Anos 70: o futebol e a política
movimentam a vida do brasileiro
Em
uma época de mudanças, a Copa do mundo trouxe um novo ar ao Brasil
Em
1970 o Brasil passava por uma época de duplo sentimento. Era Copa do Mundo e ao
mesmo tempo, a ditadura militar se instaurava no país fazendo feridas que até
hoje não cicatrizaram. A seleção brasileira de futebol da época foi e ainda é
considerada por muitos a maior de todos os tempos e com a forte cobertura na
mídia, a vitória do Brasil no México foi usada como instrumento de propaganda
do regime militar, chegando a ter a taça Jules Rimet levantada pelo então
presidente Emílio Garrastazu Médici.
Com
a grande expectativa em cima dos jogadores, o governo focou em propagandas que
tinham como característica fazer com que o povo fosse tão apaixonado pelo país
que fizesse de tudo por ele. Um período ufanista era pelo que os brasileiros estavam
passando em 70. E com a conquista da taça, a seleção começou a ter um caráter
heroico que até pouco tempo ainda podia se ver no Brasil.
O poder da propaganda
Enquanto era transmitido o espetáculo pela primeira vez para
o povo brasileiro através da televisão e em cores, a economia atingia o auge do
que ficou conhecido como milagre econômico, dando a ilusão de um país próspero,
em crescimento e feliz. Parecia que tudo que era bom estava acontecendo ao
mesmo tempo. Porém, do outro lado estavam os presos que eram mortos, torturados
e alguns não se sabe do paradeiro até hoje.
Frases que evidenciavam a exaltação militar eram vinculadas
nas rádios, televisões e jornais, como “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, “Ninguém
Segura Este País”. A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem sucedida
como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a
imagem dos seus jogadores como ídolos de uma nação.
José Ricardo Palazzo, que na época tinha apenas sete anos,
tem lembranças que foram marcadas pelo incentivo ao regime militar, já que seu
pai era do exército.
“Nas rádios, músicas tocavam incentivando o povo brasileiro a
torcer pela seleção e isso ecoava para 90 milhões de pessoas. Uma das canções
mais marcantes e que até hoje é cantada, é o hino da Copa, “Pra frente Brasil”.
O impacto era muito grande e as pessoas se envolviam criando laços fortes com o
país. ”, lembrou o médico.
No meio da vibração do povo, o grande sucesso de autoria de
Miguel Gustavo era cantado por todo o país.
“Noventa Milhões em ação,
Pra
frente Brasil,
Do meu
coração...
Todos juntos
vamos,
Pra
frente Brasil,
Salve a
seleção!”
Em contrapartida, outras pessoas que viveram década de 70 e
tiveram participação ativa em alguns momentos contra o governo, falam de erros
que não podem ser repetidos na Copa de 2014 aqui no Brasil. Suely Caldas,
professora do curso de Comunicação Social da PUC-Rio, disse em uma de suas
aulas que sempre esteve muito ligada aos acontecimentos e por perceber toda
essa manipulação por parte dos militares, os quais ela tinha total aversão, ela
se recusava o cantar o hino nacional.
Pelé
comemorando o gol na Copa
Isso aconteceu até o ponto que ela viu que o hino não era dos
militares, e sim, do povo brasileiro e assim mudou de opinião. Ou seja, não era
porque estava cantando que significava que ela estava de acordo com as atitudes
do governo.
Transformações
e novos investimentos
Mesmo com a o momento difícil da política onde o povo ficou
dividido entre opiniões, algumas transformações foram boas para que o Brasil
conseguisse se desenvolver econômica e tecnologicamente. Boaventura Ferreira da
Silva, de 80 anos, na época era da aeronáutica e tinha o privilégio de poder
trazer para os três filhos novidades que ainda não tinham chegado ao Brasil.
Uma dessas foi ser uma das primeiras famílias a ter televisão em cores.
A área da biotecnologia também foi bastante desenvolvida e
explorada, já que antes da época da ditadura não havia incentivo a pesquisa e
ao estudo. Segundo o site r7.com, no livro do historiador Rodrigo Patto Sá
Motta, “As universidades e o Regime Militar”, ele cita os aspectos negativos da
época, mas ressalta as mudanças positivas.
