terça-feira, 3 de junho de 2014


Passado e futuro andam juntos

e o Rio de Janeiro que o diga


Cada época uma história, mas ela sempre se repete. O que move o Brasil?
 
Jessica Biot Beltrando 

 

Como diz a música criada após a vitória brasileira de 1958, “a taça do Mundo é nossa”. Em 2014 ainda não há certeza da taça, mas a Copa, de certa maneira, dessa vez é mesmo. Depois de muito tempo, o evento mais esperado pelo planeta chegou ao Brasil. O país do futebol também representa desenvolvimento e a música tema de 1970, “todos juntos vamos pra frente Brasil, salve a seleção”, é a prova disso. E é esse esporte que até hoje contribui para  manter a união, a alegria e o orgulho do povo brasileiro.

 

Contexto de 70

Tudo começou em 1958, quando o Brasil conseguiu o seu primeiro título mundial no México. Depois disso, também ganhou a Copa de 1962 no Chile e o próximo título só seria conquistado em 1970. Dessa vez, era ditadura... o auge dela com o governo Médici. A seleção foi incrível neste ano, não só pelo desempenho no jogo, mas por tudo que acontecia na época.

Os brasileiros sempre tiveram a característica de povo alegre e otimista, mas nos anos de chumbo esse brilho estava apagado. A falta de liberdade de expressão imposta pelo regime mudou a atitude de todos. A sociedade do Brasil, ao mesmo tempo que queria torcer pelo país, lembrava logo do situação que estavam vivendo. E isso impedia a demonstração da euforia de cada um, porque a razão era logo acionada.

 

Autoconfiança demais

De acordo com o jornalista João Máximo, 1966 foi a pior campanha da seleção desde 1934. Isso aconteceu porque todos já se alimentavam da certeza de que o Brasil ganharia de novo na Inglaterra e por isso não houve a preocupação necessária  com treinos e investimentos.

O futebol, sempre foi a distração e diversão do povo. O fracasso da Copa de 66 fez com que todos ficassem desacreditados, não só no esporte, mas também pelo quadro político e econômico que já os cercava. Desse modo, passou-se a torcer contra a seleção porque apoiar era, de certa forma, compactuar com o sistema. Mas Máximo lembra que aos poucos essa rejeição no âmbito do futebol foi sendo deixada de lado, porque não havia como ignorar o brilhantismo do time nesse campeonato.

O jornalista Chico Otávio, relata que seu amigo, o também jornalista e guerrilheiro na época, Cid Benjamin, estava preso durante a Copa de 70. Ele  havia combinado com os colegas de cela que iriam fazer uma corrente de energia negativa contra a seleção brasileira. “Mas no momento em que o Tostão tocou para o Pelé que tocou para o Gérson, eles não se aguentaram e começaram a gritar - vamos lá Brasil! –“.

 

Depois da tempestade

Máximo disse também, em uma palestra sobre o futebol na ditadura, que João Saldanha era comunista mas mesmo assim foi convocado para ser técnico da seleção para o campeonato de 70. Ele conta que João era autêntico, que escalou a seleção da sua maneira e deixou de fora um dos jogadores que o regime indicou. Daí surgiu a famosa frase dele: “Eu não escalo o seu Ministério, e o senhor não vai escalar meu time”. Na véspera da Copa, alguns acontecimentos como esse, por exemplo, levaram à demissão do técnico e sua substituição por Zagalo. Foi nessa competição que se formou a seleção considerada a mais completa até hoje e lembrada com saudosismo por todos os entrevistados. Mesmo com conturbações, o time foi muito bem sucedido e o tri acabava de entrar para a lista. O nacionalismo voltou ao coração dos cidadãos. Médici sabia que o sucesso no mundial significava a potencialização do governo e o caminho para acalmar os ânimos e as revoltas da população. Dito e feito.





 

Contexto de 2014

            Tudo começou em 2007 quando o Brasil ganhou a candidatura para sediar a Copa. E assim seguiram-se os anos. Em 2013, um ano antes da Copa do Mundo, um cenário não muito agradável aos olhos do governo se instaurou. A indignação e cansaço popular com a corrupção, escândalos envolvendo políticos e os gastos públicos exorbitantes, vieram à tona e inúmeras manifestações de grandes proporções eclodiram nas principais cidades do Brasil. Nas ruas tomadas pelos manifestantes, se ouvia com frequência os gritos de “não vai ter Copa”. Depois de alguns meses, os protestos tomaram caminhos diferentes por conta de pequenos grupos. Incidentes e casos de violência fizeram com que a participação popular perdesse força. Os ânimos se acalmaram um pouco, mas a partir desses movimentos, a mentalidade nunca mais foi a mesma.


A maior manifestação de 2013, que partiu da Candelária.

Cenário atual

Um ano se passou e estamos há alguns dias do início do mundial. Hoje somos uma democracia e o país continua em desenvolvimento. Mas analisando os acontecimentos do passado e a responsabilidade que o país adquiriu em sediar a Copa, o ritmo é mais lento do que deveria. De acordo com pesquisas, 30% das obras de infraestrutura e reparos ainda não está concluída. A própria Fifa, pela primeira vez na história, teve a necessidade de intervir no processo de preparação do país sede.

