terça-feira, 3 de junho de 2014


Do tri ao hexa: a mudança de comportamento do carioca de 1970 a 2014
Marta Szpacenkopf
 
Daqui há nove dias começa a tão esperada Copa do Mundo FIFA 2014. Porém, o sentimento de ansiedade está longe daquele sopro de ânimo que a escolha do país para sediar o mundial provocou em 2007. Os problemas de organização foram tão grandes que acabaram transformando uma esperada e animada festa em um grande fardo para as pessoas. A festa em Copacabana  acabou faz tempo e as ruas do Rio de Janeiro não estão decoradas como se fazia em todos os outros mundiais. A impressão que fica é de que as pessoas estão mais ansiosas para o último jogo do que para o de abertura.

Os gastos excessivos na construção de estádios, a falta de infra estrutura, a má organização do governo, que teve mais de seis anos para preparar o país para o evento, e as obras mal administradas por todo o país contribuíram para diminuir significativamente a empolgação dos brasileiros. Existem pessoas que inclusive não estão torcendo pela vitória do futebol do Brasil em função de todos os problemas políticos e econômicos que estão sendo enfrentados atualmente. Essa revolta é a maior evidência de que os tempos mudaram. Seja pela internet e pelo maior acesso à informação, seja pelo limite de barbárie que uma população pode agüentar, o brasileiro não é mais bobo e está de olhos abertos.

Torcer ou resistir?

Em 1970, no entanto, o cenário era diferente. A seleção conquistou o tricampeonato durante o mandato do General Médici, o presidente mais linha dura do regime militar. Poucos sabiam o que realmente se passava no país na época e entendiam o que estava por trás da propaganda política da Copa. Os brasileiros ficaram exultantes com a conquista do tri, apesar do país estar em um momento muito delicado de sua história, com muita repressão, prisões e mortes.

Naquela época, as pessoas eram mais alienadas e tinham menos acesso à informação por conta da própria ditadura, da inexistência da internet e até uma certa falta de interesse. Tania Brandão, pesquisadora e historiadora, acompanhou de perto a divisão de opiniões em relação à Copa. Tania tinha acabado de começar o curso de História na UFRJ e, segundo ela, os estudantes universitários de cursos mais politizados, os movimentos de esquerda e uma parcela da população que sabia o que estava se passando tentaram resistir ao amor ao futebol. No entanto, ela lembra que o sabor das vitórias do Brasil até o final do torneio e a conquista do tri foram fortes demais para manter esse movimento por muito tempo.

“Eu tinha um amigo que cursava Ciências Sociais que era louco por futebol, mas era muito politizado, líder estudantil. Ele se engajava sempre em denúncias contra o governo militar e começou a defender a necessidade de torcer contra o Brasil. Para ele, seria uma estratégia importante contra o governo Médici. Quando a Copa começou, ele não conseguiu deixar de ver os jogos e a sua fortaleza política foi desmoronando. Até que ele confessou para todo mundo que era impossível torcer contra o Brasil e no final da Copa era um dos torcedores mais exaltados e felizes”, contou.

Festa de 70

De fato, da Copa de 70 até os dias de hoje muitas mudanças ocorreram. Naquele ano, o grande destaque da competição foi a transmissão dos jogos ao vivo e a cores via satélite pela primeira vez. Também em 1970 as bolas da Copa começaram a ser oficialmente batizadas. A redonda que ajudou na vitória do Brasil ganhou o nome de Telstar. As pessoas assistiam aos jogos em casa, com a família ou se reunindo com amigos, muito diferente da enorme oferta de festas e bares para assistir às partidas que existem hoje em dia pela cidade.

Porém, diferente da falta de entusiasmo e animação que se vê hoje no Rio de Janeiro, em 1970 a festa nas ruas era vibrante. O engenheiro Pedro Leão Faria de Paula tinha 13 anos e acompanhou aquela Copa com muita euforia. Ele se lembra que a cidade estava em festa e a cada vitória da seleção as pessoas saíam pelas ruas em blocos cantando e carregando bandeiras do seu time. O engenheiro, que morava em Botafogo, na Voluntários da Pátria, esperava os blocos passarem pela sua porta e ia festejando até Copacabana, em uma grande comemoração. “Parecia época de Carnaval”, recordou.

