Torcedores
contam como era estar entre a ditadura e o futebol
POR RENATA SPOLIDORO
O
povo do país do futebol já resistiu a tempos obscuros quando a febre do esporte
fala mais alto. Há pouco mais de uma semana para a abertura da vigésima edição
Copa do Mundo, o Rio de Janeiro, dono do estádio mais célebre do Brasil,
enfrenta atribulações.
A
reforma do Maracanã, estimada em 600 milhões de
reais, passou para 1,2 bilhões. Ingressos para os jogos do campeonato
custam fortunas, assim como hospedagem e alimentação. Serviços básicos, como o
transporte, são ineficientes. Greves e paralisações são constantes. A cidade se
prepara para receber atletas e turistas, mas a época só é maravilhosa aos olhos
de estrangeiros. O custo é alto para quem vive no por aqui.
Alienação e repressão
Não
é a primeira vez que o futebol serve para contornar tempos difíceis. Durante a ditadura
militar, a seleção brasileira voltou do México para casa com o tricampeonato (1958, 1962 e 1970). Em 70, o show de craques como
Pelé, Rivelino, Clodoaldo e Gérson, comandados pelo técnico Zagallo foi exibido
pela primeira vez a cores. O advogado Darcy Batista, com 18 anos na época,
conta que televisão colorida ainda era artigo de luxo para alguns brasileiros:
-Na minha casa, em Vila Valqueire, não tinha TV a cores, era em preto e branco e olhe
lá. Lembro que meu pai chegou com essa televisão de segunda mão. Eu reuni uns
amigos e ficamos todo mundo lá em casa assistindo: eu, meus pais, meu irmão e
os amigos. A minha mãe ficava muito nervosa quando tinha jogo do Brasil. Ela ia
para a cozinha e ficava fritando pastéis para dar pro pessoal, ela olhava da
porta da cozinha e voltava.
O ar do Rio de Janeiro de 1970 era contaminado pela falta de
liberdade. O AI-5, a censura e a ação contra opositores ao regime militar
andavam a todo vapor nos porões do exército. A ideia de milagre econômico e o
nacionalismo inflado, até mesmo pela campanha confiante da seleção na copa do
mundo, eram chaves para fazer o povo esquecer as mazelas de seu tempo.
A economia andava bem, mas o custo social não era baixo. Só
restava ao povo tentar se divertir com o futebol ou com as discotecas. Darcy
conta que frequentava as domingueiras para jovens de seu bairro. Enquanto o pipoqueiro
Eduardo Gomes, com 15 anos na época, juntava dinheiro para beber refrigerante nos
bailes, em Manguinhos:
-
Eu vendia balão de gás para arrumar um dinheiro para namorar, para comprar meus
sapatos, minhas roupas, tomar refrigerante no baile infantil que eu ia sempre. A
gente se divertia, mas naquela época as pessoas tinham medo de falar até no
trem.
A
vida era vigiada de perto. Nas escolas, livros eram censurados e aulas
controladas. Havia um movimento para a alienação da juventude, com a dança, o
rock, o esporte e até mesmo o surgimento de motéis. Alguns jovens, como
Eduardo, só ouviam falar ao longe de pessoas que sumiam sem deixar registro. Já
Darcy, filho de um combatente de guerra, entendia um pouco mais da situação
política obscura em que o país estava mergulhado:
-A ditadura me afetava porque eu era estudante e eu escutava dizer
que até o a forma como os professores ministravam as aulas dentro de sala era
controlado. Tudo era controlado. Na minha época não poderia ter liberdade de
você ter total acesso a informação, uma cultura geral sobre política... – Conta
Darcy.
No México, a seleção do rei Pelé derrotou a Itália
por 4 a 1 na final, no estádio Azteca. A festa para comemorar a vitória lotou o
centro do Rio de Janeiro. Foi um carnaval fora de época para ver os craques da
vitória com a taça Jules Rimet. Darcy lembra que era um entre um milhão e meio
de cariocas na Avenida Rio Branco:
- Eles (os jogadores) desfilaram de carro aberto no centro da cidade. O
centro estava tomado de pessoas, milhares e milhares de pessoas. Nesse dia, se
não me engano, foi feriado, fechou tudo, o país parou naquele dia em que o
Brasil ganhou. – recorda.
