terça-feira, 3 de junho de 2014


A PISADA NA BOLA DO GOVERNO

BRASILEIRO EM COPAS DO MUNDO

A ditadura da copa democrática e a liberdade do mundial na ditadura
Ludmilla Pimentel

                A Copa do Mundo retorna ao Brasil e, assim como foi feito 64 anos atrás, o país ainda está atrasado na organização do mundial de futebol. O mês de junho inicia com muitas obras inacabadas e a estimativa é que pelo menos metade não fique pronta até 12 de junho. Entre elas, as atenções se voltam agora para o estádio de abertura do evento, a Arena Corinthians, em São Paulo, que ainda passa por testes finais faltando menos de dez dias para começar o campeonato. Entretanto, apesar das comparações com a última vez que o país foi sede do mundial, outra edição do evento desfruta de um grande número de coincidências com a Copa de 2014.

                O “Mundial dos Sonhos” de 1970, realizado no México, garantiu ao Brasil o tricampeonato. Enquanto isso, o país estava sob o regime militar do General Médici, no período correspondente ao auge da ditadura militar. E, assim como podemos ver hoje, em meio a conflitos e reivindicações contra o governo a Copa se estabeleceu entre fãs e abolicionistas.

                O economista carioca Hilton José Simões, 68 anos, sempre foi um amante de futebol. Botafoguense roxo desde pequeno, Hilton aproveita qualquer tempo livre para jogar uma “pelada” com os amigos até hoje e naquele tempo não era diferente. Em 70, ele aproveitou o campeonato no auge dos seus 24 anos com os amigos da faculdade.

                - Gostava de reunir amigos na minha casa para um churrasco nos dias de jogo. Morava na Vila Militar do Caju, junto com os meus pais. Lembro que meu pai tinha comprado uma televisão em cores só para assistir aos jogos da Copa e os amigos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) que ainda não tinham sempre apareciam por lá. – relembra.

                Ao ser questionado sobre uma possível repressão as comemorações da Copa em meio a ditadura, Hilton nega de prontidão. Mesmo morando praticamente dentro do quartel, ele diz que o incentivo a comemoração pelo governo e pelos militares era muito grande.

                - Bastava sair o resultado da vitória que íamos todos para a rua beber e comemorar atrás dos blocos, assim como era no carnaval. Todo mundo de verde, amarelo e azul. Na comemoração do título a festa virou a noite. Fiz alguns amigos que jamais voltei a ver. – Conta em tom eufórico e em meio a sorrisos de canto de boca.

                O engenheiro Carlos Nascimento, 54 anos, tinha apenas dez anos na época do campeonato. Porém, existem duas lembranças que ele lembra de cor: A seleção brasileira titular de 1970 e os versos da música “Pra Frente Brasil” do grupo Os Incríveis.

                - “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração!” – cantarola. – Virou um hino nacional, todo mundo sabia. Homens ou mulheres. Velhos ou jovens. Eu era garoto, mas não me recordo de nenhuma outra música hoje em dia que chegue perto deste fenômeno – afirma.

Mas mesmo com a diferença de idade, ambos os torcedores confirmam que a na opinião deles a seleção que ganhou a disputa no México foi a melhor que o Brasil apresentou até hoje. E defendem que o jovem Neymar terá que suar muito a camisa para chegar aos pés de Pelé, Jairzinho, Tostão ou Rivellino.

 

 

 


Figurinha Pelé no álbum de 1970
 
 

PROTESTOS DE HASHTAGS

A elite brasileira procurava se afastar das comemorações futebolísticas na Copa de 1970 por enxergar a valorização do evento, pelo governo, como uma distração dos reais problemas que reivindicavam. Por outro lado, a população estava entregue a propaganda política da época que valorizava o primeiro tricampeão da Copa do Mundo e a primeira vez que os jogos foram transmitidos em cores pela televisão. Sendo assim, foi criada uma forma positiva de ver o mundial de futebol em meio aos anos de chumbo.

