Passado e futuro andam juntos
e o Rio de Janeiro que o diga
Cada época uma história, mas ela sempre se
repete. O que move o Brasil?
Como diz a música criada após a vitória
brasileira de 1958, “a taça do Mundo é nossa”. Em 2014 ainda não há certeza da
taça, mas a Copa, de certa maneira, dessa vez é mesmo. Depois de muito tempo, o
evento mais esperado pelo planeta chegou ao Brasil. O país do futebol também
representa desenvolvimento e a música tema de 1970, “todos juntos vamos pra
frente Brasil, salve a seleção”, é a prova disso. E é esse esporte que até hoje
contribui para manter a união, a alegria
e o orgulho do povo brasileiro.
Contexto de 70
Tudo começou em 1958, quando o Brasil
conseguiu o seu primeiro título mundial no México. Depois disso, também ganhou
a Copa de 1962 no Chile e o próximo título só seria conquistado em 1970. Dessa
vez, era ditadura... o auge dela com o governo Médici. A seleção foi incrível
neste ano, não só pelo desempenho no jogo, mas por tudo que acontecia na época.
Os brasileiros sempre tiveram a
característica de povo alegre e otimista, mas nos anos de chumbo esse brilho
estava apagado. A falta de liberdade de expressão imposta pelo regime mudou a
atitude de todos. A sociedade do Brasil, ao mesmo tempo que queria torcer pelo
país, lembrava logo do situação que estavam vivendo. E isso impedia a
demonstração da euforia de cada um, porque a razão era logo acionada.
Autoconfiança demais
De acordo com o jornalista João Máximo, 1966
foi a pior campanha da seleção desde 1934. Isso aconteceu porque todos já se
alimentavam da certeza de que o Brasil ganharia de novo na Inglaterra e por
isso não houve a preocupação necessária
com treinos e investimentos.
O futebol, sempre foi a distração e
diversão do povo. O fracasso da Copa de 66 fez com que todos ficassem
desacreditados, não só no esporte, mas também pelo quadro político e econômico
que já os cercava. Desse modo, passou-se a torcer contra a seleção porque
apoiar era, de certa forma, compactuar com o sistema. Mas Máximo lembra que aos
poucos essa rejeição no âmbito do futebol foi sendo deixada de lado, porque não
havia como ignorar o brilhantismo do time nesse campeonato.
O jornalista Chico Otávio, relata que seu
amigo, o também jornalista e guerrilheiro na época, Cid Benjamin, estava preso
durante a Copa de 70. Ele havia
combinado com os colegas de cela que iriam fazer uma corrente de energia
negativa contra a seleção brasileira. “Mas no momento em que o Tostão tocou
para o Pelé que tocou para o Gérson, eles não se aguentaram e começaram a
gritar - vamos lá Brasil! –“.
Depois da tempestade
Máximo disse também, em uma palestra sobre
o futebol na ditadura, que João Saldanha era comunista mas mesmo assim foi
convocado para ser técnico da seleção para o campeonato de 70. Ele conta que
João era autêntico, que escalou a seleção da sua maneira e deixou de fora um
dos jogadores que o regime indicou. Daí surgiu a famosa frase dele: “Eu não
escalo o seu Ministério, e o senhor não vai escalar meu time”. Na véspera da
Copa, alguns acontecimentos como esse, por exemplo, levaram à demissão do
técnico e sua substituição por Zagalo. Foi nessa competição que se formou a
seleção considerada a mais completa até hoje e lembrada com saudosismo por
todos os entrevistados. Mesmo com conturbações, o time foi muito bem sucedido e
o tri acabava de entrar para a lista. O nacionalismo voltou ao
coração dos cidadãos. Médici sabia que o sucesso no mundial significava a potencialização
do governo e o caminho para acalmar os ânimos e as revoltas da população. Dito
e feito.
Contexto de 2014
Tudo começou em 2007 quando o
Brasil ganhou a candidatura para sediar a Copa. E assim seguiram-se os anos. Em
2013, um ano antes da Copa do Mundo, um cenário não muito agradável aos olhos
do governo se instaurou. A indignação e cansaço popular com a corrupção,
escândalos envolvendo políticos e os gastos públicos exorbitantes, vieram à
tona e inúmeras manifestações de grandes proporções eclodiram nas principais
cidades do Brasil. Nas ruas tomadas pelos manifestantes, se ouvia com
frequência os gritos de “não vai ter Copa”. Depois de alguns meses, os
protestos tomaram caminhos diferentes por conta de pequenos grupos. Incidentes
e casos de violência fizeram com que a participação popular perdesse força. Os
ânimos se acalmaram um pouco, mas a partir desses movimentos, a mentalidade
nunca mais foi a mesma.
A maior manifestação de 2013, que
partiu da Candelária.
Cenário atual
Um ano se passou e estamos há alguns dias
do início do mundial. Hoje somos uma democracia e o país continua em
desenvolvimento. Mas analisando os acontecimentos do passado e a
responsabilidade que o país adquiriu em sediar a Copa, o ritmo é mais lento do
que deveria. De acordo com pesquisas, 30% das obras de infraestrutura e reparos
ainda não está concluída. A própria Fifa, pela primeira vez na história, teve a
necessidade de intervir no processo de preparação do país sede.
