Mais de 40 anos depois,
atmosfera política continua
Natália Kallas
Apesar de viver um momento diferente, semelhanças Copa do Mundo
permanecem.
Pelé e
Neymar, símbolos de gerações diferentes.
Há cerca de um ano, diversas manifestações tomavam
conta do Brasil, a pouco mais de 12 meses do início da Copa do Mundo, que será
realizada a partir do dia 12 desse mês. Se começaram motivadas pelo aumento das
passagens de ônibus, logo os motivos da insatisfação se expandiram, chegando ao
evento esportivo e culminando no já famoso bordão “não vai ter Copa”.
Insatisfeita, parte da população reclama que a enorme quantidade de dinheiro
gasta em investimentos para a competição, como construção de estádios e
reformas de aeroportos, deveriam estar sendo investido em outras áreas, como na
construção de hospital e escolas.
O clima de insatisfação se espalhou e já na
Copa das Confederações, realizada em Junho do mesmo ano, pode-se assistir o que
pra muitos foi uma amostra do que deve acontecer durante o Mundial. Os
protestos puderam ser vistos tanto do lado de dentro quanto do lado de fora dos
gramados. Os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo também foram sentidos em
ambos. A presidente Dilma Rousseff foi vaiada em alto som dentro do estádio
pelo público presente. Mesmo público que fez questão de gritar em tom até mais
alto o hino do país. Uma mistura de sentimentos.
A expectativa é que essa divisão entre os que
apóiam a Copa como forma de levantar a imagem do país para o mundo e aqueles
que acreditam que o dinheiro tenha sido mal investido deve continuar de forma
ainda mais forte durante a competição oficial e os responsáveis pela segurança das
cidades-sede já se preparam para enfrentar manifestantes, que, embora em pequena
quantidade, já deram as caras nos treinos da seleção.
Copa e
ditadura
Essa, no entanto, não foi a primeira vez que o
esporte foi reflexo do momento vivido pelo pais. Em 1970, o país também passava
por um momento político agitado. Afinal, seis anos após ser instaurada, a ditadura
militar continuava no país, e com grande força. Apesar de o Brasil viver o
chamado “milagre econômico”, também foi nesse período, sob o governo do
presidente Médici, que o país viveu sua fase mais linha dura.
No entanto, governo e presidente se
aproveitaram do momento para espalhar pelo paíss uma grande onda de euforia e
distrair a população. O engenheiro Ricardo Henrique Castro, na época com apenas
12 anos de idade e morador do Rio de Janeiro, diz se lembrar exatamente desse
clima e do fato de que sua casa destoava das demais, que estavam todas
enfeitadas.
“Eu era novo, mas lembro perfeitamente dessa
euforia. Minha casa era praticamente a única da rua que não tinha uma bandeira
na porta ou na janela, quase todas as outras tinham. Na época eu não entendia
direito, mas como meus pais eram bem politizados e contra a ditadura, eles
procuraram se manter bem longe daquela festa toda”, explica ele.
Diferentemente do que ocorre hoje, não existia a
possibilidade de expressar qualquer tipo de insatisfação com o momento que se
vivia. O presidente Médici era “linha dura”, ala mais radical dos militares e
seu governo foi o mais opressivo entre todos, resultando em um grande número de
mortes, torturas e tentativas de exílio político no exterior.
O governo, por sua vez, fazia de tudo para
ligar a sua imagem e, principalmente, a imagem do presidente à da seleção,
motivo pelo qual a vitória era indispensável. E para a sorte deles foi
exatamente o que aconteceu. Considerada por muitos a melhor seleção de todos os
tempos, o Brasil se tornou o primeiro time a sagrar-se três vezes campeão do
mundo e trouxe para casa a taça Jules Rimet.
A professora Vera Mendonça relembra que, na
volta dos jogadores, “o presidente não perdeu a oportunidade e saiu em quase
todas fotos tanto com a taça e quanto com os jogadores. Fora isso, não tem como
não lembrar da musica né?”.
“A música” a que ela se refere é até hoje
conhecida. Quem nunca ouviu os versos “Noventa milhões em ação/ Pra frente
Brasil/ Salve a seleção”? Na época, marchinha se tornou símbolo daquela seleção
e, consequentemente, do governo.
Copa na
TV
Outro ponto importante de destacar é que, assim
como hoje o avanço da tecnologia e da internet permite que um número cada vez
maior de pessoas tenham a oportunidade de acompanhar a competição, a Copa de 70
marcou a primeira vez que o povo brasileiro assistiria uma Copa do Mundo pela
televisão. “Tudo aquilo era uma novidade e fez crescer ainda mais aquele clima
de euforia, porque o povo queria ver a nossa seleção ganhando”, lembra Castro.