Hoje, o descontentamento com a Copa aparenta ser muito maior do que no período de ditadura. Desde os protestos em junho do ano passado, cerca de um ano atrás, que a população brasileira busca uma mobilização popular questionando a Copa do Mundo e o padrão Fifa. Isto porque o padrão de qualidade exigido pela instituição está longe de ser o apresentado na entrega das obras nas cidades sede.

O professor de Comunicação Social da PUC-Rio e consultor esportivo Luiz Francisco Ferreira Leo, defende em artigo publicado no seu blog pessoal que a Copa de 2014 é apenas um reflexo do que somos como nação. “O mundo descobrirá um país com péssima infraestrutura, inseguro, violento e profundamente desorganizado. Além de desunido como nunca”, defende o professor em sua argumentação.

O que era para ser uma agradável experiência e contava com grandes expectativas do público no dia em que o Brasil foi anunciado sede da Copa sete anos atrás, sumiu nesses últimos meses. Agora, através das novas mídias e principalmente da internet, jovens cidadãos estabeleceram um confronto de ideias que tem tomado cada vez mais o espaço das redes sociais. Afim de questionar e provocar o governo, o movimento “#NãoVaiTerCopa” dominou a rede e chegou a lançar vídeos e fotos denunciando a desordem do governo brasileiro para receber o evento.

A estudante de direito Jullia Arantes, 25 anos, apoia o movimento e diz que é preciso deixar “o gigante acordado” para que ele não durma nas eleições no final do ano.

-   Este é o momento em que a juventude está convocada a se posicionar sobre o assunto. Enquanto alguns vão curtir a Copa no dia 12, outros estarão tentando expor sua opinião em busca de uma chance para mudar o Brasil. Deveríamos protestar até que todos entendam que o padrão Fifa não vai melhorara a saúde para ninguém – comenta.

Do outro lado da linha de choque, um grupo visto como otimista apoia o movimento “#VaiTerCopaSim”. Eles alegam que apesar de todos os problemas e trapalhadas que o governo criou no meio do caminho, nada nos impede de aproveitar o evento. E ainda aproveitam para alfinetar o outro movimento através de um questionamento simples levantado pelo jornalista Rica Perrone em um artigo publicado em seu site pessoal: “A Copa, vilã de muita gente, é como uma ponte superfaturada. Você não deixa de usar a ponte pra ir trabalhar, deixa?”.

O estudante de Design Yan Nogueira, 22 anos, confessa que nas últimas semanas deixou de acessar as redes sociais com frequência porque não aguenta mais ver os embates online.

- Acho que assim como as manifestações do ano passado, os movimentos que usavam as hashtags para divulgar suas propostas caíram na banalização. Tudo agora parece uma grande disputa de ego entre os usuários para comprovar quem é o mais engajado – analisa o estudante.

O artigo de Rica, entitulado “Odeie a Copa” ainda questiona exatamente esta vontade de oprimir um pensamento e privilegiar outro determinando o que apenas uma destas vertentes de pensamento esteja correta. Com isso, o torcedor que sonhou anos em receber a copa novamente no país acaba não sabendo como se portar na frente do outro.

 

 

COLEÇÃO: A COPA NO

PAÍS DAS FIGURINHAS



Álbuns da Panini da Copas de 1970 e 2014
 
                Poucos dias antes do início da Copa, uma paixão que movimentou a economia mundial no último mês começa a avistar o fim. Ou melhor, ser completada. A velha tradição de colecionar figurinhas se tornou ainda mais intensa no país com o retorno da Copa do Brasil. Uma brincadeira que promove, em muitos casos, um momento de lazer com os pequenos torcedores. Mas para alguns, este é o momento em que se deve dar continuidade a uma tradição de família.

                A partir de 1970, os álbuns de figurinha viraram um produto oficial da Fifa. Desde então, o produto não deixou mais de fazer parte do mundial. O economista Hilton se orgulha de ter conseguido completar o álbum que iniciou este hábito entre os torcedores. Ele confessa que para ele o mundial não começa no primeiro dia de jogo, mas quando começam a vender os álbuns.