Percebemos
que, diferente de todas as outras Copas do Mundo, em 2014 a seleção já não tem
o favoritismo de outrora. E nem o povo brasileiro está em festa como costumava
ficar. O Brasil vive outro período de descontentamento e pressão popular. E
mais uma vez a história se repete. Claro que há mais pessoas a favor da Copa do
que em 1970, mas mesmo assim muita coisa mudou. Antes, o país inteiro parava.
De crianças a idosos, vestia-se a camisa verde e amarela com orgulho. 2013 foi
um ano impactante e de aprendizados. Agora, a população está dividida novamente. O “pé atrás” está
presente em todas as esferas, principalmente no futebol.
E agora?
Depois das manifestações que ocorreram no
ano passado, parece que as pessoas entenderam um pouco mais o sistema em que o
país vive. Corrupção, uso indevido de dinheiro público para construção de
estádios, por exemplo, apontam essa realidade. Ainda não sabemos o que esperar.
Mas no final veremos se o caso do Cid Benjamin representa uma eterna realidade
brasileira, ou se a população realmente entendeu os grandes problemas que o
país precisa resolver para poder evoluir de verdade.
Um dos cartazes durante as
manifestações de 2013.
Anos de chumbo e de
glória. Realidade de 1970
Na década de 70, o Brasil estava nos
capítulos mais sangrentos e repressivos de sua história. E tudo isso por causa
de duas coisas: o presidente militar da época Emílio Garrastazu Médici e seu
AI-5 (Ato Institucional número cinco). Nesse momento a liberdade de expressão
desaparecia do Brasil. Ser contra o governo, da maneira que fosse, estava
terminantemente proibido. E para quem desobedecesse, haviam severas punições.
Não se tratava de palmadas como as que levamos de nossas mães quando pequenos,
estamos falando de exílio, prisões, torturas e assassinatos. Era a época do
“Brasil, ame-o ou deixo-o”. Mas, só amar, não era suficiente.
Anúncios publicitários de 1970.
Por conta disso, a sociedade estava divida
entre o medo, insegurança e obediência e
a esquerda radical, que resistia devolvendo na mesma moeda. Sequestros a
pessoas ligadas ao governo, atentados à militares entre outros casos, eram uma
resposta indignada ao regime que se fazia presente desde 1964. E quanto mais
repressivo, mas revoltado o povo ficava, mesmo que só em pensamento.
Ao mesmo tempo que o governo era o mais
abominável de todos os tempos, o mundial aconteceria. Foi isso que segurou um
pouco os ânimos e amenizou as revoltas da sociedade. Havia alguma distração
para as pessoas. Na verdade, o “ópio do povo”, como era conhecido o futebol
estava em dose maior nesse ano. Afinal, era nada menos do que a Copa do Mundo.
O outro lado
Em contrapartida, de 1967 a 1974 começou
uma notável mudança na economia do país, período conhecido como “milagre
econômico”. Foi nesse período também que grandes obras como a Ponte Rio Niterói
e a Transamazônica foram postas em prática. E então veio a Copa do Mundo de
1970, para recuperar de vez a alegria e a esperança do Brasil.
Como prova disso, o próprio Gérson, um dos
principais jogadores da seleção de 1970, falou ao jornal da época, “O Pasquim”,
que a vitória foi imprescindível para o país. “Graças a Deus ganhamos essa
Copa, porque, se nós não ganhássemos, haveria problema aqui no Brasil. Você
sabe que o futebol é a válvula de escape. (...) Para o povo não interessa o que
ele vai passar, desde que o Brasil ganhe a Copa.”
Médici torcedor
A
popularidade do futebol serviu de base e inspiração para o presidente. Não
podemos deixar de mencionar sua paixão pelo esporte. João Máximo conta que
Médici era um fanático e não escondia isso de ninguém, nem mesmo da população.
Afinal, ele já havia sido jogador na juventude, atacante do Grêmio de Bagé. Ele
sabia muito bem o motivo de o futebol ser tão popular no Brasil. O jogo é mais
democrático do país, não tendo distinção de ricos ou pobres, e onde todos têm a
chance de brilhar.
Nacionalismo
é a palavra que mais relaciona Médici, o futebol e a população. E era isso que
faltava para os brasileiros em seu governo. Além disso, a imagem do Brasil
estava manchada internacionalmente por causa dos episódios de tortura, prisões
e da ditadura em geral. Mas como já dito, 1970 foi um ano de mudanças e ele
queria unir pelo menos o povo brasileiro. A Copa de Mundo desse ano foi uma
ajuda para a maioria dessas modificações da mentalidade da sociedade. A euforia
do “milagre econômico” dessa época se somou à conquista do tri. Dessa vez a embriaguez
do futebol tomou conta da população de uma forma nunca vista anteriormente. E
tudo isso calhava exatamente com os discursos políticos que reforçavam os
objetivos patriotas e nacionalistas desses “novos tempos”.
Emílio Garrastazu Médici comemorando o tri
campeonato de 1970.




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