terça-feira, 3 de junho de 2014


O futebol em tempos difíceis:
A Copa do Mundo em 1970 e 2014

Isabel Gomes de Carvalho Aranha

A seleção que iria jogar pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970 começou a ser planejada desde 1966. O país, que em 1958 e em 1962 havia conquistado duas vitórias consecutivas, precisava se recuperar da eliminação ainda na fase de grupos do campeonato. Além disso, o Regime Militar, instituído em 1964, inaugurava seu período mais opressivo. A Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968, fez com que o povo, que se mostrava indignado com a ditadura, tivesse como resposta o AI-5.


Cartaz da Copa do Mundo de 1970
 
 
Caixa de texto: Cartaz da Copa do Mundo de 1970
João Havelange, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), tentava buscar uma maneira de dar um novo rumo ao time, que vinha sendo intensamente criticado, em especial, por João Saldanha, um dos mais influentes jornalistas esportivos da época. Assim, partindo da ideia de que “a imprensa fez o diagnóstico, ela que nos dê a receita de cura”, como escreveu Armando Nogueira em sua coluna no Jornal do Brasil, Havelange contratou Saldanha para ser técnico da seleção, ignorando sua notória militância no Partido Comunista do Brasil (PCB).
Assim com há 44 anos, o Brasil da Copa de 2014 enfrenta dificuldades em seu futebol. Em 2010, não tivemos uma campanha bem sucedida. Fomos eliminado nas quartas-de-final. Hoje, como país sede da disputa, a sociedade, que há sete anos sonhava em receber a competição em terras brasileiras, se mostra contrária ao grande evento. Campanhas como a “Não vai ter Copa” se espalham e críticas à preparação do time e à infraestrutura dos estádios são constantes.
Em 1970, João Havelange resolveu parte da insatisfação popular e da imprensa com a contratação de João Saldanha. Sobre essa decisão, Jones Rossi e Leonardo Mendes concluem em seu livro Guia Politicamente Incorreto do Futebol: “Em apenas uma tacada, ele transformava em vidraça um dos maiores críticos da CBD e recuperava o prestígio da seleção, que pouco entusiasmava o povo no período de Aymoré Moreira. Também transformava em cúmplice a imprensa, que era um dos setores mais críticos do fracasso brasileiro no Mundial da Inglaterra, em 66, e do trabalho do técnico Aymoré Moreira”.
Saldanha orienta Pelé durante treino da seleção em 1969
 
As Manifestações
Hoje, a sociedade usa a seu favor a visibilidade que o país ganhou para demonstrar sua insatisfação. No ano passado, durante a Copa das Confederações, manifestações reuniram mais de cem mil pessoas nas ruas do Rio de Janeiro. As causas eram diversas, mas o período ficou conhecido como das “Manifestações dos 20 centavos”, por causa das reclamações pelo aumento das tarifas de transporte público.
Há 44 anos, o descontentamento da população não era tão facilmente expressado. Felipe dos Santos Souza, assistente de documentação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, explica que, como a Copa de 1970 foi vivida sob o governo de Médici, considerado o mais duro dos ditadores militares, manifestações públicas que aproveitassem a visibilidade de um evento como esse, eram quase impensáveis. Havia o risco de detenção e de tortura.
No entanto, aqueles contrários ao governo acabavam encontrando maneiras mais simples de manifestar sua insatisfação. Felipe conta que “não faltam relatos de um comportamento dúbio dos próprios militantes, que mesmo frontalmente contrários ao regime militar, torciam abertamente pela Seleção Brasileira. Isso causava dificuldades em alguns jogos. Por exemplo, na partida contra a Tchecoslováquia, país cujo governo era fortemente vinculado às decisões do Partido Comunista, na União Soviética. Assim, ora os militantes de esquerda comemoravam meio sem jeito os gols tchecos, ora comemoravam timidamente os gols brasileiros, com medo de repreensões dos companheiros de militância”.
A Economia
Outra característica que deve ser levada em consideração ao compararmos os anos 1970 com a situação atual é a economia do país. Apesar da insatisfação com o Regime Militar, foi durante esse período que o Brasil viveu o chamado Milagre Econômico. Vivia-se um ciclo inédito na história nacional. O ano de 1969 fechara com 9,5% de crescimento do Produto Interno Bruno (PIB) e 11% de expansão do setor industrial. Em 1970, o crescimento foi de 10,4%. O Brasil tornara-se a décima economia do mundo, oitava do Ocidente, primeira do hemisfério sul. Em 2014, a previsão para o crescimento do PIB é de apenas 1,63%.
A vitória
            João Saldanha acabou sendo demitido em março de 1970, a três meses da Copa do Mundo. Zagallo assumiu a seleção, arrumando espaço para os “cinco camisas 10”, no time: Pelé, Rivellino, Jairzinho, Tostão e Gérson. “Dos treinadores que tive, Zagallo foi o único que sabia e treinava os detalhes táticos. Na época, os técnicos não se preocupavam com isso. Hoje, só pensam nisso.”, escreveu o jogador Tostão em sua coluna na Folha de S.Paulo em 12 de junho de 2005.
Comemoração da Copa do Mundo de 1970 em Copacabana
 