Ao contrário do que aconteceu na época e
provavelmente sentindo que dessa vez não há clima para isso, a mídia brasileira
parece manter uma postura muito mais sóbria com relação à competição.
Além dos gastos e da política por trás do
evento, Castro lembra ainda um outro motivo que causa um certo afastamento
entre a população e sua seleção. “Naquela época, acho que basicamente todos os
jogadores da seleção atuavam por times daqui do Brasil. Então, era diferente. A
gente queria ver os craques do nosso time brilhando. Hoje em dia, quase todos
moram fora. Alguns nem são conhecidos do grande público. Isso dá uma esfriada
na relação”.
A
menos de quinze dias do inicio da competição, é tarde demais para entrar no debate
sobre se ela deve acontecer ou não. O importante é que, tanto em caso de derrota
quanto de vitória e diferente do que aconteceu em 1970, não se caia em euforia
ou jogos políticos, e que o evento sirva para a reflexão e evolução do país.
Moda nos Anos 70:
psicodélica e irregular
Natália
Kallas
O cantor britânico David Bowie.
Apesar de o ano de 1970 ter sido
um período de forte repressão no Brasil e em muitos outros lugares do mundo, se
houve um setor em que as idéias parecem ter ficado ainda mais férteis e
criativas foi a moda. Muitas cores e muita psicodelia tomaram conta das roupas.
A produtora de moda da marca
Cantão, Paloma Borges, detalhou um pouco mais o que era tendência na época: “Se
usava muito plataforma, calças boca-de-sino, meias de lurex e muito poliéster.
Era tudo bastante chamativo, nada básico. Não existia nenhum minimalismo, era
tudo bem kitsch e punk. Foi uma época em que ocorreu uma massificação muito
grande no mercado”.
Já a professora Vera Mendonça
divertiu-se ao relembrar as peças que usava na época e notou que, ao longo dos
anos, muitas delas foram e voltaram de moda em outros momentos. “Eu lembro que
eu tinha vários vestidos de crochê e, é claro, as meias de lurex. O que eu acho
engraçado é que vendo as fotos parece tudo muito maluco, mas essas coisas
estão, inclusive, se usando de novo”.
Influência
da música
O Rock’n’ Roll era a principal música que se ouvia na época e um dos
ícones que melhor representa esse momento foi, sem dúvidas, o cantor britânico
David Bowie. Com seu visual andrógeno e suas roupas chamativas, ele apresentou
uma imagem nunca antes vista e até hoje influencia estilistas e artistas no
mundo todo. O visual de John Travolta em
Os embalos de sábado à noite e a disco
music também instigaram toda uma geração. Ou seja, não faltavam collants e
calças muito justas.
No Brasil, cantores como Roberto
Carlos, Raul Seixas e Rita Lee, entre outros, seguiam essas tendências e também
apostavam no estilo psicodélico para se vestir e até para cantar. Foi o ano em
que se formou um grupo que viria a fazer sucesso durante toda a década, Secos e
Molhados.Chico Buarque e Caetano Veloso continuraam a fazer sucesso, assim como
os Beatles, todos em fase mais psicodélica tanto nas vestimentas quando nas músicas.
A jornalista Samantha Mahawasala,
do site FashionBubbles, lembra que
foi nessa época que surgiram no Rio de Janeiro e em São Paulo grandes nomes da
moda. “Um grupo de estilistas bastante criativos ganham destaque no Rio de
Janeiro como Jose Augusto Bicalho, Luiz de Freitas, Sonia Mureb, Meire Zaide,
Gregório Faganello, Marco Ricca, Marilia Valls. Já em São Paulo, era Décio
Xavier ao lado de José Gayegos e outros”.
Influência
da ditadura
Ainda no Brasil, a repressão da
ditadura militar atingia uma de suas fases mais duras com o governo Médici. As
pessoas tinham outras coisas para se preocuparem e um estilo mais prático
começa a tomar conta do país. Por isso e graças ao sucesso das telenovelas, que
já naquela época ditavam moda, as roupas esportivas e o jeans também viraram
sucesso, assim como as roupas unissex trazidas por Bowie.
Seguindo essa linha de
simplificação da vida, a ecologia ganha importância e faz a indústria procurar
fibras naturais para os tecidos e materiais sintéticos para substituir as peles
e poupar os animais.
Parece uma mistura grande e ainda
há mais para ser citado – glitter e rilhos, saias mini, micro, longas, midi –
mas como Borges explica é exatamente essa mistura que define a moda do período.
“É difícil definir a moda dos anos 70, porque se usou de um tudo. Não existiam
muitas regras quanto a isso.”



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