terça-feira, 3 de junho de 2014


Brasil, o país do futebol

A copa de 70 e a de 2014

A paixão do brasileiro pelo futebol em momentos distintos do país
Por Nina Lantos 

Noventa milhões em ação. Pra frente Brasil, do meu coração. Todos juntos, vamos pra frente Brasil. Salve a seleção! A copa do mundo de 1970, com sede no México, consagrou a seleção brasileira tricampeã mundial. Pela primeira vez, os brasileiros tiveram a chance de acompanhar a disputa pela televisão e não podiam estar mais radiantes com os resultados.

Apesar da ditadura militar instaurada, o clima era de felicidade geral. Diferentemente de 1970, hoje o clima pré-copa é outro, manifestações e protestos marcam a insatisfação da população com a copa de 2014, que vai ter como sede o Brasil. A principal crítica ao evento é o desvio de verbas.

Brasil tricampeão

Em campo, a seleção brasileira era o oposto daqueles tempos obscuros do governo militar, jogava um futebol de sonhos, impressionava o mundo com sua arte e fazia os 90 milhões em ação vibrarem juntos. Cláudio Bruno tinha 20 anos na época e conta que a pressão da existência da ditadura foi apagada pela euforia da copa.

Denise Pena tinha apenas 11 anos, mas tem marcada na memória a felicidade generalizada no país. “Cortávamos quilos e mais quilos de papel verde e amarelo, quando saía um gol do Brasil jogávamos tudo para o alto e pela janela. Quando a seleção voltou do México eu fui com minha família recebê-los na Princesa Isabel."
 
 
 Ao final de cada jogo do Brasil havia um desfile de carros do Leme ao Leblon e os jovens se reuniam para confraternizar. “Era um carnaval fora de época, soltávamos rojões e íamos para a praia fazer barulho”, conta Cláudio. Hoje em dia o Baixo Gávea roubou o posto de local de comemoração, ao final dos jogos, não necessariamente do Brasil, todos os jovens se encontram lá para interagir.
Na época, Claudio era um típico jovem carioca, influenciado pelos hippies tinha cabelo grande e usava roupas chamativas e calças baixas com boca de sino. Hoje em dia sua visão sobre a copa é completamente diferente. “Eu não estou nem um pouco ligado nessa copa, acho que não era o momento certo, estou mais propenso a protestar contra a corrupção do mundial. Não sou contra a copa ser no Brasil, sou contra a roubalheira que se deu com isso.”
        O estudo “Brasil sustentável – Impactos Socioeconômicos da Copa do Mundo 2014”, feito pela Ernst&Young , mostra que os investimentos para a Copa do Mundo de 2014, mesmo havendo desvio de verbas, vão produzir um efeito cascata surpreendente nos investimentos realizados no país, a economia deslanchará e milhões de empregos serão criados. Segundo o portal da transparência 22 bilhões de reais foram investidos em infraestrutura, mobilidade urbana, segurança pública, etc.
         Segundo o jornalista e historiador Lúcio de Castro, apesar de estudos afirmando que benefícios na economia brasileira vão superar os investimentos feitos para a copa de 2014, na realidade não é assim. “O PIB imediato cresce, diz-se que é um sucesso. Mas a história mostra que dívidas seguem por anos e muitas nações sedes de grandes eventos chegaram a quebrar. Mas acima de tudo essa não é uma questão matemática, existe uma insatisfação pelo custo moral em se ver dinheiro público sendo gasto com tantas carências.”
            Outra reclamação comumente ouvida é de que o futebol de hoje em dia é mais um negócio do que um esporte. Para Cláudio falta a antiga paixão, ele não hesita em dizer que a seleção de 70 ganharia com facilidade da de 2014. Já Lúcio diz que tal comparação pura e simples não é possível. “Teríamos obviamente que dotar o time de 70 com igual condição física, etc. Mas hipoteticamente tendo as mesmas condições, o time de 70 ganharia. Ainda que eu pense ser esse time atual muito bom e talvez mais equilibrado, mas o talento em 70 era obviamente maior. E existia um fator que desequilibraria em qualquer tempo: Pelé.”


            A copa de 2014 não recebe somente críticas e manifestações da oposição. Marcelo Bruno, filho de Claudio, ao contrario do pai, está muito animado, marcou churrasco para pintar a rua e fez bolão com os amigos. “Na minha opinião, os protestos deveriam acontecer quando o Brasil se candidatou para ser sede, e não agora, mas na época ninguém reclamou, e agora quer protestar.” Marcelo comprou ingresso para todos os jogos que acontecerão no Rio de Janeiro, está tão animado com a copa que fez uma poupança com mais 5 amigos para irem para a próxima, na Rússia.

 
 
O futebol e
a ditadura
 
Em 1970 o Brasil se encontrava em estado de segurança nacional, nada escapava ao controle do regime militar, e a maior paixão do brasileiro não estava livre. O futebol durante a ditadura não é visto apenas como algo a ser controlado, mas sim como um imenso potencial de propaganda, e por isso o esporte foi, mais do que nunca, trazido para perto do governo.
O documentário “Memórias do Chumbo – O Futebol nos tempos do Condor” é uma série de episódios que mostram a relação do futebol com as ditaduras da América Latina. Lúcio de Castro, idealizador e produtor do projeto, queria explicitar como o futebol foi usado como propaganda política pelos regimes militares. “Me incomodava muito um chavão que se repetiu durante anos, de que o futebol foi usado pela ditadura. OK, mas queria entender como, precisava ir além e contar essa história.”
            Segundo Lúcio, durante a Copa de 1966, na Inglaterra, o planejamento para utilização política do futebol foi maior do que em 1970. Era o começo da ditadura militar e ela procurou na seleção brasileira uma peça de propaganda. Mas a interferência do governo no processo de treinamento foi uma das causas da derrota incontestável em campo. Escaldados, os militares foram mais cautelosos com esse uso político em 1970.
 “O medo do tiro sair pela culatra novamente, como em 66, fez com que intensificassem essa propaganda política com a seleção de acordo com as vitórias do time. Conforme ia tendo sucesso, aumentava essa relação. Com a vitória e conquista da taça, aí sim vira definitivamente uma peça de propaganda”, conta Lúcio.
O que muitos não sabem é que o futebol, além de ser usado como propaganda política, também era usado de alguma maneira como forma de resistência. Muitas vezes, em momentos em que a população não podia falar, se valeu do futebol para se expressar, mostrar seu desacordo com o que ocorria. Protestos e resistência surgiram dentro dos estádios.


A Copa de 70 foi a primeira copa do mundo a ser televisionada no Brasil. Além de toda a dificuldade da cobertura do evento por nunca ter sido feito antes, ainda tinham os problemas por conta do controle feito pelo governo. Todo mundo era vigiado, até o credenciamento era submetido ao regime militar. Mas, segundo Lúcio, havia uma liberdade que não existe hoje em dia. “Tinha o outro lado, de um tempo ainda romântico, onde jornalistas tinham mais acesso aos jogadores, conversas além das coletivas engessadas de hoje.”
 Hoje questiona-se as conseqüências políticas da copa no Brasil e se a vitória do Brasil faria com que a população esquecesse suas insatisfações. Segundo Lúcio, assim como as ditaduras, democracias também usam o futebol e o esporte de maneira geral como instrumento de propaganda. Mas claro que democracias e ditaduras irão sempre guardar diferenças nos métodos e processos.

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

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