Segundo Pedro Leão, a comemoração quando o Brasil finalmente ganhou o campeonato foi ainda maior. “Era a conquista do tri e a taça seria definitivamente do futebol brasileiro. As ruas foram pintadas com desenhos com alusão à Copa e decoradas com bandeiras nas cores verde e amarelo”, descreveu. Pedro lembra também que ficou tão empolgado com a vitória depois do jogo da final que quase se machucou seriamente. Ele foi pular a janela do apartamento em que morava, no térreo, de frente para a rua, apoiado na armação da veneziana, estrutura comum nas janelas dos apartamentos da época. A armação se fechou e ele bateu a nuca com força no parapeito da janela. Foram fortes emoções.

Metamorfose do Rio

Nesses 44 anos, o Rio de Janeiro mudou drasticamente, em todos os sentidos. Foram abertas novas ruas, a arquitetura foi se transformando e a cidade mudou fisicamente. Casas antigas deram lugar a novos prédios, processo que até hoje ainda está em andamento. O sistema de transporte também foi se modificando com a construção das linhas 1 e 2 do metrô, a duplicação da Avenida Atlântica e as obras de expansão para a Zona Oeste, como a construção do Elevado do Joá. Houve maior integração entre as áreas da cidade com o desenvolvimento da mobilidade urbana. Já existiam engarrafamentos e falta de locais para estacionamento. A cidade passava por grandes obras de infraestrutura, da mesma forma que está acontecendo hoje em dia.

A população também aumentou e a vida ficou mais corrida, as distâncias entre os locais freqüentados aumentaram e o número de automóveis nas ruas cresceu. O consumo de bens duráveis aumentou e mais pessoas passaram a ter acesso a esses produtos. As quitandas e mercearias perderam espaço para as redes de supermercados com grandes lojas. As pessoas adquiriram novos hábitos e a rotina foi se alterando aos poucos. No entanto, a vida era mais tranqüila naquela época e o lazer era restrito aos finais de semana. Saídas para restaurantes eram reservadas para datas especiais e aniversários e, na casa de Pedro Leão, beber refrigerante, muitas vezes, era liberado somente no fim de semana.

Tania Brandão acredita que de lá para cá, a cidade foi mais afogada pela especulação imobiliária e pela indústria automobilística. Para ela, o trânsito piorou muito. Ela também enxerga o surgimento de uma consciência que não existia em 1970, a de que o brasileiro é roubado diariamente pelo governo, paga impostos altos demais, é extorquido e não tem qualidade de serviço público. “Penso que este sentimento está fazendo com que as pessoas funcionem de uma forma nova: de um lado, nenhum adesismo à histeria coletiva tradicional que existia aqui, de outro lado, o gosto pelo futebol e o carinho pela pátria. Vejo, hoje, uma torcida cidadã, enquanto antes havia uma torcida alienada, manipulada.”, refletiu a historiadora.

Pra frente Brasil?

Em 1970, a lição que ficou foi o governo militar se aproveitando da paixão do brasileiro pelo futebol para camuflar as barbáries do regime. Ninguém percebeu ou pareceu se importar muito com isso e o esporte saiu intacto, até mais fortalecido pela vitória e pelo estilo impecável dos jogadores brasileiros em campo. Em 2014, a má organização conseguiu transformar a paixão em apreensão. Resta saber se o medo e a dúvida continuarão por muito tempo depois que a bola começar a rolar. E mais importante ainda, se o brasileiro, depois da Copa, vai conseguir usar seu patriotismo para fazer a coisa certa. De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão? Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração!

Curiosidades 1970.

-          O mascote da Copa de 1970 era um menino mexicano chamado Juanito

-          A duplicação da pista da Avenida Atlântica serviu para a instalação do interceptor oceânico da Zona Sul, até então a maior obra de saneamento básico da cidade.

-          Quem saiu prejudicado com essa obra foram os pescadores que lamentaram perder sua base ideal na praia de Copacabana.

-          A copa de 1970 foi a última que Pelé jogou. O jogador teve desempenho essencial para a conquista do tri.

-          A música Pra frente Brasil feita por Miguel Gustavo era um jingle de sucesso de uma cervejaria que serviu muito bem para a propaganda do regime militar.
 
