terça-feira, 3 de junho de 2014


Mais de 40 anos depois,

atmosfera política continua

Natália Kallas

Apesar de viver um momento diferente, semelhanças Copa do Mundo permanecem.

 


           

Pelé e Neymar, símbolos de gerações diferentes.

 

Há cerca de um ano, diversas manifestações tomavam conta do Brasil, a pouco mais de 12 meses do início da Copa do Mundo, que será realizada a partir do dia 12 desse mês. Se começaram motivadas pelo aumento das passagens de ônibus, logo os motivos da insatisfação se expandiram, chegando ao evento esportivo e culminando no já famoso bordão “não vai ter Copa”. Insatisfeita, parte da população reclama que a enorme quantidade de dinheiro gasta em investimentos para a competição, como construção de estádios e reformas de aeroportos, deveriam estar sendo investido em outras áreas, como na construção de hospital e escolas.

O clima de insatisfação se espalhou e já na Copa das Confederações, realizada em Junho do mesmo ano, pode-se assistir o que pra muitos foi uma amostra do que deve acontecer durante o Mundial. Os protestos puderam ser vistos tanto do lado de dentro quanto do lado de fora dos gramados. Os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo também foram sentidos em ambos. A presidente Dilma Rousseff foi vaiada em alto som dentro do estádio pelo público presente. Mesmo público que fez questão de gritar em tom até mais alto o hino do país. Uma mistura de sentimentos.

A expectativa é que essa divisão entre os que apóiam a Copa como forma de levantar a imagem do país para o mundo e aqueles que acreditam que o dinheiro tenha sido mal investido deve continuar de forma ainda mais forte durante a competição oficial e os responsáveis pela segurança das cidades-sede já se preparam para enfrentar manifestantes, que, embora em pequena quantidade, já deram as caras nos treinos da seleção.

Copa e ditadura

Essa, no entanto, não foi a primeira vez que o esporte foi reflexo do momento vivido pelo pais. Em 1970, o país também passava por um momento político agitado. Afinal, seis anos após ser instaurada, a ditadura militar continuava no país, e com grande força. Apesar de o Brasil viver o chamado “milagre econômico”, também foi nesse período, sob o governo do presidente Médici, que o país viveu sua fase mais linha dura.

No entanto, governo e presidente se aproveitaram do momento para espalhar pelo paíss uma grande onda de euforia e distrair a população. O engenheiro Ricardo Henrique Castro, na época com apenas 12 anos de idade e morador do Rio de Janeiro, diz se lembrar exatamente desse clima e do fato de que sua casa destoava das demais, que estavam todas enfeitadas.

“Eu era novo, mas lembro perfeitamente dessa euforia. Minha casa era praticamente a única da rua que não tinha uma bandeira na porta ou na janela, quase todas as outras tinham. Na época eu não entendia direito, mas como meus pais eram bem politizados e contra a ditadura, eles procuraram se manter bem longe daquela festa toda”, explica ele.

Diferentemente do que ocorre hoje, não existia a possibilidade de expressar qualquer tipo de insatisfação com o momento que se vivia. O presidente Médici era “linha dura”, ala mais radical dos militares e seu governo foi o mais opressivo entre todos, resultando em um grande número de mortes, torturas e tentativas de exílio político no exterior.

O governo, por sua vez, fazia de tudo para ligar a sua imagem e, principalmente, a imagem do presidente à da seleção, motivo pelo qual a vitória era indispensável. E para a sorte deles foi exatamente o que aconteceu. Considerada por muitos a melhor seleção de todos os tempos, o Brasil se tornou o primeiro time a sagrar-se três vezes campeão do mundo e trouxe para casa a taça Jules Rimet.

A professora Vera Mendonça relembra que, na volta dos jogadores, “o presidente não perdeu a oportunidade e saiu em quase todas fotos tanto com a taça e quanto com os jogadores. Fora isso, não tem como não lembrar da musica né?”.

“A música” a que ela se refere é até hoje conhecida. Quem nunca ouviu os versos “Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil/ Salve a seleção”? Na época, marchinha se tornou símbolo daquela seleção e, consequentemente, do governo.

Copa na TV

Outro ponto importante de destacar é que, assim como hoje o avanço da tecnologia e da internet permite que um número cada vez maior de pessoas tenham a oportunidade de acompanhar a competição, a Copa de 70 marcou a primeira vez que o povo brasileiro assistiria uma Copa do Mundo pela televisão. “Tudo aquilo era uma novidade e fez crescer ainda mais aquele clima de euforia, porque o povo queria ver a nossa seleção ganhando”, lembra Castro.