“Faculdades foram desdobradas em institutos, houve um grande
investimento em áreas técnico-científicas e o País registrou forte expansão no
número de cursos de pós-graduação. Durante a ditadura, também houve um
investimento real na infraestrutura dos campi. O fim da cátedra (cargo
vitalício dos professores) e as reformas curriculares foram outras mudanças
positivas implantadas pelos militares”, enumera Motta.
Aproveitando da facilidade dos empréstimos internacionais, o
milagre econômico gerou a era das obras monumentais, como a construção da
Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, da usina nuclear de Angra dos Reis e de
barragens gigantescas, como a de Itaipu.
Recorte de jornal com umas das frases muito usadas durante a ditadura
A influência da moda
no cotidiano do Brasil
Governo Médici, milagre econômico, “Brasil ame-o ou deixe-o”,
Copa do mundo “… todos juntos vamos, pra frente Brasil…”, era esse o clima que
o Brasil enfrentava nos anos 70. O período de ufanismo vai até final do ano de
1973, quando já começa a apresentar sinais de fracasso. A população viveu do
progresso à crise em 10 anos. Foram muitas mudanças em pouco tempo.
E era com esse cenário que o Brasil ia mudando e evoluindo os
estilos e a moda. É um período difícil de definir uma só linha de vestimenta,
já que usou-se de tudo. As saias passearam entre os comprimentos mini, micro,
longa e midi com uma rapidez e facilidade enorme. As calças eram na maioria de
cintura alta e com a boca mais larga, que hoje em dia é a chamada calça flare.
Os vestidos procuravam sempre marcar mais a cintura da
mulher, mostrando e acentuando a feminilidade e o corpo delicado. Porém, ao
longo dessa década também foram vistas roupas mais masculinas fazendo parte do
guarda-roupa feminino. Jeans de diferentes lavagens (délavé, manchado,
escovado, aveludado) e a roupa unissex ganha força com os terninhos e os
conjuntos de jeans.
Os cabelos eram sempre curtos, na altura dos ombros, com
ondas e muitas camadas que davam movimento e volume às madeixas. As maiores
inspirações da época, o que na verdade acontece até hoje, vinham das novelas e
dos filmes. Uma dessas atrizes que ditavam moda era a Farrah Fawcett, com o seu
icônico cabelo loiro.
As roupas mais esportivas, como calças coloridas, bodys e
polainas também ganharam as brasileiras e era muito comum de ver por aí.
Seguindo a linha mais hippie e natural, as pessoas gostavam de fazer tudo
customizado. As técnicas de tie-dye, crochês, bordados e miçangas davam um ar
único às peças.
A moda masculina dos anos 70 se baseava em calças boca de
sino, muito coloridas e estampadas. As blusas eram quase sempre camisas de
botão com listras e cores fortes. Óculos de sol coloridos também davam o tom da
época.
Como acontece de tempos em tempos, algumas peças que eram
muito usadas antigamente voltam e fazem parte do vestuário da mulher moderna.
As hotpants, que são os shorts de cintura alta e bem curtinhos, eram usados nos
anos 70 e de uns três anos pra cá essa moda voltou com algumas mudanças. Eles
estão mais curtos e justos e vêm em diferentes tipos, pode ser jeans bem
rasgado, de tecido, estampado ou liso e as combinações são infinitas.
Já o terninho e o jeans são peças que não saíram do
guarda-roupa da mulher moderna e até a calça boca de sino voltou com tudo. A
moda sempre está inovando, mas também é movida por reciclagens, trazendo o que
era velho e transformando em algo novo.
Mariana Manteca, aluna do curso de Publicidade da PUC-Rio,
disse que teve sorte da mãe dela não ter se desfeito de várias peças que usou
quando era jovem.
“Eu sempre procuro no armário da minha mãe alguma coisa que
ela não usa mais. Eu tenho sorte dela ter guardado peças chave que hoje estão
de volta com tudo, como a jaqueta de couro, os óculos de lente espelhada,
calças de cintura alta e bolsas que hoje são consideradas vintage. Claro que
algumas coisas eu tenho que customizar, como o jeans que eu cortei e fiz
shorts. ”
Hotpants hoje em dia usada por blogueiras




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