado Jose Ricardo Freitas, de 54 anos, tinha apenas 10 anos em 1970. Embora ainda não tivesse formado sua consciência política, ele relata que conseguia perceber que havia algo estranho por trás de toda aquela euforia. "Eu lembro de torcer e vibrar muito com a seleção com a minha família e meus amigos. Mas outra coisa que me recorda era que eu sentia um clima de tensão, mesmo sem saber direito o que era aquilo. Ouvia as conversas dos meus pais dentro de casa, discussões nas ruas, e sabia que havia algo muito sério acontecendo. Me dava um certo medo", disse. Ele também comparou as duas épocas. "Era muito pior. Embora haja muita coisa errada, a mídia tem muito mais liberdade para noticiar o que acontece nas ruas. Não abrimos o jornal e vemos só notícias sobre as maravilhas da Copa, mas lemos muitas manchetes sobre essa insatisfação popular. É claro que o povo vai torcer, mas podemos nos aproveitar que estão todos nos olhando para dizer 'basta' de uma forma bem eloquente", afirma.

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