                - Nas duas primeiras edições dos álbuns, as figurinhas eram de papel. Então, não eram tão bonitas quanto as de hoje. Se a gente completasse o álbum e levasse até a editora, eles trocavam por um em que todas as imagens já estavam impressas que era bem mais bonito – conta.

                As conquistas de Hilton hoje não ficam mais com ele. É que a coleção mudou de dono e a tradição de montar o álbum passou a ser do filho mais velho de Hilton, o jornalista Diogo Simões, 35 anos. Colecionar o álbum de 2014 teve um gostinho diferente para Diogo. Desta vez, ele contou com a ajuda do filho Eric, 3 anos, para completar a missão.

                - Por ele ser muito pequeno ainda, confesso que usava o Eric mais como uma desculpa para ir aos pontos de troca e completar com ele. Mas não sou o único pai a fazer isso. Formamos um grupo grande de trocas pais e filhos na banca aqui perto de casa aos domingos de manhã – disse ele aos risos.

                As figurinhas e os álbuns de 2014 estão sendo produzidos na fábrica da empresa italiana Panini no Brasil, em Barueri, na Grande São Paulo. O Brasil, entre os 120 países que também receberam a primeira edição dos álbuns, possui 8,5 milhões de em circulação segundo a empresa, mas o número de livros ou cromos foram vendidos até hoje não é revelado. O livro ilustrado chega ao mercado este ano com um custo 51,3% maior para os fãs dos cromos segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE).

                No Brasil, cada envelope com cinco figurinhas custa R$1,00. Para completar o álbum, o consumidor precisa reunir 640 figurinhas distintas.  Sendo assim, o valor a ser desembolsado pelo colecionador, no mínimo, será de R$135,90 e, dependendo da repetição das figurinhas, pode ultrapassar R$300,00 fácil, movimentando a economia ao redor dos produtos oficias da Copa.

Porém, há no álbum deste ano nove cromos que deixaram os colecionadores irritados e, aparentemente, estes são bem mais fáceis de achar que a imagem do craque brasileiro dono da camisa dez desta seleção, Neymar. Se tratam de cromos publicitários, completamente desnecessários ao álbum que existem par a divulgar os patrocinadores. A publicitária Giovanna Laranjeiras, 26 anos, defende que a ação de fato é uma boa divulgação para as empresas, mas que ela mesma não vai colar as imagens em seu álbum.

- Não precisava disso e toda vez que acho uma figurinha desta fico frustrada de não estar conseguindo uma que eu realmente preciso. Nem coloco no meu “bolinho” de repetidas para trocar com alguém, ninguém fica por ai procurando estas – explica.

Segundo o diretor-presidente da Panini, José Eduardo Severo Martins, esse tipo de figurinha não é uma exclusividade do livro ilustrado brasileiro. As empresas patrocinadoras da Copa do Mundo têm a opção de fazer apoio institucional em qualquer produto licenciado pela Fifa.

                Mas nem só de trocas justas se movimenta o mercado das figurinhas. De acordo com a demanda do mercado por certos cromos classificados como “mais difíceis de achar” para completar o álbum, a imagem que custa R$ 0,20 pode chegar a ser comercializada em mercados de troca por até R$ 5,00 ou mais. Hilton se orgulha de nunca ter precisado optar por isso.

                - A graça de completar o álbum é o processo de trocas, a expectativa de conseguir ou não. Depois disto ele só vira recordação – compartilha o economista.

                Diogo já possui uma teoria diferente, nas últimas duas edições do livro ilustrado reparou que a primeira seleção que completava no álbum ganhava a copa. Ou seja, a Alemanha em 2006 e a Espanha em 2010. Desta vez, ele até arrisca um palpite.

                - Completei primeiro a seleção italiana. Será que ganha? Desta vez até queria comprovar que a teoria está errada – brinca.

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