Ao contrário do que aconteceu na época e provavelmente sentindo que dessa vez não há clima para isso, a mídia brasileira parece manter uma postura muito mais sóbria com relação à competição.

Além dos gastos e da política por trás do evento, Castro lembra ainda um outro motivo que causa um certo afastamento entre a população e sua seleção. “Naquela época, acho que basicamente todos os jogadores da seleção atuavam por times daqui do Brasil. Então, era diferente. A gente queria ver os craques do nosso time brilhando. Hoje em dia, quase todos moram fora. Alguns nem são conhecidos do grande público. Isso dá uma esfriada na relação”.

            A menos de quinze dias do inicio da competição, é tarde demais para entrar no debate sobre se ela deve acontecer ou não. O importante é que, tanto em caso de derrota quanto de vitória e diferente do que aconteceu em 1970, não se caia em euforia ou jogos políticos, e que o evento sirva para a reflexão e evolução do país.
 
 
 
 
Moda nos Anos 70:
psicodélica e irregular
Natália Kallas

O cantor britânico David Bowie.
Apesar de o ano de 1970 ter sido um período de forte repressão no Brasil e em muitos outros lugares do mundo, se houve um setor em que as idéias parecem ter ficado ainda mais férteis e criativas foi a moda. Muitas cores e muita psicodelia tomaram conta das roupas.
A produtora de moda da marca Cantão, Paloma Borges, detalhou um pouco mais o que era tendência na época: “Se usava muito plataforma, calças boca-de-sino, meias de lurex e muito poliéster. Era tudo bastante chamativo, nada básico. Não existia nenhum minimalismo, era tudo bem kitsch e punk. Foi uma época em que ocorreu uma massificação muito grande no mercado”.
Já a professora Vera Mendonça divertiu-se ao relembrar as peças que usava na época e notou que, ao longo dos anos, muitas delas foram e voltaram de moda em outros momentos. “Eu lembro que eu tinha vários vestidos de crochê e, é claro, as meias de lurex. O que eu acho engraçado é que vendo as fotos parece tudo muito maluco, mas essas coisas estão, inclusive, se usando de novo”.
Influência da música
O Rock’n’ Roll era a principal música que se ouvia na época e um dos ícones que melhor representa esse momento foi, sem dúvidas, o cantor britânico David Bowie. Com seu visual andrógeno e suas roupas chamativas, ele apresentou uma imagem nunca antes vista e até hoje influencia estilistas e artistas no mundo todo. O visual de John Travolta em Os embalos de sábado à noite e a disco music também instigaram toda uma geração. Ou seja, não faltavam collants e calças muito justas.
No Brasil, cantores como Roberto Carlos, Raul Seixas e Rita Lee, entre outros, seguiam essas tendências e também apostavam no estilo psicodélico para se vestir e até para cantar. Foi o ano em que se formou um grupo que viria a fazer sucesso durante toda a década, Secos e Molhados.Chico Buarque e Caetano Veloso continuraam a fazer sucesso, assim como os Beatles, todos em fase mais psicodélica tanto nas vestimentas quando nas músicas.
A jornalista Samantha Mahawasala, do site FashionBubbles, lembra que foi nessa época que surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo grandes nomes da moda. “Um grupo de estilistas bastante criativos ganham destaque no Rio de Janeiro como Jose Augusto Bicalho, Luiz de Freitas, Sonia Mureb, Meire Zaide, Gregório Faganello, Marco Ricca, Marilia Valls. Já em São Paulo, era Décio Xavier ao lado de José Gayegos e outros”.
Influência da ditadura
Ainda no Brasil, a repressão da ditadura militar atingia uma de suas fases mais duras com o governo Médici. As pessoas tinham outras coisas para se preocuparem e um estilo mais prático começa a tomar conta do país. Por isso e graças ao sucesso das telenovelas, que já naquela época ditavam moda, as roupas esportivas e o jeans também viraram sucesso, assim como as roupas unissex trazidas por Bowie.
Seguindo essa linha de simplificação da vida, a ecologia ganha importância e faz a indústria procurar fibras naturais para os tecidos e materiais sintéticos para substituir as peles e poupar os animais.
Parece uma mistura grande e ainda há mais para ser citado – glitter e rilhos, saias mini, micro, longas, midi – mas como Borges explica é exatamente essa mistura que define a moda do período. “É difícil definir a moda dos anos 70, porque se usou de um tudo. Não existiam muitas regras quanto a isso.”
 

 

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