O futebol em tempos difíceis:
A Copa do Mundo em 1970 e 2014
A Copa do Mundo em 1970 e 2014
Isabel
Gomes de Carvalho Aranha
A seleção que iria jogar pelo Brasil
na Copa do Mundo de 1970 começou a ser planejada desde 1966. O país, que em
1958 e em 1962 havia conquistado duas vitórias consecutivas, precisava se
recuperar da eliminação ainda na fase de grupos do campeonato. Além disso, o
Regime Militar, instituído em 1964, inaugurava seu período mais opressivo. A
Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968, fez com que o povo, que se mostrava
indignado com a ditadura, tivesse como resposta o AI-5.
Cartaz
da Copa do Mundo de 1970


João Havelange, então presidente
da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), tentava buscar uma maneira de
dar um novo rumo ao time, que vinha sendo intensamente criticado, em especial,
por João Saldanha, um dos mais influentes jornalistas esportivos da época.
Assim, partindo da ideia de que “a imprensa fez o diagnóstico, ela que nos dê a
receita de cura”, como escreveu Armando Nogueira em sua coluna no Jornal do Brasil, Havelange contratou
Saldanha para ser técnico da seleção, ignorando sua notória militância no
Partido Comunista do Brasil (PCB).
Assim com há 44 anos, o Brasil da
Copa de 2014 enfrenta dificuldades em seu futebol. Em 2010, não tivemos uma
campanha bem sucedida. Fomos eliminado nas quartas-de-final. Hoje, como país
sede da disputa, a sociedade, que há sete anos sonhava em receber a competição
em terras brasileiras, se mostra contrária ao grande evento. Campanhas como a
“Não vai ter Copa” se espalham e críticas à preparação do time e à
infraestrutura dos estádios são constantes.
Em 1970, João Havelange resolveu
parte da insatisfação popular e da imprensa com a contratação de João Saldanha.
Sobre essa decisão, Jones Rossi e Leonardo Mendes concluem em seu livro Guia Politicamente Incorreto do Futebol:
“Em apenas uma tacada, ele transformava em vidraça um dos maiores críticos da
CBD e recuperava o prestígio da seleção, que pouco entusiasmava o povo no
período de Aymoré Moreira. Também transformava em cúmplice a imprensa, que era
um dos setores mais críticos do fracasso brasileiro no Mundial da Inglaterra,
em 66, e do trabalho do técnico Aymoré Moreira”.
Saldanha
orienta Pelé durante treino da seleção em 1969
As
Manifestações
Hoje, a sociedade usa a seu favor
a visibilidade que o país ganhou para demonstrar sua insatisfação. No ano
passado, durante a Copa das Confederações, manifestações reuniram mais de cem
mil pessoas nas ruas do Rio de Janeiro. As causas eram diversas, mas o período
ficou conhecido como das “Manifestações dos 20 centavos”, por causa das
reclamações pelo aumento das tarifas de transporte público.
Há 44 anos, o descontentamento da
população não era tão facilmente expressado. Felipe dos Santos Souza,
assistente de documentação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB),
do Museu do Futebol, explica que, como a Copa de 1970 foi vivida sob o governo
de Médici, considerado o mais duro dos ditadores militares, manifestações
públicas que aproveitassem a visibilidade de um evento como esse, eram quase
impensáveis. Havia o risco de detenção e de tortura.
No entanto, aqueles contrários ao governo acabavam
encontrando maneiras mais simples de manifestar sua insatisfação. Felipe conta
que “não faltam relatos de um comportamento dúbio dos próprios militantes, que
mesmo frontalmente contrários ao regime militar, torciam abertamente pela
Seleção Brasileira. Isso causava dificuldades em alguns jogos. Por exemplo, na
partida contra a Tchecoslováquia, país cujo governo era fortemente vinculado às
decisões do Partido Comunista, na União Soviética. Assim, ora os militantes de
esquerda comemoravam meio sem jeito os gols tchecos, ora comemoravam
timidamente os gols brasileiros, com medo de repreensões dos companheiros de
militância”.
A
Economia
Outra característica que deve ser
levada em consideração ao compararmos os anos 1970 com a situação atual é a
economia do país. Apesar da insatisfação com o Regime Militar, foi durante esse
período que o Brasil viveu o chamado Milagre Econômico. Vivia-se um ciclo
inédito na história nacional. O ano de 1969 fechara com 9,5% de crescimento do
Produto Interno Bruno (PIB) e 11% de expansão do setor industrial. Em 1970, o
crescimento foi de 10,4%. O Brasil tornara-se a décima economia do mundo,
oitava do Ocidente, primeira do hemisfério sul. Em 2014, a previsão para o
crescimento do PIB é de apenas 1,63%.
A
vitória
João Saldanha acabou sendo demitido
em março de 1970, a três meses da Copa do Mundo. Zagallo assumiu a seleção,
arrumando espaço para os “cinco camisas 10”, no time: Pelé, Rivellino,
Jairzinho, Tostão e Gérson. “Dos treinadores que tive, Zagallo foi o único que
sabia e treinava os detalhes táticos. Na época, os técnicos não se preocupavam
com isso. Hoje, só pensam nisso.”, escreveu o jogador Tostão em sua coluna na Folha de S.Paulo em 12 de junho de 2005.