            Percebemos que, diferente de todas as outras Copas do Mundo, em 2014 a seleção já não tem o favoritismo de outrora. E nem o povo brasileiro está em festa como costumava ficar. O Brasil vive outro período de descontentamento e pressão popular. E mais uma vez a história se repete. Claro que há mais pessoas a favor da Copa do que em 1970, mas mesmo assim muita coisa mudou. Antes, o país inteiro parava. De crianças a idosos, vestia-se a camisa verde e amarela com orgulho. 2013 foi um ano impactante e de aprendizados. Agora, a população está  dividida novamente. O “pé atrás” está presente em todas as esferas, principalmente no futebol.

 

E agora?

Depois das manifestações que ocorreram no ano passado, parece que as pessoas entenderam um pouco mais o sistema em que o país vive. Corrupção, uso indevido de dinheiro público para construção de estádios, por exemplo, apontam essa realidade. Ainda não sabemos o que esperar. Mas no final veremos se o caso do Cid Benjamin representa uma eterna realidade brasileira, ou se a população realmente entendeu os grandes problemas que o país precisa resolver para poder evoluir de verdade.

 
Um dos cartazes durante as manifestações de 2013.

 

Anos de chumbo e de

glória. Realidade de 1970

 

Na década de 70, o Brasil estava nos capítulos mais sangrentos e repressivos de sua história. E tudo isso por causa de duas coisas: o presidente militar da época Emílio Garrastazu Médici e seu AI-5 (Ato Institucional número cinco). Nesse momento a liberdade de expressão desaparecia do Brasil. Ser contra o governo, da maneira que fosse, estava terminantemente proibido. E para quem desobedecesse, haviam severas punições. Não se tratava de palmadas como as que levamos de nossas mães quando pequenos, estamos falando de exílio, prisões, torturas e assassinatos. Era a época do “Brasil, ame-o ou deixo-o”. Mas, só amar, não era suficiente.

 

Anúncios publicitários de 1970.

 

Por conta disso, a sociedade estava divida entre o medo, insegurança e  obediência e a esquerda radical, que resistia devolvendo na mesma moeda. Sequestros a pessoas ligadas ao governo, atentados à militares entre outros casos, eram uma resposta indignada ao regime que se fazia presente desde 1964. E quanto mais repressivo, mas revoltado o povo ficava, mesmo que só em pensamento.

Ao mesmo tempo que o governo era o mais abominável de todos os tempos, o mundial aconteceria. Foi isso que segurou um pouco os ânimos e amenizou as revoltas da sociedade. Havia alguma distração para as pessoas. Na verdade, o “ópio do povo”, como era conhecido o futebol estava em dose maior nesse ano. Afinal, era nada menos do que a Copa do Mundo.

 

O outro lado

Em contrapartida, de 1967 a 1974 começou uma notável mudança na economia do país, período conhecido como “milagre econômico”. Foi nesse período também que grandes obras como a Ponte Rio Niterói e a Transamazônica foram postas em prática. E então veio a Copa do Mundo de 1970, para recuperar de vez a alegria e a esperança do Brasil.

Como prova disso, o próprio Gérson, um dos principais jogadores da seleção de 1970, falou ao jornal da época, “O Pasquim”, que a vitória foi imprescindível para o país. “Graças a Deus ganhamos essa Copa, porque, se nós não ganhássemos, haveria problema aqui no Brasil. Você sabe que o futebol é a válvula de escape. (...) Para o povo não interessa o que ele vai passar, desde que o Brasil ganhe a Copa.”

 

Médici torcedor

            A popularidade do futebol serviu de base e inspiração para o presidente. Não podemos deixar de mencionar sua paixão pelo esporte. João Máximo conta que Médici era um fanático e não escondia isso de ninguém, nem mesmo da população. Afinal, ele já havia sido jogador na juventude, atacante do Grêmio de Bagé. Ele sabia muito bem o motivo de o futebol ser tão popular no Brasil. O jogo é mais democrático do país, não tendo distinção de ricos ou pobres, e onde todos têm a chance de brilhar.

            Nacionalismo é a palavra que mais relaciona Médici, o futebol e a população. E era isso que faltava para os brasileiros em seu governo. Além disso, a imagem do Brasil estava manchada internacionalmente por causa dos episódios de tortura, prisões e da ditadura em geral. Mas como já dito, 1970 foi um ano de mudanças e ele queria unir pelo menos o povo brasileiro. A Copa de Mundo desse ano foi uma ajuda para a maioria dessas modificações da mentalidade da sociedade. A euforia do “milagre econômico” dessa época se somou à conquista do tri. Dessa vez a embriaguez do futebol tomou conta da população de uma forma nunca vista anteriormente. E tudo isso calhava exatamente com os discursos políticos que reforçavam os objetivos patriotas e nacionalistas desses “novos tempos”.

 

Emílio Garrastazu Médici comemorando o tri campeonato de 1970.

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