 
A moda dos anos 1970:
A transição que ficou
Figurino para assistir ao pôr do sol em Ipanema
 
Os anos 70 mostram a dificuldade de analisar a moda dividindo-a em décadas. A primeira metade, pós-Woodstock, foi uma continuação do que é visto em geral como as roupas típicas dos anos 60. A segunda metade segue um caminho para o que se atribui o começo do punk dos anos 1980, década que marcou a estrutura da moda para sempre. Foram estabelecidas novas idéias que permitiriam que o sistema funcionasse para os mais jovens. No Brasil, as costureiras começavam a perder espaço e o negócio da moda começava a se profissionalizar com a estruturação de uma indústria.
O Milagre Econômico brasileiro viabilizou o aumento do consumo e o crescimento das representações da moda no Brasil. A procura pelos consumidores viabilizou a mudança no paradigma de produção de roupa e calçados no país. O tricampeonato do Brasil trouxe ufanismo e consumismo exacerbado, que logo iriam de encontro à realidade repressiva da época. Na moda, depois onda de grandes inovações trazidas pelos anos 60, a década seguinte parecia querer mais extravagâncias e novidades, tanto na estética quanto na ideologia.
Os anos 1970 foram a década da liberação feminina. No entanto, as mulheres ainda estavam longe de se sentir seguras sobre seu lugar no mundo. Basta olhar a moda daquela época para ter uma visão bastante clara da incerteza que atingia os homens e as mulheres. Não é preciso ir muito a fundo para entender que as muitas sobreposições predominantes no visual da época tinham, de certa forma, a intenção de proteger. Saias curtas sobre saias longas, mangas três - quartos cobrindo mangas até os pulsos, vestidos com coletes e aventais, a grande quantidade de texturas e estampas não passavam de uma tentativa de resgatar um passado mais tranqüilo.
O movimento hippie influenciava boa parte do planeta, os protestos contra a Guerra do Vietnã (1964-1975) se intensificavam e os homens deixavam o cabelo crescer além dos ombros. O Oriente seduziu o cenário da moda e a juventude passou a vestir suas batas, túnicas indianas, caftãs, adotou incensos, óleos como patchoulli e muitos sapatos de plataforma.
As cores fortes continuavam em pauta, novos tipos de estampas surgiam e as boutiques em Ipanema proliferavam. Zuzu Angel foi a primeira estilista brasileira a vender suas roupas em Nova York. A mineira é considerada precursora por valorizar características brasileiras em suas estampas e por inaugurar o desfile protesto, uma manifestação pelo desaparecimento de seu filho, Stuart Angel.
 Em São Paulo, a Mondo Cane e a Paraphernalia faziam sucesso e, no Rio, a Veste Sagrada, Spy & Great, Frágil, Anik Bobo, Ovelha Negra, Point Rouge e Blu-blu eram as eleitas. As camisas dos homens tinham pences na parte de trás e as calças eram baixas com bocas bem largas (boca de sino). As mulheres podiam escolher entre os comprimentos mini, midi e maxi para as suas saias. O Píer de Ipanema testemunhava novos biquínis e o nascimento da tanga. Leila Diniz impressionava ao desfilar seu barrigão de grávida de biquíni pelas areais da praia. Enquanto isso, a dupla shorts e botas de cano longo fazia a cabeça das mulheres no asfalto.
As chamadas blusas Cacharel surgiam em todas as cores e os jeans desbotados tornavam-se uma forte tendência. Tamancos da Smuggler, conjuntos Lothar, jeans de marca usados com blazers azul marinho e sapatos Altemio Spinelli eram o uniforme de várias tribos. A década de 70 trouxe o grupo Moda Rio, que tinha como objetivo aumentar o espaço de divulgação das marcas de moda. Eles buscavam melhorar o mercado, pesquisar tecidos e tendências e encontrar novos modelos de estratégias mercadológicas. Também começaram do zero marcas como Zoomp, Company, Maria Bonita, George Henry e Forum. Algumas existem ainda hoje.
Em Paris, Yves Saint Laurent era o nome maior, nos Estados Unidos, Halston era o designer da vez e Vivienne Westwood começava a aparecer na Inglaterra. Os anos 70 trouxeram ainda John Travolta, a era Disco, muito brilho, paête, e o sucesso da novela Dancing Days da Rede Globo. O movimento Blackpower influenciou até a cabeleira de muitos jogadores na Copa de 1970.
No Brasil, a ditadura continuava e revistas, como Desfile, Cláudia e Vogue, pontificavam o cenário da moda que, em breve, testemunharia outro tipo de excessos com os anos 80. A moda e o estilo que estavam em alta na época foram tão marcantes que podem ser encontrados em quase todas as tendências atuais. Todo boho, retrô, hippie e sobreposições têm um perfume setentista que vem de uma época de transições que vieram para ficar.
 

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