Os porões do futebol:
O regime mexe na seleção
Após o vexame da Copa de 66,
na Inglaterra, a seleção brasileira passava por um momento de descrédito. O
presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, tinha a
difícil missão de resolver o problema. Segundo o livro “História Institucional
da CBD”, nenhuma ação de Havelange estava fora da vigilância dos agentes do
Serviço Nacional de Informação.
Como conta a história, João
Saldanha assumiu o posto de técnico da seleção para salvar o time nas
eliminatórias. A escolha não teve ligação com política. Saldanha, comentarista
esportivo, não simpatizava com o regime militar. Mas, o fato era que ele
entendia de times campeões: deu ao Botafogo, em 1957, o título de campeão
carioca. Além disso, era carismático e poderia ser útil para aumentar a
popularidade do futebol brasileiro.
Com a escalação feita por
Saldanha, o Brasil venceu as seis partidas das eliminatórias. O apoio popular
cresceu muito. O último jogo, contra o Paraguai, foi visto por 180 mil
brasileiros, que vibraram ao presenciar o gol da vitória feito por Pelé. O
Maracanã cantou o hino nacional, em clima de festa, mesmo em tempos de AI-5.
Para o regime, já que o futebol deixava o povo feliz, Saldanha estava fazendo o
certo.
O presidente Médici disse,
em uma entrevista, ter uma admiração por Dario, centroavante do Atlético
Mineiro da época. Houve uma pressão dos dirigentes da CBD para que Saldanha
convocasse o jogador da preferência do general.
Os jornais publicaram a
resposta de Saldanha: “O presidente escala o ministério dele e eu escalo meu
time.” Segundo o jornal O Globo, a
partir disso, as relações ficaram estremecidas. O elenco da seleção foi
modificado e a vida de Saldanha como técnico ficou difícil. Zagallo foi chamado
para ser o novo treinador. Convocou Dario e foi para o México disputar a Copa
do Mundo. O povo ainda não acreditava na possibilidade do tricampeonato:
-Os brasileiros não acreditavam que aquela seleção podia
ganhar o tricampeonato. Mas tinha craques de renome... Pelé, Rivelino. No
primeiro jogo, contra a Tchecoslováquia, levou um susto logo no início. Lembro
que o Petráš fez um gol da Tchecoslováquia. Mas aí o Brasil logo, logo empatou
e goleou de 4 a 2 naquele jogo. E daí foi só cresceu. – Conta o torcedor Darcy
A ditadura estava ligada ao esporte. A campanha “Pra frente,
Brasil!”, hino da copa de 70, servia tanto para o milagre econômico, como para
o futebol. O ufanismo dos brasileiros daquele tempo era inflado pelo desempenho
de Rivelino, Pelé e seus companheiros no México.
-Eles
(militares) fizeram uma propaganda em torno da copa do mundo. Era quase uma
obrigação ganhar e eles tinham time para ganhar. Tinha até uma musiquinha que
falava assim “este é um país que vai pra frente, ô ô ô”. – Eduardo conta.
A
festa com a Copa do Mundo mascarava as torturas e mortes que o regime promovia.
Enquanto muitos desapareciam ou sofriam nos porões e nos DOPS, o povo festejava
as vitórias da seleção canarinho. O resto da história, todos já sabem. Brasil
voltou com o tricampeonato, mas a democracia só chegou 15 anos depois.
- A Copa era uma válvula de escape. Na época, o Brasil vivia
sob a tensão, a copa veio para desviar um pouco essa atenção, trazer o povo
para o nacionalismo, fazer com que o povo despertasse o nacionalismo nele e
visse o Brasil com outros olhos, um Brasil mais amigo. – Darcy
Se
o Brasil chegar à final, em julho deste ano, disputará a taça no Maracanã. Ao
que tudo indica, o povo estará nas ruas. Basta saber se vai haver festa, como
em 70, ou manifestação.

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