O descrédito da seleção não durou muito depois do início dos jogos de 1970. O time conquistou a vitória sobre a Itália, com o placar de 3 x 1 no estádio Azteca da Cidade do México. Aquela era a primeira Copa transmitida ao vivo e em cores. As multidões vitoriosas iam às ruas comemorar cantando versos como “Para frente Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
            Hubert Aranha, que tinha 11 anos em 1970 se lembra bem da animação que contagiava a todos no fim dos jogos. “Eu ia jogar bola com os outros meninos do bairro. Os jogos eram tão incríveis que nós tínhamos vontade de recriar as jogadas”. Como descreveu Elio Gaspari no livro A Ditadura Escancarada “País, futebol, Copa, seleção e governo misturavam-se num grande Carnaval de junho”.
            Para 2014, as previsões não são tão otimistas para o nosso time. Resta aos brasileiros, portanto, decidirem se serão torcedores ou críticos dessa Copa enfrentar as dificuldades e angústias que essa decisão acarreta.
 
 
 
O Brasil e seus times:
Os campeonatos de 70
            No início dos anos 1970, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) decidiu mais uma vez não inscrever os times brasileiros para competirem pela Taça Libertadores da América, assim como já tinha feito em 1966 e em 1969.
A Confederação alegava insatisfação com o calendário no torneio, que prejudicaria a preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo, e o excesso de violência dos adversários, que colocavam em risco a integridade física dos atletas. Essa edição foi vencida pelo time Estudiantes de La Plata, da Argentina e detém a maior goleada de todas as Taças Libertadores, no jogo em que o Peñarol, do Uruguai, venceu o Valencia, da Venezuela, por 11 x 2.
 
Time do Peñarol. No dia 15 de março de 1970, o time uruguaio venceu a partida contra o Valencia de 11 × 2.
Apesar da vitória sobre a Itália no dia 21 de junho, a campanha brasileira na Copa de 1970 não foi marcada apenas por tranquilidade. Fizemos uma ótima campanha nas eliminatórias para o mundial, vencendo seis dos seis jogos que participamos, em uma disputa que deixou países como Portugal, França, Hungria, Argentina e Espanha de fora do campeonato.

A seleção brasileira de 1970
No entanto, após a classificação do Brasil para a Copa de 1970, o técnico João Saldanha foi demitido às vésperas da estreia em junho. Saldanha teria entrado em diversas discussões e desentendimentos, que culminaram na sua substituição. Felipe dos Santos Souza, assistente de documentação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, explica que o técnico da seleção teria respondido à sugestão do presidente Médici para que Dario, atacante do Atlético Mineiro, fosse convocado. “Ele disse: o presidente que escale o ministério dele, que eu escalo o meu time”, conta Felipe.
No lugar de Saldanha, entrou Zagallo, que mudou o esquema tático do time, protegendo mais a defesa e aproveitando melhor a capacidade física dos jogadores, mudanças consideradas fundamentais para a conquista da Copa do Mundo de 1970. A vitória levou Zagallo ao primeiro time dos técnicos brasileiros, mas a saída de Saldanha até hoje divide opiniões. Há quem diga que Zagallo foi mais prudente e racional e há quem diga que Saldanha foi o verdadeiro mentor do time campeão, tendo sido demitido apenas por suas opiniões políticas. Para representar as duas linhas de pensamento, o jornalista João Máximo conclui “O Brasil não teria sido campeão mundial em 1970 sem o Saldanha de 1969, nem teria sido campeão mundial com o Saldanha de 1970”.
De volta ao Brasil, no dia 20 de setembro, teve início a décima quarta edição do Campeonato Brasileiro de Futebol, o único que contou com os 22 jogadores da seleção campeã daquele ano. Na época chamado de Taça Roberto Gomes Pedrosa, nome que vigorou entre 1967 e 1970, o torneio foi vencido pelo Fluminense, no dia 20 de dezembro.  Com a vitória, o time foi indicado para a Taça Libertadores da América, junto de seu vice, o Palmeiras.
O time do Fluminense que venceu a Taça Roberto Gomes Pedrosa
 
O “Robertão”, como era popularmente chamado, só foi reconhecido como uma forma de Campeonato Brasileiro em 2010, quanto o título de Campeão Brasileiro de Futebol de 1970 foi atribuído ao Fluminense. A diferença entre o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e o Campeonato Brasileiro é que, no primeiro, não havia divisões. O campeão estadual se classificava direto para o torneio. O Campeonato Brasileiro, a partir de 1971, passou a ter divisões com acesso e rebaixamento.
 

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