Comemoração
da Copa do Mundo de 1970 em Copacabana
O
descrédito da seleção não durou muito depois do início dos jogos de 1970. O
time conquistou a vitória sobre a Itália, com o placar de 3 x 1 no estádio
Azteca da Cidade do México. Aquela era a primeira Copa transmitida ao vivo e em
cores. As multidões vitoriosas iam às ruas comemorar cantando versos como “Para
frente Brasil” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Hubert Aranha, que tinha 11 anos em
1970 se lembra bem da animação que contagiava a todos no fim dos jogos. “Eu ia
jogar bola com os outros meninos do bairro. Os jogos eram tão incríveis que nós
tínhamos vontade de recriar as jogadas”. Como descreveu Elio Gaspari no livro A Ditadura Escancarada “País, futebol,
Copa, seleção e governo misturavam-se num grande Carnaval de junho”.
Para 2014, as previsões não são tão
otimistas para o nosso time. Resta aos brasileiros, portanto, decidirem se
serão torcedores ou críticos dessa Copa enfrentar as dificuldades e angústias
que essa decisão acarreta.
O
Brasil e seus times:
Os campeonatos de 70
No início dos anos 1970, a Confederação Brasileira
de Desportos (CBD) decidiu mais uma vez não inscrever os times brasileiros para
competirem pela Taça Libertadores da América, assim como já tinha feito em 1966
e em 1969.
A Confederação alegava
insatisfação com o calendário no torneio, que prejudicaria a preparação da
seleção brasileira para a Copa do Mundo, e o excesso de violência dos
adversários, que colocavam em risco a integridade física dos atletas. Essa
edição foi vencida pelo time Estudiantes de La Plata, da Argentina e detém a
maior goleada de todas as Taças Libertadores, no jogo em que o Peñarol, do
Uruguai, venceu o Valencia, da Venezuela, por 11 x 2.
Time do
Peñarol. No dia 15 de março de 1970, o time uruguaio venceu a partida contra o
Valencia de 11 × 2.
Apesar
da vitória sobre a Itália no dia 21 de junho, a campanha brasileira na Copa de
1970 não foi marcada apenas por tranquilidade. Fizemos uma ótima campanha nas
eliminatórias para o mundial, vencendo seis dos seis jogos que participamos, em
uma disputa que deixou países como Portugal, França, Hungria, Argentina e
Espanha de fora do campeonato.
A seleção
brasileira de 1970
No
entanto, após a classificação do Brasil para a Copa de 1970, o técnico João
Saldanha foi demitido às vésperas da estreia em junho. Saldanha teria entrado
em diversas discussões e desentendimentos, que culminaram na sua substituição. Felipe
dos Santos Souza, assistente de documentação do Centro de Referência do Futebol
Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, explica que o técnico da seleção teria
respondido à sugestão do presidente Médici para que Dario, atacante do Atlético
Mineiro, fosse convocado. “Ele disse: o presidente que escale o ministério dele,
que eu escalo o meu time”, conta Felipe.
No
lugar de Saldanha, entrou Zagallo, que mudou o esquema tático do time,
protegendo mais a defesa e aproveitando melhor a capacidade física dos
jogadores, mudanças consideradas fundamentais para a conquista da Copa do Mundo
de 1970. A vitória levou Zagallo ao primeiro time dos técnicos brasileiros, mas
a saída de Saldanha até hoje divide opiniões. Há quem diga que Zagallo foi mais
prudente e racional e há quem diga que Saldanha foi o verdadeiro mentor do time
campeão, tendo sido demitido apenas por suas opiniões políticas. Para
representar as duas linhas de pensamento, o jornalista João Máximo conclui “O
Brasil não teria sido campeão mundial em 1970 sem o Saldanha de 1969, nem teria
sido campeão mundial com o Saldanha de 1970”.
De volta ao Brasil, no dia 20 de
setembro, teve início a décima quarta edição do Campeonato Brasileiro de
Futebol, o único que contou com os 22 jogadores da seleção campeã daquele ano.
Na época chamado de Taça Roberto Gomes Pedrosa, nome que vigorou entre 1967 e
1970, o torneio foi vencido pelo Fluminense, no dia 20 de dezembro. Com a vitória, o time foi indicado para a
Taça Libertadores da América, junto de seu vice, o Palmeiras.
O time do
Fluminense que venceu a Taça Roberto Gomes Pedrosa
O “Robertão”, como era
popularmente chamado, só foi reconhecido como uma forma de Campeonato
Brasileiro em 2010, quanto o título de Campeão Brasileiro de Futebol de 1970
foi atribuído ao Fluminense. A diferença entre o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e
o Campeonato Brasileiro é que, no primeiro, não havia divisões. O campeão
estadual se classificava direto para o torneio. O Campeonato Brasileiro, a
partir de 1971, passou a ter divisões com acesso e rebaixamento.






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